Espécie da vez

Dócil e curioso, peixe-boi está ameaçado de extinção

Entre 4 e 10 mil peixes-bois-amazônicos foram mortos pelo seu couro e carne entre 1935 e o início da década de 1960

Foto Institucional Peixe-boi-marinho descansando em Three Sisters Springs, Florida, enquanto faz sombra para um cardume de peixes / Crédito: Keith Ramos/USFWS Endangered Species/Flickr
10 de Agosto de 2015

Eles são verdadeiros gigantes das águas, podendo chegar a medir até quatro metros de comprimento e pesar mais de meia tonelada. Sua envergadura imponente é um contraste ao seu comportamento: inofensivo, simpático, dócil e curioso. Assim são os peixes-boi que, apesar do nome, não são peixes, mas sim, mamíferos aquáticos.

Os grandalhões, também conhecidos como vacas-marinhas ou manatis, são divididos em três espécies: peixe-boi-marinho (Trichechus manatus), amplamente distribuído nas Américas, inclusive no Brasil; peixe-boi-africano (Trichechus senegalensis), natural das águas doces e costeiras do oeste da África; e o peixe-boi-da-amazônia (Trichechus inunguis), animal fluvial que vive nas bacias dos rios Amazonas e Orinoco. São citadas ainda duas subespécies: Trichechus manatus manatus, nas Antilhas; e Trichechus manatus latirostris, na Flórida. Eles geralmente habitam águas costeiras e estuarinas quentes e rasas, bem como pântanos.

A coloração do corpo varia entre acinzentada e marrom-acinzentado e seu couro é áspero. Sua cauda achatada lhe permite nadar numa velocidade de 5 a 8 km/h e realizar manobras com incrível fluidez. Os pequenos olhos são capazes de reconhecer cores e a audição acontece por meio de dois pequenos orifícios localizados um pouco atrás dos olhos. Outra característica do peixe-boi é a habilidade de emitir pequenos gritos ou cantos, chamados vocalizações, que permite a comunicação entre os animais.

Herbívoros, os peixes-boi ingerem grandes quantidades de alimento, comendo de oito a 13% do seu peso corporal por dia, atividade que ocupa de seis a oito horas diárias. Sua dieta consiste em algas, aguapés e capins aquáticos, entre outras vegetações aquáticas.

Reprodução

O peixe-boi é um animal com uma taxa reprodutiva muito baixa. O período de gestação das fêmeas dura 13 meses, após os quais a mãe amamenta o filhote por um a dois anos. Ela tem apenas um filhote a cada quatro anos, uma vez que só voltará ao período reprodutivo um ano após o desmame.

Nos primeiros dias de vida, o filhote alimenta-se exclusivamente do leite da mãe, fundamental para seu desenvolvimento. Com o passar do tempo, ele começa a imitar a alimentação da matriarca e passa a ingerir também pequenas algas e capim-agulha.

A época de amamentação e acasalamento são algumas das poucas ocasiões em que se pode observar o peixe-boi em grupos ou pares, já que é um animal com hábitos solitários.

Fôlego

Quando estão em atividade, os peixes-bois podem ficar de um a cinco minutos debaixo d'água sem respirar. Depois, eles precisam subir à superfície para "reabastecer" os pulmões. Por outro lado, se estiverem em repouso, eles podem permanecer até 20 minutos submersos.

Ecossistema

De acordo com o projeto Peixe-Boi, o animal limpa os manguezais e controla a biodiversidade marinha, evitando que algas se acumulem em um único local da costa, ou alcancem as superfícies litorâneas e dificultem a vida marinha nesses locais. Alguns elementos provenientes de suas fezes também são importantes para a reprodução de determinadas formas de vida nos mares, pois são alimento de muitas larvas de pequenos peixes, os quais servem como base da dieta de outros animais maiores.

Extinção

Como são muito mansos, os peixes-boi são iscas fáceis para a caça. Capturas acidentais, perda do habitat, desmatamento, trânsito de embarcações e assoreamento dos estuários onde as fêmeas dão à luz os filhotes também são ameaças à sua sobrevivência.

Em artigo publicado pelo portal O Eco, o biólogo e doutor em zoologia Fabio Olmos relata um massacre impiedoso à espécie. Segundo ele, os peixes-boi-amazônicos foram caçados em escala industrial desde o Brasil Colônia e há registros de sua carne e óleo sendo exportados do então Grão Pará no século XVII. "Estima-se que entre 1.000 e 2.000 animais foram mortos por ano entre 1780 e 1925. O número cresceu tremendamente após 1935, com a industrialização do Brasil e o surgimento da demanda por correias de motores e outros usos para couros grossos e resistentes", conta.

Para Olmos, a armadura do peixe-boi foi sua desgraça. Conforme seu relato, entre 4 e 10 mil peixes-bois-amazônicos foram mortos pelo seu couro e carne - a "mixira", ainda apreciada em partes da Amazônia - entre 1935 e o início da década de 1960, quando o colapso das populações e o uso de materiais sintéticos, além da lei de proteção à fauna de 1967, reduziram a matança - que hoje continua, apesar de tudo.

As três espécies de peixe-boi estão listadas pela União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN - International Union for Conservation of Nature) como vulneráveis à extinção.

Proteção

No início dos anos 1980, o governo federal criou o Projeto Peixe-boi Marinho para recuperar a espécie, que havia praticamente desaparecido das águas do Brasil. De acordo com o Ministério do Meio Ambiente (MMA), o peixe-boi marinho já foi o mamífero aquático mais ameaçado de extinção no país e estava classificado como Criticamente em Perigo (CR). Estima-se que na época havia apenas 500 animais em todo território brasileiro. Na década seguinte, o projeto passou a contar com o apoio de algumas ONGs no trabalho pela conservação da espécie.

O Centro de Mamíferos Aquáticos do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (CMA/ICMBio) coordena o trabalho de proteção da espécie e o Plano de Ação Nacional para Conservação dos Sirênios, composto por 93 ações voltadas para melhorar o status de conservação do peixe-boi-marinho. As duas espécies de peixe-boi brasileiras, o Trichechus manatus, peixe-boi-marinho que se encontra criticamente ameaçado de extinção pelo ICMBio; e o Trichechus inunguis, peixe-boi-da-amazônia considerado como vulnerável à extinção pelo mesmo órgão, são alvo de três planos de conservação: PAN Sirênios, PAN Xingu e PAN Manguezais. Além disso, o CMA coordena a Rede de Encalhe de Mamíferos Aquáticos (Remane).

Mais de 100 peixes-bois já passaram pelo CMA, representando uma grande parcela da população brasileira. Durante a reabilitação, os mamíferos são avaliados - genética, clínica e comportamentalmente - e os que apresentam condições favoráveis para soltura são transportados para o recinto de aclimatação em ambiente natural, no rio Tatuamunha, em Alagoas, único cativeiro em ambiente natural em operação no país atualmente, segundo o Ministério do Meio Ambiente.

Nos últimos 20 anos, o programa de reintrodução do Projeto Peixe-boi, executado pelo CMA/ICMBio, já soltou mais de 40 peixes-bois. No Brasil reintroduziu 40 animais na natureza, com uma taxa de sucesso de 75%.


Fontes: Ministério do Meio Ambiente, O Eco, Fundação Mamíferos Aquáticos

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