Quase a metade dos insetos do mundo podem ser extintos nas próximas décadas

Cerca de 76% dos alimentos cultivados no Brasil dependem dos polinizadores. Um mundo sem insetos, é um mundo sem comida, alertam cientistas.

Apesar de representarem 90% de todas as espécies de animais do mundo, os insetos enfrentam grande ameaça de extinção. Devido ao desmatamento, ao uso excessivo de agrotóxicos e à expansão das monoculturas, 40% das espécies podem desaparecer nas próximas décadas. O Atlas dos Insetos, lançado pela Fundação Heinrich Böll, alerta para a conservação desses animais, afinal, em um mundo sem insetos a humanidade ficaria sem comida.

Resultado do trabalho de 34 cientistas brasileiros e estrangeiros, o Atlas ressalta a importância dos insetos para a manutenção dos ecossistemas. Esses animais polinizam plantações, sendo fundamentais para a produção de alimentos, melhoram a qualidade dos solos, participam do processo de decomposição de matéria orgânica e contribuem com a diversidade genética dos vegetais.

As mudanças climáticas e o atual modelo de agricultura, baseado no uso intenso de agrotóxicos, são as maiores ameaças ao grupo. Utilizados proteger vegetais de pragas, os pesticidas atingem os animais invasores e também os polinizadores. As mariposas, por exemplo, são envenenadas por compostos usados contra a lagarta da soja. Em alguns casos, os agrotóxicos matam até os predadores das espécies combatidas, como as joaninhas, controladoras naturais de pragas.

De acordo com o levantamento, 76% das espécies alimentares cultivadas no Brasil dependem dos polinizadores. Além de aumentar a produtividade dos cultivos, a polinização feita por animais gera frutos e sementes de melhor aparência e qualidade. Nos pomares de citricultura, as abelhas são responsáveis por 66% da polinização das laranjeiras. Estima-se que a produção de laranjas aumenta em 35,3% com a ação desses insetos.

“O valor estimado da polinização para a produção de alimentos no país foi de R$ 43 bilhões em 2018, considerando o valor da produção e o incremento de produtividade associado aos polinizadores. Desta forma, inúmeros cultivos de frutos e sementes consumidos pela população brasileira e exportados são dependentes de polinizadores, como é o caso de soja, café, laranja, maçã, melancia, maracujá, tangerina, melão e castanha-do-brasil”, indicou o Atlas.

Lavouras envenenadas

O Brasil é um dos países mais ricos em insetos do mundo, e também um dos que mais consome agrotóxicos. Desde 2016, o índice de liberação de novas substâncias disparou no país. Entre 2019 e 2021, foram registrados 1,3 mil novos produtos. Entre 2006 e 2017, enquanto a área cultivada cresceu 26% no Brasil, as vendas de agrotóxicos saltaram, em números oficiais, de 204,1 mil toneladas para 541,8 mil.

O governo brasileiro tem omitido dados e incentivado o uso de agrotóxicos. Apuração da Repórter Brasil e Agência Pública, mostrou que 72% dos tóxicos liberados no país em 2018 não tiveram os volumes de venda divulgados. Quase a metade (46%), dos químicos cujos dados são “desconhecidos”, estão no prato dos brasileiros.

O volume de veneno no prato será ainda maior se o governo conseguir aprovar o Projeto de Lei 6299/2002, mais conhecido como “Pacote do Veneno”. A proposta desmantela lei dos agrotóxicos e permite até o registro de substâncias cancerígenas.

Apesar dos malefícios comprovados, ainda há inúmeras isenções de tributos ou redução de imposto para esses produtos. Segundo dados da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), o valor total dos benefícios fiscais concedidos à agrotóxicos em 2020 representa quase quatro vezes o orçamento do Ministério do Meio Ambiente para aquele ano (R$ 2,7 bilhões).

Agroecologia pode ser a solução

“Para resguardar os insetos, os sistemas de agricultura têm que apostar na (bio)diversidade de novo”. É assim que os autores do Atlas apontam uma solução para o modelo agrícola atual. Para eles, a agroecologia é a melhor solução, uma vez que a prática une produção e sustentabilidade, utilizando os recursos naturais a seu favor, sem esgotá-los.

De acordou com o levantamento, “quanto maior o número de espécies em determinado cultivo, maior será o número de interações tróficas entre seus componentes e, em consequência, será possível estabilizar as comunidades de insetos”. Os agroecossistemas biodiversos são capazes de controlar naturalmente os insetos danosos, além de impedir o declínio populacional e a extinção dos insetos polinizadores.

 

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