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Radar Ambiental: Só crise leva a proteção da terra

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Radar Ambiental: Só crise leva a proteção da terra
Crédito: Carlos Rhienck/Hoje em Dia

Em matéria de capa o jornal Hoje em Dia de segunda-feira, dia 13.05, destaca uma entrevista especial com o engenheiro metalurgista Milton Nogueira, especialista em desenvolvimento econômico, biodiversidade e mudanças climáticas e consultor internacional de diversas organizações ambientais.

Ele foi um dos criadores do Instituto Industrial de Desenvolvimento Integrado de Minas Gerais (Indi), ajudou no Programa Nacional do Álcool Automotivo, na implementação de projetos da extinta Vale do Rio Doce, na Amazônia. Além disso, atuou por 17 anos em uma agência de desenvolvimento industrial da Organização das Nações Unidas (ONU) e foi o único mineiro que integrou a equipe de peritos revisores do quinto Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPPC, na sigla em inglês), divulgado em 30 de março, em Yokohama, no Japão.

Na visão de Milton Nogueira, para transformar a realidade é preciso uma mudança cultural radical da população, dos políticos e de empresários, na forma de produção e consumo de bens em todo o mundo. Ainda em entrevista ao jornal, ele destacou que a sociedade só vai despertar para o problema quando passar por uma crise de escassez mundial.

Acompanhe a entrevista:



Em 2013 tivemos recorde de chuva em Belo Horizonte. Neste ano, escassez. O que está acontecendo?

É a violência do clima, que passa a atuar nos extremos, sempre ligado à água, seja na falta ou no excesso. E isso causa prejuízos, por exemplo, na agricultura. Se há ondas de calor na hora errada, as plantações são destruídas. Isso também impacta em todos os vetores de epidemia, aumentando doenças como dengue, malária entre outras. Não precisamos esperar 80 anos para ter problemas. Eles já estão ocorrendo, afetando ricos ou pobres.



A que se pode atribui esses extremos?

São consequências do excesso de seis gases de origem de atividade humana, da atividade industrial, como o gás carbônico, o metano, o óxido nitroso.



Especialistas afirmam que a Terra sempre teve variações climáticas. Não seria uma coincidência essa mudança com os gases e isso acelerando o processo?

Já foram estudados historicamente os recordes climatológicos, tanto para 100 anos, mil e até 600 mil anos atrás. E notou-se, inequivocamente, a interferência dos últimos 200 anos, ou seja, a época da civilização industrial. Não é uma coincidência. Tivemos um período em que o sol esquentou, isso ocorre a cada 12 anos. Assim como a temperatura do corpo aumenta durante o mês em todas as fêmeas, também ocorre com o planeta. Se essa mulher estiver de febre, o calor foi acima do normal. A Terra também é assim e o aquecimento global é acima dos ciclos.



Como avalia o cenário da agricultura, daqui a 20 anos, no Brasil e no mundo?

Se olhar as tendências das últimas décadas, a produção de alimentos é ligeiramente maior que a necessidade da população mundial. Não faltará comida. Mas então porque há cerca de 800 milhões de pessoas subnutridas? É porque os mecanismos para distribuição são incapazes de chegar lá. O mercado, por definição, entrega produtos para quem tem poder de compra. Quem não tem, fica subnutrido. Não é uma questão só de oferta e demanda, mas também de mecanismos de mercado insuficientes. Há países na Europa que queimam manteiga todo ano em termoelétricas, pois não conseguem levar o produto para quem precisa dessa proteína. Além disso, as mudanças do clima estão causando um problema insolúvel. Há um excesso de gás carbônico se misturando nos oceanos, que está acidificando as águas. Quando isso ocorre, os corais morrem e são eles a fonte de alimentos de várias espécies de peixes. Toda a cadeia é afetada. Ainda há a pesca ambiciosa para atender mercados. Todos os cardumes do mundo estão em colapso. Até alguns anos atrás, os oceanos respondiam por 40% das proteínas do consumo humano. Se isso faltar, a solução passa a ser a vaca e o porco. Mas ai caímos em outro problema, que são os gases emitidos pelos bovinos, aumentando a emissão do gás carbônico. Estamos em uma sinuca. Não há saída fácil.



As futuras gerações terão vida mais difícil por causa do clima?

Sim. O cenário que está por vir, mostrado no relatório do IPCC, é de dar calafrio. Variação de temperatura, queda na produção agrícola, desaparecimento de cardumes, desflorestamentos, guerra civil por causa de migrações. Não há melhoras em nenhuma parte do globo.



Há boa vontade das empresas para mudar esse cenário?

Não nas empresas. Elas são dirigidas com o objetivo de lucro. Não são entidades beneficentes. Isoladamente jamais diminuirão o desperdício, que está em toda a cadeia de produção. Apenas entre 30% e 40% do que é produzido nos campos chega à mesa. Se perde em transporte, armazenamento. É preciso uma mudança cultural e repensar essas cadeias. Em primeiro momento, a saída seriam políticas para evitar o desperdício. Um exemplo são promoções pague 2 e leve 3. Esse terceiro é um desperdício, pois ou você engorda ou o produto vai para o lixo.



Temos indústrias que não param e a mídia que incentiva a cultura do desperdício. É um cenário que não tende a mudar tão cedo?

Mas pode mudar se houver uma vontade coletiva, até em prazo curto. Daí o papel da mídia. Um mal exemplo é o cigarro. Na década de 1930, os médicos começaram a denunciar os prejuízos para a saúde. As indústrias colocaram lindas mulheres em propagandas e em filmes. Passaram-se mais de 50 anos e ainda morrem 4 milhões de pessoas por ano pelo fumo. Porém há um bom exemplo, a Aids. Na década de 1980 foi descoberta, a medicina estudou, identificou-se os grupos de risco e entraram as políticas públicas, mostrando a solução e conseguiram bloquear o avanço da doença.



Para evitar a mudança há forças políticas, lobbies industriais e empresários que não querem reduzir lucros. Como resolver isso?

Há empresários que veem lucro na solução da mudança do clima. Como o redesenho da lata da cerveja. Aquele que conseguir lançar uma latinha reutilizável, sai na frente.



Quando mudaremos a cultura do desperdício?

Não é prazo de dez, 20 anos. É quando houver um evento marcante, uma grande crise, seja econômica ou até uma guerra de grandes proporções. Em 2001, o Brasil passou um susto com a carência de energia elétrica e houve reação. As soluções vêm quando coletivamente se passa um susto. A Segunda Guerra Mundial foi episódio que obrigou os países europeus a repensar o consumo. Há um sentimento de conservadorismo dos governantes, de não mexer muito, de que manter do jeito que está é melhor do que tentar. Isso é andar para trás, é suicídio, inclusive político.



Muito se cobra dos países, enquanto nações. Mas e os estados, municípios e o cidadão?

Todo cidadão tem responsabilidades. O que se espera é que os mecanismos de divulgação das coisas, como a mídia, esclareça e convença sobre o hábito do consumo, de desperdício. Mudar a relação do uso das energias fósseis, como mais metrô e menos carro. Aceitar as relações de preços diferentes para produtos danosos para a natureza. Concordar com a ideia de imposto sobre o carbono. São o que as lideranças regionais podem fazer. É como se fosse a fase que a civilização sai do cavalo para entrar no veículo, o que ocorreu há 120 anos. De repente, mudou-se a tecnologia. É o que precisa ocorrer agora. Uma nova forma de organizar a sociedade que aceite o problema, que é coletivo, e todos sofrerão se não tiver solução.



O transporte público é uma das soluções?

No caso das cidades, sim. A emissão de gases por quilômetro percorrido por passageiro é muito diferente a cada modal. O mais econômico é o caminhar, depois a bicicleta, depois o metrô. O pior é o automóvel. Por várias razões, o mundo ocidental, e China e Japão caminham para o carro. É preciso o entendimento pela população, sistema empresarial e político, de que o carro é um vírus e estamos com febre.



Você acha que investimentos feitos em Belo Horizonte, com o BRT, são eficazes?

Estão no caminho certo, mas é preciso fazer mais. Aí entra a questão da vontade política. A tecnologia não falta e nem o capital. O dinheiro é mal utilizado.


Há uma série de reuniões mundiais para mudar esse cenário, como a Rio+20. Quais são os resultados desses encontros?

São várias reuniões, em que as partes fazem acordos para um período de tempo. São decisões de definição de responsabilidades e direitos. Na conferência de Copenhague, em 2009, houve uma tentativa de um acordo geral para todos os assuntos sobre o clima. Politicamente foi impossível, pois havia muita desconfiança. No ano seguinte, em Cancún, estabeleceu-se a meta de limitar o aumento da temperatura da Terra em, no máximo, dois 2ºC acima do período pré-industrial. Atualmente, estamos com pouco menos de um grau. Com a temperatura subindo, mesmo se parássemos de emitir todo o gás carbônico, ficaria mais quente. Então já passou da hora de diminuir.



De onde se tirou esse número?

Por que 2ºC e não 3º? Pois percebeu-se que a violência dos extremos são tão grandes, que não se imagina a existência da humanidade com 3, pois aumentaria as catástrofes exponencialmente. No ano seguinte, em Doha e depois na Polônia, foram acordados os mecanismos para limitar nos 2ºC, como um superfundo para ajudar os países mais vulneráveis. Não necessariamente os mais pobres. Esse dinheiro viria do imposto do carbono. Quer consumir? Então paga-se pesado para desencorajar o desperdício. Essas reuniões buscam políticas públicas entre países para reduzir emissões dos gases. O Brasil tem posição de liderança nesses encontros, pois metade de sua matriz energética é renovável, enquanto nos Estados Unidos é 6% e na China, 2%. A humanidade precisa aprender maneiras para produzir sem aumentar o efeito estufa.


O que foi proposto na Rio+20 teve efeito prático?

Teve dentro do que foi proposto, mas há dificuldade de implantação. O foco foi a pobreza mundial, que aumenta cruelmente. Um copo de água limpa por dia resolveria metade das enfermidades, mas não existe dinheiro para resolver isso. Há uma incoerência. Enquanto existirem doenças endêmicas, há mercado para remédios. A solução simples de um copo de água destruiria esse mercado. Na Rio+20 surgiram várias recomendações sobre a maternidade, como melhorar a má relação alimentícia da mãe com o bebê. Outro tema foi a mudança do clima. Se há alteração acelerada, há falta de comida ou água, prejudicando a população, que fica mais pobre, pois precisa gastar mais para comprar coisas de fora. Tudo está interligado.