Opinião

Visão ambiental da produção orgânica, Parte 1/3

*Roberto Naime

O grande desafio da atualidade é garantir a segurança alimentar, com alimentos saudáveis sem comprometer o meio ambiente e as gerações futuras.

Com as características de sustentabilidade e produtos de qualidade com certificação de origem, a agricultura orgânica se apresenta como alternativa em ampla expansão em nível mundial.

Esse aumento é consequência do alto do custo da agricultura convencional, da degradação do meio ambiente e da crescente exigência dos consumidores por produtos livres de agrotóxicos (DAROLT, 2002).

A agricultura orgânica vai muito além da simples troca de insumos químicos por insumos orgânicos e biológicos.

O manejo orgânico privilegia o uso eficiente dos recursos naturais não renováveis, aliado ao melhor aproveitamento dos recursos naturais renováveis e dos processos biológicos, à manutenção da biodiversidade, à preservação ambiental, ao desenvolvimento econômico, bem como, à qualidade de vida humana.

São pressupostos da agricultura orgânica o respeito à natureza, a diversificação de culturas, os policultivos e tratamento dos solos como sendo um organismo vivo.

O agricultor deve primeiramente reconhecer sua dependência em relação aos recursos e as suas limitações.

O policultivo propicia uma maior abundância e diversidade de espécies e maior equilíbrio do ambiente. A resistência de um ecossistema é constituída pelo somatório das resistências de seus elementos constituintes.

Também o manejo deve adotar práticas que garantam um fornecimento constante de matéria orgânica, para estimular os vivos e favorecer os processos biológicos.

Os insumos agroindustriais oneram os custos e comprometem a sustentabilidade.

Em termos técnicos, as características da atividade incluem a escolha de variedades adaptadas às condições ecológicas locais, a manutenção e aumento gradativo da fertilidade do solo por meio de adubos verdes, compostos orgânicos, restos culturais, estercos curtidos, tortas e farinhas de materiais devidamente preparados.

Podem ser utilizados ainda, adubos minerais de baixa solubilidade e resíduos agroindustriais, desde que isentos de agentes químicos e biológicos com potencial de contaminação.

O fornecimento de nutrientes considera a interação entre plantas e microrganismos do solo, que disponibilizam os nutrientes e fertilizam o solo como um todo.

O esterco pode ser utilizado puro e na produção de compostos e biofertilizantes, como o super-magro, que fornecem nutrientes e aumenta a resistência contra pragas e doenças.

O conteúdo nutricional dos fertilizantes orgânicos é baixo em comparação ao dos adubos minerais, por isso as quantidades aplicadas são mais elevadas e com antecedência.

Os fertilizantes minerais pouco solúveis (fosfatos naturais, farinha de osso, calcário, cinza vegetal, sulfato de potássio) entram como complemento à matéria orgânica, disponibilizando fósforo, potássio e micronutrientes a longo prazo.

A adubação verde é recomendada por ser fonte de nitrogênio e trazer benefícios como a reestruturação do solo, incorporação de matéria orgânica, ativação da vida microbiana, controle de pragas, redução de ervas invasoras por abafamento e ação alelopática, reciclagem de nutrientes e disponibilização de fósforo.

Podem ser usados adubos verdes com alta capacidade de cobertura do solo, como feijão-de-porco, crotalária, mucuna-preta e guandu.

No preparo para plantio é importante não haver intensa movimentação do solo para não interromper as atividades microbianas e manter a estrutura do solo, sendo recomendados, o plantio direto e o cultivo mínimo.

*Roberto Naime é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Fonte: EcoDebate