Opinião

#UmDiaNoParque

*Angela Kuczach

Era um fim de tarde ensolarado (coisa rara em Curitiba) e eu chegava em casa cedo a tempo de curtir o pôr-do-sol. Da varanda do meu quarto, 180 graus de céu dourado sob o tapete verde de Floresta com Araucária do Parque Barigui, meu vizinho e point dos curitibanos quando o clima azedo permite.

O clima perfeito, as cores do céu, o silêncio sendo cortado apenas pelo som das tirivas em volta dos jerivás, a luz suave e a brisa leve e morna de uma tarde de verão… um daqueles momentos em que a gente se dá conta do privilégio da vida que tem pelo simples fato de poder se deslumbrar com a natureza que, literalmente, estava no meu quintal.

De um lado a mais pura gratidão e de outro uma certa tristeza por, no meio desse mundo doido e caótico em que a gente vive, saber que a maior parte das pessoas passa despercebida desses momentos e sequer têm pausas para olhar para o céu. Cientificamente comprovados no combate ao estresse, os ‘banhos’ de floresta são cada vez mais recomendados. Pausas para respirar, meditação… a saúde passa por estar em meio a natureza. E nós, brasileiros, que vivemos na maior potência em biodiversidade do planeta, simplesmente damos as costas a tudo isso e pouco desfrutamos dos ambientes naturais. Em 2018, pouco mais de 12 milhões de pessoas visitaram nossos Parques Nacionais, movimentando cerca de R$ 2 bilhões, um valor que embora muito expressivo quando comparados a anos anteriores, ainda está muito aquém do nosso potencial, representando em termos gerais aproximadamente 1% do que nossas áreas ainda podem gerar – cerca de R$168 bilhões.

Paralelo a isso, as inúmeras ameaças que desde sempre, e agora mais do que nunca, pairam sobre nossas áreas naturais, e o velho discurso de que “precisamos trazer a população para o nosso lado” e “só defendemos o que amamos e só amamos o que conhecemos” cada vez ganham mais força. Como fazer isso? A pergunta de um milhão de dólares…

Foi assim que nasceu o “Um Dia No Parque”, com um conceito que não poderia ser mais simples em sua essência: a de convidar os brasileiros para conhecer e celebrar nossa biodiversidade onde ela é mais especial e protegida, ou seja, criar um dia especial em nosso calendário para vivenciar o que nossas Unidades de Conservação têm de melhor.

Uma pesquisa recente do IBOPE e WWF mostra que pelo menos 58% dos brasileiros têm profundo orgulho da nossa natureza e cerca de 80% dos entrevistados acreditam que os níveis de proteção estão ainda abaixo do esperado, ou seja, o brasileiro gosta e se preocupa com a proteção do patrimônio natural, mas ao mesmo tempo desconhece seu significado. A maioria das pessoas desse imenso Brasil sequer conhece o termo “unidade de conservação”, a Amazônia está no imaginário e ainda uma pequena parcela tem consciência de que a água que sai da torneira de casa vem de uma nascente que está em uma área natural

#UmDiaNoParque é para desmistificar tudo isso e mostrar aos brasileiros que em cada canto desse Brasil, Parques Nacionais, Estaduais e Municipais, Monumentos Naturais, Refúgios de Vida Silvestre, RPPNs, APAs, RESEX e RDS têm riquezas, belezas, cultura e história para mostrar. E principalmente, que todos nós temos o direito de conhecer e desfrutar desse patrimônio. Que é nosso e está ao alcance das nossas mãos, muitas vezes mais perto do que a gente imagina.

Na prática significa criar um data para comemoração das nossas unidades de conservação. A data escolhida foi o terceiro domingo de julho, ou o mais próximo do dia 18 do mês, data de aniversário do Sistema Nacional de Unidades de Conservação – que também é mês de férias e permite que famílias inteiras possam planejar seus momentos de lazer e escolher um Parque para desfrutar. Também significa ano após ano envolver e mobilizar mais e mais setores da sociedade, até transformar esse dia numa data oficial no calendário brasileiro e criar uma cultura de visitação e comemoração.

A ideia não é nova. Tanto os Estados Unidos quanto a Europa têm seus Park Days – a bem da verdade os EUA têm uma semana inteira, o que também nos serviu como inspiração. Se eles podem, nós também podemos.

Aliás, como é que ninguém nunca pensou nisso antes?

Bom, ter uma boa ideia não é das coisas mais difíceis do mundo, já colocar em prática é outra história. Embora a iniciativa tenha sido idealizada naquele fim de tarde idílico, foi através de boas parcerias que finalmente conseguimos realizá-la. A primeira coisa foi abrir mão do filhote e optar em ter a guarda compartilhada: de uma campanha que poderia ser encampada pela Rede Pro UC, levei a ideia até a Coalizão Pro UCs, coletivo de organizações que há cinco anos vem trabalhando na defesa e fortalecimento das UCs, que prontamente acolheu a iniciativa e juntos passamos a buscar formar de colocar em prática.

Longe do ideal e com pouquíssimos recursos, decidimos estrear a ação em 2018, em 22 de julho, numa espécie de ano zero, com trabalho voluntário e dedicação incondicional de uma equipe de… bem… DUAS pessoas! Colocamos a campanha no ar e ainda sem identidade visual ou maiores apoios, conseguimos engajar 63 Unidades de Conservação, que abraçaram a ideia e realizaram atividades. A beleza mora na simplicidade: fomos surpreendidos com ações belíssimas em todo o país, que incluíram abrir Parques para comunidades carentes do entorno – que nunca tinham visitado a UC – promovendo serviços de turismo e visitação gratuitos, envolver comunidades locais em ações de melhorias da UC, até a realização de trilhas com acessibilidade e para a melhor idade, atividades lúdicas e culturais. No meio da Amazônia, um guia sozinho fez o “seu” #UmDiaNoParque! Alguns Parques instituíram um “Dia No Parque” mensal para comunidades lindeiras, outros passaram a desenvolver um relacionamento mais próximo com seus vizinhos. No todo, fomos surpreendidos por uma avalanche do bem que nos fez ter a mais absoluta certeza que estávamos no caminho certo e nossa única opção seria realizar a ação no ano seguinte ainda com mais força.

Segundo ano da Campanha, 2019. Governo novo, realidade nova… será que emplaca? Será que vamos conseguir fazer? Dessa vez com um crowdfunding interno da própria Coalizão e apoio da GIZ, a proposta foi tornar a campanha mais estruturada e nossa meta de engajamento seriam 100 UCs.

Há menos de 48 horas de realizar a ação temos 210 UCs e o efeito avalanche do bem já está sendo sentido aqui na sede da Rede Pro UC há semanas: são parceiros, instituições, unidades de conservação, propondo e desenvolvendo centenas de atividades, envolvendo os públicos mais variados – de crianças a idosos. De esportistas a sedentários. De corações solitários a urbanoides. Tem atividades e emoções para todos os gostos. É uma ação feita pelos brasileiros para a natureza.

Sabemos que #UmDiaNoParque sozinho não faz verão e que inúmeros são os problemas das UCs, as ameaças de cada dia, os ataques do Congresso e mesmo por parte do Executivo, a falta de entendimento, o imediatismo e de visão sobre o valor e a necessidade de proteção da biodiversidade. Sabemos de tudo isso porque diariamente estamos na frente de batalha para defender esse patrimônio e dá uma imensa tristeza constatar o quão atrasados estamos na escala global, tanto de proteção, quanto da geração de benefícios para a sociedade por parte das UCs, mas me desculpem os azedos de plantão, hoje – nesse caos que tomou conta da área ambiental – eu prefiro fazer parte da solução. E se engana quem pensa que #UmDiaNoParque é só uma campanha bonitinha. Por trás do passeio florido no bosque tem educação ambiental, mobilização, parceria, colaboração, união de esforços, engajamento, o despertar de uma causa. Amor pela natureza e pelo Brasil.

#UmDiaNoParque é algo que se talvez tivesse sido iniciado há 20 anos atrás, poderia ter nos dar hoje uma realidade diferente. É uma ação de longo prazo, o movimento de pedra na água que a cada ano vai fazendo ondas maiores. O que nos move, acima de tudo, é o desejo de um mundo melhor, ambientalmente justo, com qualidade de vida para todos – e não há lugar em que o sentido de igualdade seja mais forte do que diante da natureza.

No fundo Um Dia No Parque é uma ideia bem revolucionária. Mandela um dia disse que não há maior rebeldia contra o sistema do que a educação. #UmDiaNoParque trata acima de tudo disso: de educação e sensibilização em prol da natureza, no sentido mais íntegro e igualitário da palavra.

Só amamos o que conhecemos.

*Angela Kuczach é bióloga, diretora da Rede Pro UC e idealizadora da Campanha #UmDiaNoParque

Fonte: O Eco