Opinião

Notas sobre contaminação do solo e da água na agricultura

*Carlos Augusto de Medeiros Filho

Matérias recentes na imprensa potiguar informam da perspectiva de aumento na produção agrícola no Rio Grande do Norte, tanto na cultura de frutas na região de Açu e Mossoró (Tribuna do Norte, 25-09-2016), como no munícipio de Arês, no cultivo da cana de açúcar na antiga Usina de Estivas (Tribuna do Norte, 29-09-2016). Esse acréscimo de produtividade decorre, em parte, da ampliação da área trabalhada e irrigada e, também, de uma melhor qualificação da técnica de irrigação. As notícias constam de auspiciosas mensagens de aumento de divisas e de geração de empregos. Entende-se, evidentemente, que esse processo necessitará de uma maior quantidade de captação de água e de uma maior utilização, no solo, de fertilizantes.

Ainda no jornal Tribuna do Norte (18-09-2016), a professora da UFRN, Elisama Santos, afirma que "no Rio Grande do Norte, temos a contaminação de compostos orgânicos derivados da indústria de agrotóxicos empregados durante o cultivo de algumas hortaliças e frutas. Entretanto o monitoramento ambiental para medir a contaminação, ainda está longe de ser efetivo."

Esse conjunto de informações fez-me reler alguns artigos científicos que discutem a contaminação do solo e da água subterrânea na agricultura. Listarei alguns deles com breves comentários.

Na China, as fontes principais de poluição de metais traços em solos agrícolas são a irrigação, inclusive com a aplicação de águas residuais (sewage irrigation) e de lamas de águas residuais (sewage sludge), além de rejeitos de minas (Luo et al., 2012). Nesse sentido, Muchuweti et al. (2006) discutem, no Zimbabwe, sobre o cultivo de vegetais em solos tratados ou irrigados com produtos de águas servidas (esgotos). Ressaltam que a acumulação excessiva de metais pesados em solos agrícolas pode não só resultar em contaminação ambiental, mas levar a absorção de metais pesados pelas culturas e, consequentemente, afetar a qualidade e segurança dos alimentos.

Kundu et al. (2009) estudaram o potencial de contaminação de nitrato-nitrogen (NO(3)-N) and flúor (F) em água de beber como uma função da litologia, característica do solo e atividades agrícolas em um distrito intensamente cultivado da Índia. A concentração de NO(3)-N na água subterrânea foi baixa, variando de 0.12 a 6.58 microg mL. Observou-se, entretanto, que o teor de nitrato decresce com a profundidade dos poços e aumenta com o incremento da taxa de aplicação de fertilizante com nitrogênio.

Burkart & Stoner (2002) afirmam que análises de medições nacionalmente consistentes de programa da NASA de Pesquisa Geológica os EUA confirmam a hipótese de que fatores agrícolas e hidrogeológicos contribuem para a vulnerabilidade das águas subterrâneas para a contaminação por nitratos. Postulam que aquíferos livres e rasos são mais susceptíveis de contaminação de nitrato associada a sistemas agrícolas. Os aquíferos rasos de carbonato proporcionam também um risco de contaminação significativa, mesmo que menor. Os autores registram que sistemas irrigados podem agravar mais esta vulnerabilidade do que todos os outros sistemas agrícolas, embora as concentrações médias de nitratos em municípios com laticínios, aves, gado e grãos, e dos sistemas de horticultura sejam semelhantes. Concluem que regiões onde terras agrícolas irrigadas estão em expansão, como na Ásia, pode experimentar o maior impacto desta prática.

Estudos sobre níveis de resíduos de pesticidas normalmente usados em plantações de arroz irrigado nas águas das principais bacias hidrográficas do Estado de Santa Catarina foram desenvolvidos por Vieira et al. (2016). Os resultados destacam a necessidade de maiores esforços na formação de práticas de manejo e para o monitoramento contínuo de corpos d’água para a presença de resíduos de pesticidas. Concluem afirmando que reduzir a dependência dos agricultores em relação aos pesticidas exige o desenvolvimento de produtos que sejam menos agressivos para o ambiente, ou a adoção de práticas recomendadas por meio de pesquisa, a fim de garantir a continuidade da produção combinada com a preservação ambiental.

As concentrações de nitrato de 256 poços foram obtidos de setembro a outubro de 2015, em região de Bachok, Kelantan, Malasya ( Shamsuddin et al., 2016). 52 poços (41.27%) na área agrícola e 35 poços (26.9%) na região não-agrícola apresentaram concentrações de nitrato acima do limite superior de tolerância de 10 mg 10 mg L1 NO3-N.

Concentrações background de solos foram comparados com os teores de solo agrícolas para pesticidas organoclorados por Camenzuli et al. (2016). Para o período de 1993 a 2012, todas as concentrações médias no solo de agricultura foram significantemente mais altos do que os de solo brackground.

Essa série de artigos científicos oferece uma pequena amostragem da imensurável quantidade de pesquisa sobre a geoquímica de solos agrícolas. É, portanto, difícil de entender, como afirmou a professora Elisama Santos, de que monitoramento ambiental para medir a contaminação nas zonas de irrigação no Rio Grande do Norte ainda esteja distante de ser efetivo.


*Carlos Augusto de Medeiros Filho, geoquímico, graduado na faculdade de geologia da UFRN e com mestrado na UFPA. Trabalha há mais de 30 anos em Pesquisa Mineral.

Fonte: EcoDebate