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No norte de Minas, guarda-parques têm muitos olhos

No norte de Minas, guarda-parques têm muitos olhos
Armadilha fotográfica registra onça parda / Crédito: Arquivo Reserva do Acari

A Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Veredas do Acari, localizada entre os municípios de Chapada Gaúcha e Urucuia, no norte de Minas, possui uma área de 70 mil hectares. Há 7 funcionários para tomar conta da reserva. Em maio a unidade ganhou mais 7 “olhos”: armadilhas fotográficas foram espalhadas pelo território para fotografar a fauna da região.

A iniciativa permitiu criar a primeira lista de fauna do local. Criada em 2003 e ainda sem plano de manejo, a RDS estadual não sabia que tipo de animal vivia em seu território.A captura de imagens para fazer a primeira lista oficial da unidade foi feita pelos próprios guardas-parques.

O norte de Minas concentra 70% da cobertura florestal do estado e 80% dos grandes mamíferos do estado de Minas vivem na região.O Instituto Biotrópicos trabalha há 10 anos no norte de Minas, estudando principalmente mamíferos e anfíbios. Partiu dele o projeto de capacitar guardas-parques de 4 unidades de conservação onde não existia nenhuma lista de espécies. “A ideia foi pegar o pessoal que trabalha nessas áreas que a gente não trabalha e treiná-los para eles mesmos começassem a gerar a informação” explica Guilherme Ferreira, biólogo do Instituto Biotrópicos, responsável pelo projeto que levou às câmeras para a unidade. Deu certo, pelo menos na Veredas do AcariAs 4 UCs nunca estudadas eram a Área de Preservação Ambiental (APA) Pandeiros; APA do Cochá e Gibão; o Refúgio de Vida Silvestre do Pandeiros e a Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Veredas do Acari. Todas estaduais.A capacitação foi feita com um convênio que o Instituto tinha com o IEF-MG (Instituto Estadual de Florestas), que gere as unidades de conservação do Estado de Minas.

Com apoio da rede ComCerrado, os 15 guardas parques que participaram saíram do curso de 2 dias em Bonito de Minas com o equipamento em mãos, prontos para colocar a teoria em prática.”Todos saíram da capacitação com um pouco de armadilha, pilha e filme. Nas outras unidades não rendeu como aqui [RDS Veredas do Acari]. As APAs [Áreas de Preservação Ambiental] perderam a gerência e o projeto parou. No refúgio também não rendeu muito, porque a área, por ser beira de rio, tem muito uso e o gerente está sempre com medo de colocar o equipamento e alguém furtar.” explica Guilherme Ferreira, biólogo do Instituto Biotrópicos, responsável pelo projeto que levou às câmeras para as unidades.

Apesar dos problemas em 3 das 4 UCs, pelo menos 4 filmes de cada unidade foram produzidos e parou nisso. Na Reserva, ao contrário, foram 35 filmes rodados em 7 meses de trabalho, dos quais saíram 159 fotos de mamíferos de médio e grande porte foram tiradas: houve 41 registros de onça-parda (suçuaruna) e 33 registros de lobo guará, incluindo o inédito Lobo Guará de pele preta, que ainda não consta oficialmente na literatura especializada. Para Ferreira, a ocorrência do Lobo Guará preto possivelmente é um caso de melanismo, mas ainda será necessário confirmar. A lista preliminar de espécies da unidade tem 12 espécies catalogadas;12 espécies registradas na RDS: Tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla), Cachorro-do-mato (Cerdocyon thous), Raposa do campo (Pseudalopex vetulus), Lobo guará (Chrysocyon brachyurus), Gato do mato pequeno (Leopardus tigrinus), Jaguatirica (Leopardus pardalis), Jaritataca (Conepatus semistriatus), Suçuarana (Puma concolor), Anta (Tapirus terrestris), Caititu (Pecari tajacu), Veado Cantigueiro (Mazama gouazoubira), Veado campeiro (Ozotoceros bezoarticus).

Agora, o painel com 40 fotos tiradas no campo ornamenta a sede do Instituto Estadual de Florestas em Serra das Araras, localizada no distrito do município de Chapada Gaúcha, no norte de Minas. A sede é uma antiga casa transformada em escritório. A rua onde está a sede não é asfaltada, assim como boa parte das ruelas do distrito.A armadilhaA caixa de plástico preto mede pouco mais do que um caderno grande e fica amarrada com arames numa árvore, a 30 ou 40 centímetros na altura do terreno, sendo disparada por sensor de calor. O maior custo é o do equipamento, que chega a mil reais por máquina digital (a analógica não é mais fabricada). A manutenção não é cara e com o treinamento pode ser manuseada por qualquer pessoa.

Da reserva, os guardas-parques Ailton Barbosa Costa, João da Conceição Araújo e Valdir Lopes de Faria participaram do treinamento e se encarregaram de passar aos outros que se interessaram o que tinham aprendido.Foram usas 7 câmeras, 6 analógicas e 1 digital, a última furtada na última semana de novembro, para desespero de Cícero de Sá Barros, gerente da unidade de conservação e principal incentivador dos guardas para espalhar o equipamento pela reserva. “Sem o incentivo do gerente, dificilmente teríamos realizado o trabalho”, afirma Ailton Barbosa, guarda-parque responsável por armar a maioria das armadilhas.A digital foi armada perto da estrada. Era a menina dos olhos de Cícero, porque era a única que não precisava mandar para Januária, a 120 km da reserva, para saber se havia capturado imagem de bicho. Um cabo USB conectado no laptop bastava, não precisava nem desarmar a armadilha.

Na segunda semana de dezembro, ((o))eco foi para a região para acompanhar in loco como os guardas-parques estavam gerando a lista da própria unidade.Uma fileira com cerca de 30 buritis era o ponto de referência da primeira das 3 armadilhas fotográficas que ainda estavam espalhadas na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Estadual Veredas do Acari.Do ponto até onde o carro poderia ir, no meio da reserva, até a armadilha, percorremos cerca de 100 metros a pé, seguindo o guarda-parque Ailton Barbosa da Costa. Naquela segunda-feira, dia 9 de dezembro, ainda foram desarmadas mais 2 armadilhas.

Todas as 6 (excluindo obviamente a furtada) foram retiradas no começo de dezembro, por causa do início da época de chuva.Manter câmeras fotográficas espalhadas por unidade de conservação causa um efeito indireto na gestão da unidade. Guardas-parques se deslocam mais entre um ponto e outro, inibindo a ação de caçadores, problema comum na reserva.

Trabalho em campo

A utilização de guardas parques no processo de montagem da armadilha não substitui a presença do biólogo no campo. “Para monitoramento de espécies, apenas a ferramenta não basta”, explica Guilherme Ferreira, enfatizando a rígida metodologia para determinar se uma determinada população está decaindo ou não. “A ideia é gerar dado, é gerar informação, mas muito mais envolvê-los [guardas parques] nesse processo”.Agora, no norte de Minas, funcionários sem formação estão ajudando na geração de conhecimento.

Fonte: O Eco