Opinião

O que resta da Amazônia depende de cada um de nós. E nós, dependemos dela

* Laís Duarte

A floresta que derrama águas em um país inteiro, que regula o clima do planeta, que guarda ciência e biodiversidade, tira o sono do mundo. E os brasileiros têm muito com o que se preocupar, mesmo.

Dados divulgados no início de julho pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o Inpe, mostram que, em junho, a área de alertas de desmate na Amazônia chegou a 1.120 km2, a maior marca desde 2016, início da série histórica do sistema Deter-B.

É uma alta de 130% em relação a junho de 2018, último ano do governo Temer. Sob o governo de Jair Bolsonaro, pela primeira vez os alertas ultrapassaram 1.000 km2 em junho: foram 1.043 em 2020, 1.061 em 2021 e, agora, 1.120.

Só pra se ter ideia do tamanho do prejuízo, a Amazônia Legal corresponde a 59% do território brasileiro e engloba 8 estados – Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins – e uma parte do Maranhão.

Claro que, nessa imensidão de terras, a floresta muda. Se altera de acordo com a água, o clima, o relevo. A Amazônia é múltipla, como sua gente. Mas precisa ser protegida por inteiro.

Rodando recentemente pelas estradas do Pará, é escandaloso testemunhar que os pastos estão ocupando lugar das matas. No Maranhão, não é diferente. O que cerca a paisagem não é a floresta pujante. O que resta da Amazônia nesses estados, em sua maioria, está dentro das unidades de conservação e das Terras Indígenas. E ali, é de encher os olhos!

Ver angelins, sumaúmas e castanheiras imensas, tão grandes que não dá para enxergar os galhos mais altos. Na mata profunda, fechada, a escuridão se faz presente. As árvores unem suas copas, formando um dossel quase impenetrável para os raios de sol. Ver bichos, ali, é privilégio de poucos. Eles sabem se esconder na grandeza da vegetação farta.

Nesse ranking da devastação da floresta, Porto Velho, em Rondônia, foi o o município com mais alertas de desmatamento em junho (2.450), seguindo por Lábrea, no Amazonas (2.071), Apuí, também no Amazonas (1.910), São Félix do Xingu, no Pará (1.779), e Altamira, também no Pará (1.481). E assim avança o arco do desmatamento, ceifando vidas e esperança.

A maior floresta tropical do mundo é digna de deslumbre. De uma riqueza incomparável. Quem já teve a chance de pisar em seu solo, de navegar por seus rios morre de amores. Em muitos casos literalmente, pois os defensores da mata nunca foram tão perseguidos. Sejam os indígenas, sejam os ribeirinhos, indigenistas, ativistas, biólogos, ambientalistas ou jornalistas.

Quem defende a Amazônia coloca seu corpo como escudo pra proteger o que sobrou da floresta. Não tenha dúvida: enquanto você lê este texto, mais vidas se foram. Das mais altas árvores aos minúsculos insetos.

Quem vê a ligação íntima dos povos indígenas com a natureza, quem ouve as lições ancestrais de como viver sem arrancar do meio ambiente mais do que ele pode nos oferecer, aprende que viver é deixar viver.

A Amazônia é um exemplo de que a solidariedade é o alimento da longevidade. Um ser se fortalece com o que outro descartou, um se apoia sobre o outro. O avançar é coletivo. Ouçamos essa voz da Amazônia, esse grito desesperado por socorro, antes que sua voz se cale pra sempre.

*Laís Duarte é jornalista especializada em meio ambiente, repórter da TV Cultura, mineira, leitora voraz, curiosa e viajante.

Fonte: Conexão Planeta