Alterações climáticas devastam oceanos e regiões geladas

Embarcação navega entre pedaços de degelo no mar do ártico / Crédito: Christian Aslund/Greenpeace/divulgação

Cientistas preveem que a subida do nível dos mares atinja 15 milímetros por ano em 2100

O rápido aquecimento dos oceanos e regiões polares e derretimento de geleiras estão exterminando cada vez mais a vida marinha e acelerando as mudanças climáticas. O alerta é do novo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), das Nações Unidas, divulgado no último dia 25 de setembro. A devastação dos mares e das regiões geladas devido às alterações climáticas é o grande problema apontado no documento.

Mais de 100 especialistas de 30 países compilaram e analisaram estudos científicos publicados recentemente sobre alterações climáticas, oceano e criosfera - regiões cobertas por gelo e neve permanentes, que constituem 10% da superfície do planeta. O relatório aborda quatro temas principais ligados ao aquecimento global e degelo: aumento no nível do mar, mudança dos ecossistemas marítimos, redução do permafrost (solo que passa todo o ano congelado na Rússia, Canadá e Alasca) e ondas de calor no mar.

Durante este século, os oceanos poderão sofrer alterações “sem precedentes”, com temperaturas mais altas, água mais ácida, menos oxigênio e condições alteradas de produção de recursos, segundo o documento. Os cientistas advertem que o gelo das regiões geladas, como o Ártico, por exemplo, está derretendo a um ritmo nunca antes registrado e, em consequência, o nível dos oceanos está elevando, colocando em risco a vida de milhões de pessoas.

Mesmo no melhor cenário de redução significativa das emissões de gases do efeito estufa, várias cidades costeiras e pequenos estados sofrerão inundações extremas por volta de 2050, repetindo-se todos os anos. "Embora os oceanos e a criosfera pareçam estar longe da maioria, eles estão ligados a cada um de nós. A conclusão central é que os dois grandes sistemas estão mudando, e muito rapidamente, já tendo sérios impactos sobre os seres humanos", afirmou Lijing Cheng, oceanógrafa da Academia Chinesa de Ciências e uma das principais autoras do estudo.

O IPCC aponta que a subida do nível médio global dos oceanos foi acentuada no período de 2006 a 2015 em relação ao último século, a um ritmo de 3,6 milímetros por ano, atribuindo-a principalmente às massas de gelo e glaciares que derreteram. Os cientistas preveem que a subida do nível dos mares atinja 15 milímetros por ano em 2100 e “vários centímetros por ano no século XXII”. No entanto, não descartam a possibilidade de a subida do mar ser uma realidade anual ainda neste século.

Isso provoca tempestades mais fortes e salinização crescente, o que pode resultar em perdas de colheitas e aumento dos preços dos alimentos. Simultaneamente, o relatório indica que o degelo do permafrost no Ártico e na Sibéria está bombeando cada vez mais metano e dióxido de carbono para a atmosfera, acelerando ainda mais o aquecimento global e provocando um perigoso círculo vicioso.

Nas últimas décadas, o aquecimento do planeta reduziu a criosfera, o que aumentou a temperatura do solo e impediu a renovação dessa cobertura. Estima-se que a perda de massa da geleira em 2100 seja aproximadamente duas vezes maior se as emissões subirem por décadas, trazendo níveis de aquecimento muito altos em comparação com um cenário em que as emissões atingem seu pico rapidamente e caem acentuadamente ao longo do século.

"A água é o elemento de conexão. O que acontece agora é a realocação de água em grande escala, da parte congelada do planeta para o oceano. E isso causa problemas em ambas as extremidades", explica Zita Sebesvari, da Universidade das Nações Unidas, uma das principais autoras do relatório.

Aumento da temperatura

De acordo com os cientistas, a temperatura global já atingiu 1°C acima do nível pré-industrial. Este aquecimento global deve-se às “emissões passadas e atuais de gases de efeito estufa” e já há provas “esmagadoras de que isso pode provocar profundas consequências para os ecossistemas e as pessoas”.

Estudiosos constataram que a temperatura dos oceanos está aumentando desde 1970, absorvendo “mais de 90% do calor em excesso no sistema climático”, com ondas de calor marinho duas vezes mais frequentes desde 1982. “Ao absorver mais dióxido de carbono, o oceano sofreu um aumento da acidez à superfície”, segundo os cientistas, considerando muito provável que de 20 a 30% do dióxido de carbono (CO2) emitidos pela atividade humana desde 1980 foram absorvidos pelo oceano e causaram perda de oxigênio desde a superfície marinha até aos mil metros de profundidade.

O degelo e a diminuição permanente das massas geladas ameaçam libertar ainda mais dióxido de carbono e, assim, acelerar ainda mais a devastação dos oceanos e da criosfera.

Para os cientistas, é urgente priorizar “ações oportunas, ambiciosas e coordenadas” de forma a enfrentar essas mudanças “sem precedentes e duradouras” nos oceanos e na criosfera. De acordo com o IPCC, mudanças contínuas são inevitáveis, mas a extensão final depende de quando e quanto as nações são capazes de controlar o aumento das emissões de gases de efeito estufa.

“Se reduzirmos as emissões bruscamente, as consequências para as pessoas e seus meios de subsistência ainda serão desafiadoras, mas potencialmente mais gerenciáveis para as pessoas mais vulneráveis”, afirmou Hoesung Lee, presidente do painel, em comunicado.

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