Opinião

As baleias-jubarte têm muito a nos ensinar

*Sucena Shkrada Resk

Companheiras, acolhedoras, resilientes, volumosas, ágeis e com um fôlego de dar inveja. Se pensarmos bem, temos muito a aprender com elas. Vocês já descobriram quem são estas personagens com tantos atributos? Não? Então, vamos desvendar este mistério: são as baleias-jubarte (Megapteras novaeangliaes), também conhecidas por baleias corcundas, que em grupos têm protagonizado espetáculos à parte na costa sudeste brasileira, com seus saltos acrobáticos e peculiares cantos dos machos, desde o mês de junho.

O surpreendente é que mesmo chegando na casa de 40 toneladas e 16 metros de comprimento na fase adulta, estes mamíferos da ordem dos cetáceos não têm nada de desengonçados e possuem total desenvoltura em suas performances. Suas nadadeiras peitorais podem ter até cinco metros de comprimento, o que facilita as alavancagens de seus corpos volumosos. O balé que executam nas águas do oceano Atlântico Ocidental tem resultado cada vez mais em um olhar mais atento da população e turistas locais, dos pesquisadores e da mídia, nas últimas semanas.

Afinal, avistar tantos exemplares juntos ao mesmo tempo especificamente nestas áreas é algo inédito. Para quem estava em Ilhabela (SP) e no município de Arraial do Cabo, e no bairro da Barra da Tijuca, na capital fluminense (RJ), por exemplo, os flagrantes se tornaram virais. Flagrantes feitos por anônimos, por fotógrafos e observadores como Julio Cardoso, do Projeto Baleia à Vista, e Luciano Candisani, na região da Ilhabela, são dignos de menção.

Ao mesmo tempo, esta mudança de comportamento gera um alerta. Representantes de órgãos ambientais e do Porto de Santos, por exemplo, se reuniram no início deste mês, para discutir protocolos de ações no caso de novas aparições no litoral de São Paulo. Uma das hipóteses é que a população de jubartes pode estar aumentando, um sinal positivo. A proximidade às praias e embarcações também podem causar possíveis acidentes. Neste ano, próximo do canal 4, em Santos, apareceu um filhote, que foi salvo e voltou a alto-mar.

Estes mamíferos anualmente, neste período do ano até novembro, chegam à costa brasileira depois de seu longo processo migratório da Antártica até a altura da costa do Espírito Santo, nordestina, especialmente à região do Parque Nacional Marinho de Abrolhos (BA), o seu maior reduto para o acasalamento e a reprodução. São 4 mil quilômetros percorridos por volta de dois meses, sob as intempéries das variações climáticas e desafios de todos os tipos! E estas distâncias homéricas podem ser bem maiores, como pesquisadores coordenados pelo americano Peter Stevick, registraram de um exemplar da espécie que percorreu cerca de 10 mil quilômetros entre Abrolhos e Madagascar, entre o período de 1999 e 2001. O relato foi feito na revista “Biology Letters” da Royal Society.

Abrindo um parênteses – Quando a gente conhece Abrolhos, este rico pedaço do Brasil em biodiversidade, nunca mais esquece. E esta experiência tive em 1994, quando também tive a oportunidade de escrever uma matéria no Caderno Viajar do então Diário Popular, no dia 4 de maio daquele ano.

Mas voltando às baleias-jubarte, será que sabemos realmente captar as mensagens que elas nos proporcionam? A caça deste cetáceo é proibida, pois chegou quase a ser extinto. Por todos seus atributos, este que é um dos maiores mamíferos marinhos, é estudado por pesquisadores de diferentes organizações e instituições de ensino, como da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), da ONG Viva Baleias Golfinhos e Cia (SP) em parceria com o Instituto Verde Azul, o Projeto Baleia à Vista (litoral Norte de São Paulo), e o Projeto Baleia Jubarte, que atua na BA e ES. Estas novas aparições em grupos maiores já estão sendo objetivo de pesquisa.

Características peculiares

Só para se ter uma ideia da complexidade da preservação das jubartes, basta começar pelo seu período de gestação. Pode durar literalmente um ano! E o intervalo entre uma e outra pode ser de um a três anos. O filhote já vem ao mundo com o tamanho aproximado de quatro metros e uma tonelada. Até pelo menos seus quatro a dez meses de vida tem uma dependência forte da amamentação e proteção materna. E os predadores estão por todas as partes – tubarões, redes de pesca, poluição marinha e o filhote se torna mais vulnerável, caso se perca da mãe, da qual recebe a principal fonte de alimentação. É por volta dos seis anos de idade que atinge a fase adulta e a maturidade sexual e pode viver por volta de 60 anos. Estes mamíferos se nutrem principalmente de cardume de krill (Euphasia superba) e de peixes, mas não se alimentam quando estão na costa brasileira.

O canto dos machos é como uma impressão digital, segundo o ecólogo Eduardo Moraes Arraut, que estudou in loco estes cetáceos no atlântico Sul. Em entrevista concedida ao Jornal da Unicamp, ele explicou que um ciclo do canto de uma baleia dura, em média, de 6 a 35 minutos, que pode ser repetido, sem intervalo, até o ponto de já ter sido observada uma “sessão de canto” com até 22 horas de duração.

Perigo à vista

Agora, um novo perigo ronda a conservação da espécie em águas brasileiras, na região de Abrolhos, rica em corais. Em abril deste ano, a presidência do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama), apesar de pareceres técnicos contrários do órgão, autorizou que áreas próximas de Abrolhos e outras três no litoral de Sergipe e de Alagoas, façam parte do 16º leilão de Rodada de Licitações da Agência Nacional do Petróleo (ANP), na área do Pré-Sal, marcado para outubro.

A autorização causa polêmica sobre os possíveis riscos de comprometimentos ambientais, com derramamentos de óleos, nesta região estratégica com espécies endêmicas, recifes de corais e manguezais, como também às jubarte, visto que a região é o principal berçário para a mesma. Nesta semana, foi divulgado que os senadores Randolfe Rodrigues (Rede-AP) e Fabiano Contarato (Rede-ES) protocolaram uma ação popular junto à Justiça Federal contra a inclusão de blocos de petróleo próximos ao Parque Nacional de Abrolhos.

O embate quanto à exploração de petróleo nesta região já acontece há ano. Em 2011, o Ministério Público Federal (MPF) já havia contestado decisões a favor desta exploração.

Segundo estudo do Projeto Baleia Jubarte, estima-se que a população de indivíduos na costa brasileira chegou a aproximadamente 17 mil. Os dados foram apurados por meio de sobrevoos em 2015. Hoje já se fala em 20 mil que passem pelo Brasil. Estatisticamente a média é de nove mil ano ano. Mas existem outras populações de Jubarte em diferentes localidades do mundo e em todos os oceanos.

Um questionamento que surge é quanto ao perigo que ronda mais uma vez este mamífero, aqui no país, que saiu da lista do Livro Vermelho da Fauna Ameaçada de Extinção – Volume II – Mamíferos, do Instituto Chico Mendes para a Conservação da Biodiversidade (ICMBio) – 2018. Afinal, a premissa deste resultado positivo está associada à proibição da caça e os esforços de conservação contínuos nas últimas décadas.

*Sucena Shkrada Resk é jornalista, formada há 27 anos, pela PUC-SP, com especializações lato sensu em Meio Ambiente e Sociedade e em Política Internacional, pela FESPSP, e autora do Blog Cidadãos do Mundo, voltado às áreas de cidadania, socioambientalismo e sustentabilidade.

Fonte: EcoDebate