Cerrado pode entrar em colapso nos próximos 30 anos

Cerrado é considerado berço das águas

Avanço da agropecuária torna o Cerrado mais seco e quente. Até 2050 é esperado aumento de 6°C  na temperatura do bioma em comparação à década de 1960.

Essencial para a segurança hídrica no Brasil, o Cerrado já teve mais da metade da sua vegetação nativa dizimada nas últimas décadas. O desmatamento causado, sobretudo, pelo avanço da agropecuária, pode fazer o bioma entrar em colapso dentro de 30 anos se o ritmo atual de destruição persistir. A conclusão é de artigo baseado em pesquisas de 12 cientistas brasileiros publicado na revista Global Change Biology.

O estudo analisa como a conversão do Cerrado em áreas de cultivo e pastos para gado está acelerando as mudanças climáticas no bioma, tornando-o cada vez mais quente e seco. Entre 1961 e 2019, já foram registrados aumentos em torno de 2°C nas temperaturas máximas mensais. Se esta tendência continuar, a temperatura será 6°C mais alta em 2050 em comparação a 1961, indicou o artigo.

De acordo com os pesquisadores, a substituição da vegetação nativa por grandes lavouras causa desequilíbrio no bioma. Isto por que, durante os meses secos, as raízes das árvores sugam a água de aquíferos a até 15 metros de profundidade, o que permite as plantas soltarem água na atmosfera por meio da transpiração e evaporação. Com a derrubada das árvores, esse processo deixa de acontecer e a umidade do ar diminui.

“Na estação seca, os fazendeiros não plantam nada no Cerrado. Eles deixam o solo nu ou [coberto] com matéria orgânica morta. Como não há plantas para absorver a energia do sol e fazer fotossíntese, toda essa energia é usada para aquecer o ar, e a temperatura aumenta”, explicou Gabriel Hofmann, doutor em Ecologia e principal autor do estudo.

Desmatamento causa perda de biodiversidade e agrava crise hídrica

Por situar-se na região central do Brasil, o Cerrado abriga zonas de transição com a Mata Atlântica, Amazônia, Caatinga e Pantanal, o que resulta em expressiva riqueza de espécies. Estima-se que o bioma possua um terço da biodiversidade brasileira e 5% da biodiversidade global. No entanto, tamanha riqueza está em risco devido à intensificação das secas e do calor.

Plantas menores, que não têm raízes longas, são as mais ameaçadas, junto de insetos e aranhas. Durante a estação seca, esses animais e plantas dependem do orvalho, formado quando a umidade do ar precipita por condensação em forma de gotas, devido à diminuição da temperatura. Com menos árvores, menos vapor de água no ar e temperaturas mais altas, o orvalho é cada vez mais raro.

Hofmann ressalta que sem os insetos polinizadores, como as abelhas, o ecossistema entra em colapso. E um colapso no Cerrado ameaça não só sua biodiversidade, mas também agrava a crise hídrica enfrentada pelo Brasil, cujos reservatórios já estão chegando a níveis críticos. Isso é ainda mais preocupante em um país que gera 65% de sua eletricidade através de hidrelétricas.

Comumente chamado de “caixa d’água” do Brasil, o Cerrrado alimenta três aquíferos e seis das oito grandes bacias hidrográficas brasileiras. O bioma é como uma floresta invertida: enquanto as árvores da Amazônia são grandes com raízes pequenas, as do Cerrado são menores, com raízes extensas. Ele funciona como uma grande esponja, que absorve e distribui a água por toda região, garantindo a sobrevivência de grande parte da população brasileira.

“Se preservarmos a Amazônia e o Cerrado, preservaremos as fontes de água em geral. Estamos falando de duas áreas extremamente importantes, e ambas têm sido desmatadas, queimadas ou alteradas”, destacou Francisco Aquino, professor de Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e um dos autores do estudo. 

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