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Febre amarela dizima populações de macacos

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Febre amarela dizima populações de macacos
Um muriqui atravessa a floresta na RPPN Feliciano Miguel Abdala

A febre amarela tem dizimado populações de macacos em diversas regiões do país. A epidemia calou as florestas e mergulhou a Mata Atlântica numa de suas maiores tragédias.

A doença provoca o que especialistas já consideram a maior matança de animais na história recente da Mata Atlântica. Depois da onda de rejeitos causada pelo rompimento da barragem da Samarco em Mariana, em 2015, o mais devastado dos biomas do Brasil sofre outra vez. Novamente, o epicentro é o Vale do Rio Doce, entre Minas Gerais e Espírito Santo. Mas há registros de macacos mortos também em São Paulo, Bahia, Goiás e Mato Grosso do Sul.

Desde o início de janeiro, 600 carcaças de macacos foram encontradas somente no Espírito Santo. Para Sérgio Lucena, professor do Laboratório de Biologia de Conservação de Vertebrados da Universidade Federal do estado, esse número representa apenas entre 10% a 20% do real. Em Minas, os macacos simplesmente desapareceram em algumas regiões.

As principais vítimas são os bugios ou barbados (Alouatta guariba), outrora muito comuns em toda a região. A epidemia também mata sauás ou guigós (Callicebus personatus), macacos-pregos (Supajus nigritus) e micos-de-cara-branca (Callithrix geoffrey).

Pesquisadores estão preocupados com o muriqui-do-norte (Brachyteles hypoxanthu), o maior primata das Américas que está criticamente ameaçado de extinção. Embora se acredite que o muriqui resiste melhor ao vírus que outros macacos, há sinais de que as coisas podem não estar bem. Os especialistas estão em alerta.

O também ameaçado sagui-da-serra (Callithrix flaviceps) não escapou. Na semana passada, de um bando de 14 animais, 12 morreram de febre hemorrágica em Ipanema, município mineiro na divisa com o Espírito Santo.

“O vírus tem se espalhado depressa e matado um número impressionante de animais. Vacinar os macacos é quase impossível. E a floresta toda está ameaçada, pois os macacos são fundamentais para o equilíbrio da Mata Atlântica. Eles dispersam sementes. Tudo está interligado”, explica Fabiano Rodrigues Melo, professor da Universidade Federal de Goiás.

Os pesquisadores continuam tentando entender por que a febre amarela se espalha tão depressa. “A doença atravessou o próprio rio Doce. Não sabemos como, já que os macacos não fazem isso. Uma hipótese é o mosquito. Outra, o próprio ser humano infectado”, diz Sergio Lucena.

O virologista Pedro Fernando da Costa Vasconcelos, um dos maiores especialistas em febre amarela do mundo e diretor do Instituto Evandro Chagas, enxerga ainda o tráfico de animais como outra possibilidade. “Bichos doentes são levados para longe por traficantes e podem espalhar doenças”, alerta.

Confira a entrevista da Amda com Fabiano Melo, professor da Universidade Federal de Goiás e responsável técnico do Programa de Conservação dos Muriquis de Minas.