Array
Notícias

Bebê indígena é degolado no colo da própria mãe

Array
Bebê indígena é degolado no colo da própria mãe
Índios fazem manifestação contra morte de criança de dois anos em Santa Catarina / Crédito: Daniel Caron/FAS

No dia 30 de dezembro, Sônia da Silva assistiu seu filho, o pequeno Vitor de apenas dois anos, ser assassinado em seu próprio colo enquanto o amamentava. Este crime bárbaro aconteceu na rodoviária de Imbituba, em Santa Catarina. O suspeito, Matheus de Ávila Silveira, de 23 anos, está em prisão temporária desde o dia seguinte ao crime. Ele ficou calado no primeiro interrogatório, mas negou a autoria do crime quando foi ouvido pela segunda vez. Em seu quarto, a polícia apreendeu roupas que correspondem ao registrado por câmeras de segurança do local.

Natural da Aldeia Condá, no município de Chapecó, no oeste do estado, Sônia, o marido, Arcelino Pinto, e outros dois filhos foram para o litoral, onde há mais movimento no verão, para vender o artesanato da tribo, como fazem todo fim de ano.

O pai, que trabalhava em outra praia com dois de seus filhos, soube do crime pela TV. Quando chegou à rodoviária, viu os chinelinhos e brinquedos de Vitor espalhados. Sônia vagava de um lado para o outro, sozinha, na chuva. Vitor havia sido degolado com uma lâmina no pescoço por um homem que fingiu afagar seu rosto enquanto a mãe o amamentava.

“Assim que ele passa a navalha, vira as costas e sai correndo. A mãe abraça a criança e tenta pedir socorro. Um taxista tenta correr atrás do cidadão, mas o perde de vista”, relata o delegado Rafael Giordani, que investiga o caso. Segundo Giordani, o suspeito foi autuado há oito meses quando tentou agredir o pai com uma faca. Policiais dizem que ele teria problemas mentais.

O delegado não acredita que o crime tenha sido motivado por racismo, mas causado por problemas psicológicos do suspeito, que é alcoólatra, usuário de drogas e estaria envolvido com uma seita satânica da cidade. O povo Kaingang discorda.

Para Arcelino, o crime foi encomendado para forçar os indígenas a deixarem a rodoviária. “Esse menino não é louco. Se fosse, teria escolhido o primeiro que viu na frente para matar. Ele escolheu Vitor, um bebê no colo de uma indígena. Escolheu porque eram vulneráveis, assim são os índios do Brasil. As pessoas são preconceituosas e nos tratam piores que animais, mas viemos exigir os nossos direitos”, disse Márcia Rodrigues, vice-cacique da aldeia.

Para Clóvis Silva, coordenador substituto da Fundação Nacional do Índio (Funai) em Chapecó, não é possível desconectar a morte da insegurança vivida pelos indígenas no Estado. “Os Caingangues sobrevivem basicamente da venda dos cestos que fabricaram no inverno. Mas as pessoas os veem como incômodos. São expulsos de locais públicos, como estradas e rodoviárias. Desprotegidos, viram alvo fácil”, comentou.

O conselheiro da Aldeia Condá, Miguel Sales, disse que agora estão com medo de ir até a cidade. “Pelo que se vê hoje, estamos abandonados. Não podemos vender nossos produtos nem nos dão condições para isso. O Ministério Público sempre diz que vai ajudar por meio de parceria com a prefeitura, mas isso nunca sai do papel. Combinaram de a cada oito dias levar cinco a dez índios para a cidade em um carro oficial, mas ainda não colocaram em prática”, disse. Para Sales, se a Justiça demarcasse logo as terras, não haveria tantas disputas e brigas.

Leia também:
Opinião: 1500, o ano que não terminou, por Eliane Brum