O remédio para uma Amazônia doente

*Amélia Gonzalez

Dois tamanduás são resgatados das chamas que cobrem boa parte da Amazônia . A imagem, captada por um vídeo amador, por um lado traz alívio a quem assiste a cena, já que os bichos foram salvos. Por outro lado, mostra os dois sendo conduzidos pelo rabo por soldados que estão tentando apagar o incêndio.

Os bichos estão estressados, num ambiente absolutamente inóspito, um deles tem que ser conduzido ao hospital para se tratar porque respirou muita fumaça. E vai dando agonia em quem assiste. Como tratar com respeito e carinho um ser vivo que não fala, não reclama, só sabe se defender com o ataque? Como fazer os incendiadores entenderem toda esta angústia que causam? Qual será a punição mais adequada para quem desmatou o equivalente a seis campos de futebol e deixou o caminho livre para o fogo?

Ter consciência do ambiente em que se vive e da importância de cada ser vivo para nossa qualidade de vida no planeta é, hoje, cada vez mais motivo de angústia.

Pensamento ainda mais pessimista nos leva a crer que não saberemos, nunca, o tamanho real da desgraça que está acontecendo neste exato momento no meio da mata.

Números serão divulgados, muitos deles vão causar raiva e indignação a quem está longe, embora afetado pela situação. Nada que se compare à dor de perder o ar que se respira, a comida que estava sempre ali, à vontade, de ver de perto os bichos morrendo queimados.

Falo dos animais, mas sem esquecer os indígenas: segundo o Instituto Socioambiental (ISA), há 148 terras indígenas ameaçadas na Amazônia. Pessoas que vivem no meio desses focos de incêndio, tentam fugir, acordam sem saber que rumo tomar, que não conseguem enxergar o céu, que não conseguem pegar o ar para respirar.

Um vídeo impressionante realizado pelo ISA, com parcerias, leva o espectador para este mundo, mostra indígenas Awá, que ainda não fizeram contato com a civilização. E contextualiza a situação de seres humanos que dependem da nossa consciência ambiental para sobreviver. Em 2015, a Terra Indígena de Arariboia, onde ficam essas tribos, no Maranhão, sofreu um incêndio parecido com o que está ardendo agora o solo da Amazônia. Perderam 53% de suas terras, ou 220 mil hectares.

Não sei como qualificar as pessoas que estão sendo apontadas como responsáveis pelos focos de incêndio atuais. Como também cresce a sensação de que este é um problema que merecia ter o foco que está tendo agora. Oxalá não se esmoreçam as notícias antes que as chamas se apaguem.

E em meio a tantas informações chegam notícias ainda mais aterrorizantes sobre desastre ambiental também na África Subsaariana. Um estudo emitido pela Agência Espacial Europeia (ESA) dá conta de que 70% dos incêndios do planeta, hoje, se concentram naquela região e que, na média, os focos são cinco vezes mais potentes e letais do que os que estão acabando com parte da Floresta Amazônica.

Angola, Zâmbia e República Democrática do Congo também estão sendo vítimas de focos de incêndio. O contexto pode ser diferente do que o da Amazônia, segundo informa a repórter AJ Willingham, da CNN, mas será triste comparação porque o crime contra a floresta está acontecendo em todos os lugares citados, lá e cá. Segundo a repórter, há um tipo de fogo que pode até fazer bem ao solo, já que as cinzas são um adubo excelente. Na África, os produtores rurais sabem atear fogo e controlá-lo, garante.

Lembro-me que a bióloga Noni Bazarian, numa entrevista recente, contou-me que indígenas sabem atear fogo a uma floresta pois providenciam um exército de homens que seguem atrás, imediatamente, para apagar o fogo. E nunca o fazem em época de seca, apenas quando tem chuva prevista. Será que os produtores agrícolas da África Subsaariana também agem desta forma?

Voltando à Amazônia, encaminho o texto para o fim com uma boa notícia: há pessoas com muito dinheiro que estão interessadas em ajudar. A Earth Alliance, fundação recém criada por Leonardo DiCaprio e dois outros bilionários já se manifestou.

Domingo passado (24) a fundação lançou um Fundo da Floresta Amazônica em um anúncio em seu site e promete doar cinco milhões de dólares para a floresta. O recurso será distribuído a cinco grupos locais que trabalham para combater o problema: Instituto Associação Floresta Protegida, Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira, Instituto Kabu, Instituto Raoni e Instituto Socioambiental.

É disso que a Floresta Amazônica está precisando. De dinheiro e de cuidados, não de um olhar que pretenda ver em suas árvores fontes de renda, de investimento. A Floresta está doente, precisa respeitar este momento. Até porque, é muito bom lembrar o último relatório do IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change), lançado no início deste mês, ainda sem os focos de incêndio aterrorizantes tomando conta do lugar.

O documento foi específico ao lembrar a importância de se preservar as florestas tropicais (lembrando que a Amazônia é a maior floresta tropical do mundo) e diz que o desmatamento (o fogo é consequência) afeta a segurança alimentar, causa desertificação, degradação do solo.

Se o desmatamento na Amazônia chegar aos 40% vamos viver um ponto irreversível. Será impossível barrar o aquecimento global para não passar dos 1,5º graus até o fim do século se não tivermos mais florestas tropicais que possam realizar a tarefa de sequestrar o carbono. O estudo foi feito por mais de cem especialistas de 52 países que trabalham voluntariamente com o objetivo de alertar os líderes das nações para motivá-los a mudar o conceito de desenvolvimento.

Negar este conhecimento é uma atitude, para dizer o mínimo, simplista. Enquanto houver líderes que pensam desta forma, o único caminho para a sociedade civil preocupada em ajudar cidadãos a terem melhor qualidade de vida e que pretende um mundo mais igualitário, será contar com doações de filantropos. Que bom que eles existem.

 

*Amélia Gonzalez é jornalista

Fonte: G1

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