Opinião

Aumenta a concentração de CO2 na atmosfera em 2017

*José Eustáquio Diniz Alves

Mais um ano que passa e mais o frankensteiniano efeito estufa global se acentua. A NOAA (National Oceanic & Atmospheric Administration), por meio da Global Monitoring Division, divulgou no dia 06/01/2018, os dados do crescimento médio da concentração de CO2 na atmosfera.

Em 2017, o aumento foi de 2,13 partes por milhão (ppm). É um número menor do que os 3,03 ppm de 2015 e os 2,98 ppm de 2016. Mas é o 14º maior aumento desde 1959 e vem depois de dois anos de recordes seguidos. Isto faz com que a média de 2011 a 2017 esteja em 2,4 ppm, acima da média da década passada (2001-10) que foi de 2,0 ppm e muito acima da média da última década do século XX (1991-00) que foi de 1,5 ppm, conforme o gráfico acima.

Para quem comemorava antecipadamente a estagnação das emissões de gases de efeito estufa, a triste realidade mostra que a concentração de CO2 na atmosfera, a despeito das variações sazonais, continua aumentando em ritmo mais acelerado do que nas décadas anteriores.

Durante o correr de cada ano, a concentração de CO2 segue um padrão sazonal, com pico (valor máximo) nos meses de maio e vale (valor mínimo) no mês de setembro. O limiar de 400 ppm foi atingido em maio de 2013. Em 2015, a marca das 400 ppm foi ultrapassada em 8 dos 12 meses. Na média anual, 2015 atingiu a cifra de 400,83 ppm e o de 2016 foi o primeiro a ultrapassar a marca de 400 ppm em todos os meses.

O ano de 2017 começou com concentração de 406,36 ppm, no dia 01 de janeiro. A média do mês de maio foi de 409,65ppm (muito próxima do limiar de 410 ppm). O dia com maior concentração foi em 26 de abril com 412,63 ppm e o dia com menor concentração foi 27 de setembro com 402,26 ppm, conforme o gráfico abaixo.

O último dado disponível é de 05 de janeiro de 2018 com 408,71 ppm. Seguindo o padrão sazonal, tudo indica que o mês de maio de 2018 deve ultrapassar o limiar de 410 ppm. No ritmo atual a concentração de CO2 pode ultrapassar 600 ppm até 2100.

Nos 800 mil anos antes da Revolução Industrial e Energética a concentração de CO2 estava abaixo de 280 ppm. As medições com base no estudo do gelo, mostram que em 1860 a concentração atingiu 290 ppm. Em 1900 estava em 295 ppm. Chegou a 300 ppm em 1920 e atingiu 310 ppm em 1950.

O dramático é que a coisa não para por aí. Artigo de Gavin L. Foster e colegas, publicado na Nature Communications (04/04/2016) mostra que o mundo caminha para um efeito estufa potencial sem precedentes nos últimos 420 milhões de anos. Os atuais níveis de dióxido de carbono são inéditos na história humana (desde o surgimento do Homo sapiens) e estão no caminho certo para subir a alturas ainda mais sinistras em apenas algumas décadas. Se as emissões de carbono continuarem em sua trajetória atual, a atmosfera poderia atingir um estado não visto em 50 milhões de anos.

Naquela época, as temperaturas eram até 10° C mais quentes e os oceanos eram dramaticamente mais altos do que hoje. A pesquisa que originou o artigo compilou 1.500 estimativas de dióxido de carbono para criar uma visão que se estende por 420 milhões de anos. O alerta é dramático, pois a civilização pode estar criando uma situação catastrófica e sem volta.

O nível minimamente seguro de concentração de CO2 é de 350 ppm. Assim, o mundo vai ter não só de parar de emitir gases de efeito estufa (GEE) como terá que fazer “emissões negativas”, ou seja, terá que sequestrar carbono e fazer uma limpeza da atmosfera. O custo deste processo será muito mais caro do que o custo de reduzir as emissões.

Assim, é urgente dar uma meia volta nas tendências de emissões de gases de efeito estufa (GEE) e no fenômeno de poluição crescente do solo, das águas e do ar e iniciar um processo de recuperação ecológica. Somente o decrescimento demoeconômico poderá fazer a humanidade respeitar os limites planetários e a capacidade de carga no Planeta. O caminho atual é insustentável e a civilização está avançando rumo ao precipício. Hoje, o mundo já caminha para a 6ª extinção em massa das espécies.

As mudanças climáticas, num futuro não muito distante, pode levar ao caos no Planeta. Um possível colapso ambiental poderá ser catastrófico para bilhões de pessoas e para a sociedade que, ao longo do tempo, se enriqueceu às custas do empobrecimento do meio ambiente e do holocausto biológico.


*José Eustáquio Diniz Alves é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas

Fonte: EcoDebate