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A água da torneira é segura para beber?

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A água da torneira é segura para beber?

Em 763 cidades brasileiras, a água consumida pela população está contaminada por substâncias químicas e radioativas, apontou o Mapa da Água, realizado pela Repórter Brasil. Segundo o levantamento, um em cada quatros municípios que fizeram testes na água entre 2018 e 2020 encontraram produtos tóxicos em níveis acima do permitido em suas redes de abastecimento.

Os dados que compõem o mapa são resultados de testes feitos pelas empresas e instituições responsáveis pelo abastecimento. Eles integram a base de controle do Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano, o Sisagua, do Ministério da Saúde.

O mapa traz um “alerta máximo” para os locais onde a mesma substância esteve acima da concentração máxima permitida por três anos seguidos – um indicativo de contaminação contínua que aumenta os riscos à saúde. Esse é o cenário mais arriscado para o desencadeamento das doenças. No total, 96 municípios estão nesta categoria.

A pesquisa mostra que as substâncias mais encontradas nas amostras foram agrotóxicos e resíduos industriais. As cidades mais afetadas pelos produtos foram Florianópolis, com 26 testes acima do limite, São Paulo, com 13, e Guarulhos, com 11.

O estado de São Paulo foi o com mais substâncias químicas e radioativas acima do permitido, com 1.298 detecções. São Paulo também foi o estado que mais testou sua água: foram 763.595 testes consistentes, o equivalente a 45% de todos os testes feitos no país no período analisado.

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No quesito agrotóxicos, o Paraná foi o estado mais afetado. Foram 47 testes acima do limite permitido. Em seguida, aparecem São Paulo, com 15 testes acima do limite, e Goiás, com 11.

Entre 2018 e 2020, 50 cidades sofreram com pesticidas acima do limite. O levantamento mostra que 21 dos pesticidas presentes na água do Brasil são proibidos na União Europeia e cinco são considerados “substâncias eternas”, isto é, tão resistentes que nunca se degradam.

Embora não sejam imediatos, os sintomas da contaminação podem ser graves. Pesquisas associam essas substâncias a mutações genéticas, câncer e várias outras doenças reconhecidas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e agências regulatórias da União Europeia, Estados Unidos, Canadá e Austrália.

O nitrato, por exemplo, terceira substância que mais excedeu o limite permitido, é classificado como “provavelmente cancerígeno” pela OMS. O composto é usado na fabricação de fertilizantes, conservantes de alimentos, explosivos e medicamentos.

O tratamento que contamina

O tratamento da água é essencial para impedir a propagação de doenças como a cólera, giardíase, disenteria e febre tifoide. Mas, já imaginou que o próprio tratamento também pode contaminar a água? Isso acontece quando o cloro interage com algas, esgoto ou resíduos de agrotóxicos presentes na água, gerando os “subprodutos da desinfecção”.

De acordo com o levantamento, um a cada cinco testes realizados em 493 cidades brasileiras indicou a presença de subprodutos em excesso. Trihalometanos e ácidos haloacéticos foram os compostos mais encontrados em quantidades acima do limite. Esse grupo também é classificado como “possivelmente cancerígeno” pela OMS.

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São Paulo, que lidera as contaminações, foi o estado que mais sofreu com os produtos derivados do processo de desinfecção. Mesmo com os níveis acima do limite, a população não foi informada sobre os riscos à saúde e as alternativas para minimizar o perigo.

As empresas de abastecimento são obrigadas, por lei, a fazer testes para monitorar a presença de agrotóxicos, subprodutos de desinfecção, parâmetros radioativos, substâncias orgânicas, inorgânicas e organolépticas, que geram alterações percebidas pelo sabor, cheiro e cor da água. Mas, na prática, isso nem sempre acontece.

O Mapa da Água mostra que mais da metade dos municípios brasileiros têm deficiências no envio dos dados à autoridade de saúde responsável. Algumas empresas sequer enviam relatórios, enquanto outras produzem dados insuficientes. O cenário é mais preocupante no Norte do Brasil.

Não há informações sobre a qualidade da água no Acre, Amapá, Rondônia e Roraima. No Nordeste, o Rio Grande do Norte e o Alagoas também não possuem dados sobre a qualidade da água.

Ainda é possível beber água limpa?

Existem várias formas de purificar a água e torná-la potável. A limpeza pode ser feita por métodos mais tradicionais, como filtragem, cloração e decantação, e métodos mais complexos, como desinfecção por ultravioleta e dupla filtração. Mas, estes métodos ainda são pouco eficazes para retirar a maior parte dos agrotóxicos, produtos químicos e radioativos presentes na água consumida pelos brasileiros.

Segundo o presidente da Aliança Tropical de Pesquisa da Água, José Francisco Gonçalves, o maior problema está na fonte. “Boa parte da nossa água hoje, por conta da contaminação do solo e por serem muito próximas às cidades ou áreas agrícolas, já possui comprometimento quanto à qualidade química”. Isso significa que com as fontes cada vez mais contaminadas, o tratamento vai se tornando mais difícil, caro e inacessível”, explicou.

Para resolver o problema, o Brasil teria que focar na prevenção, ao invés de preocupar somente com o tratamento da água. Sandra Kishi, procuradora regional da República, afirma que com o uso de medidas preventivas, como barreiras sentinelas que impedem substâncias tóxicas de chegarem até o manancial, projetos de reflorestamento, melhoria da gestão de resíduos e de águas pluviais, teríamos uma água mais segura, sem gastos estrondosos.

Com informações de Repórter Brasil.