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Opinião

A Volkswagen e a carne de Cristalino

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*Maria Cristina Fernandes

Foi no Brasil que o desapego da Volkswagen à sustentabilidade escreveu seu primeiro e mais dramático capítulo. A fraude em testes de poluição atmosférica pode ter afetado 11 milhões de carros em todo o mundo, levou a empresa a perder 40% de seu valor de mercado, impôs uma multa de US$ 18 bilhões da agência de proteção ambiental americana e acumula prejuízos intangíveis à imagem da maior fabricante de carros do mundo. O capítulo brasileiro não moveu as bolsas de valores e resultou em multa irrisória do Ibama, mas deixou como passivo um dos mais radicalizados conflitos agrários do país.

Quarenta anos atrás a multinacional implantou em Santana do Araguaia, no Sul do Pará, a Companhia Vale do Cristalino, uma fazenda de 140 mil hectares, área do tamanho da cidade de São Paulo, onde cabem sete Wolfsburg, município onde fica a sede da Volkswagen, ao norte da Alemanha. Era o investimento pioneiro da Sudam, superintendência criada sob a premissa de que a melhor saída para garantir a soberania brasileira sobre a Amazônia era ocupá-la.

Com o apoio do Banco Mundial e das Nações Unidas, o governo brasileiro quis fazer da região um polo de produtos primários cuja exportação financiaria a compra de maquinário para a industrialização do Sudeste.

O desenvolvimento da Amazônia deveria servir de vitrine para o gigante adormecido que a ditadura se mostrava disposta a despertar. Seria replicada a mesma cadeia de incentivos fiscais que já havia possibilitado a instalação do parque automotivo do ABC paulista. Era de lá que viria a empresa pioneira da modernização dos trópicos.

Uma comitiva de ministros brasileiros negociaria pessoalmente a Cristalino com o presidente mundial da Volkswagen. Aquela que prometia ser uma fazenda-modelo teria matadouro, frigorífico e fábrica de processamento de carne, além de 48 quilômetros de estrada até a BR 153 (Belém-Brasília) que permitiria o escoamento da produção pelo canal do Panamá.

A pastagem era suplementada com sal e fertilizada de avião e o rebanho tinha sua pulsação, temperatura e frequência respiratória monitorados pela Escola Politécnica de Zurique.

O objetivo não era apenas mostrar que a pecuária tropical poderia ser tão desenvolvida quanto aquela de regiões temperadas mas alimentar a retórica de assistência ao desenvolvimento ao Terceiro Mundo num planeta ainda dominado pela guerra fria.

Em artigo publicado em dezembro de 2014 na "Revista Brasileira de História" ("O maior incêndio do planeta: como a Volkswagen e o regime militar brasileiro acidentalmente ajudaram a transformar a Amazônia em uma arena política global"), o doutorando do Instituto Universitário Europeu, de Florença, Antoine Acker resgata a definição do presidente da Volkswagen, Rudolf Leiding, para o empreendimento: "Esse mundo não precisa apenas de carros, mas também de carne".

A parceria com a Sudam se estendia à publicidade. Anúncio que circulou na imprensa brasileira, ilustrado com a foto de uma vaca no pasto, tinha como legenda "Volkswagen Sudam, modelo 77". Na Alemanha, a publicidade da Cristalino, que chegou a ser incorporada no material didático de escolas alemãs, ressaltava o tratamento dado aos 450 empregados da fazenda e às suas famílias.

O projeto havia transformado brasileiros nômades e pobres em personagens de um experimento tropical da sociedade de bem-estar alemã, com assistência médica num hospital com 12 leitos, dentistas, escolas com audiovisual, campos de futebol, piscina e até um cinema. Em artigo da "Die Welt", resgatado por Acker, a Alemanha se mostrava capaz de compartilhar sua superioridade civilizatória com o Brasil graças a "seu chefe de Estado, descendente de alemães, [Ernesto] Geisel".

A empresa, no entanto, parecia ter aplicado mais tecnologia para desenvolver o "boi do futuro" do que para entender a floresta tropical. Em 1975, durante congresso da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), os cientistas se rebelaram contra o "projeto mais antiecológico do mundo".

A Volkswagen, criada em 1934 sob o regime nazista para viabilizar a construção do "carro do povo", em resposta à precursora Ford, entraria no radar dos americanos. Quatro décadas antes de a agência ambiental dos Estados Unidos detectar a fraude no software de emissão de poluentes dos carros a diesel da montadora, uma outra agência americana, a Nasa, se atravessaria no caminho dos alemães. No fim de 1975, um de seus satélites detectou uma área contínua incendiada de 2,5 milhões de hectares no sudeste da Amazônia.

O incêndio se estendia por diversas fazendas de gado, mas o protagonismo do investimento da Volkswagen na região fez da multinacional sua maior vilã. Em audiência no Senado, o paisagista Roberto Burle Max acusou a VW de haver queimado uma floresta do "tamanho do Líbano", "no maior incêndio da história do planeta".

O modelo de gestão da Volkswagen não evita que os escândalos da empresa respinguem sobre o governo. Maior empresa da Alemanha, tem seu conselho gestor dividido entre as famílias fundadoras, um fundo do Qatar, que é seu acionista, trabalhadores e o governo da Baixa Saxônia, onde fica sua sede.

Na fraude do momento, o governo Angela Merkel apressou-se em condenar as práticas da empresa por temer que viessem a afetar a produção "made in Germany" como um todo, mas lideranças do Partido Verde a acusaram de ter ignorado as recomendações da União Europeia para punir montadoras que usassem supressores de emissões poluentes.

Se o escândalo de hoje afeta a imagem – e a economia – de um país cuja chanceler acabara de dar uma lição de política a seus pares europeus com o acolhimento dos refugiados sírios, a repercussão do incêndio da Cristalino revolveria cicatrizes ainda recentes na imagem da Alemanha.

A revista inglesa ’The Ecologist’ acusaria a empresa de participar de um "holocausto na Amazônia". De Tóquio, o "Asahi Shimbum", resgatado por Acker, faria eco à reprimenda: "Que isso sirva de alerta para as empresas japonesas, porque ninguém tem o direito de destruir a terra dos outros".

A abertura política no Brasil facilitara a reorganização de movimentos sociais que ajudariam a manter a Volkswagen no purgatório. A partir de 1977, a Comissão Pastoral da Terra começou a receber denúncias de que a fazenda Cristalino se valia de empresas que recrutavam mão de obra escrava para o desmatamento.

A VW mantinha padrão europeu para seus trabalhadores, mas delegara, sem fiscalização, parte dos serviços do empreendimento para "gatos" que mantinham trabalhadores em cativeiro, sob ameaças e violências.

Benjamin Buclet, antropólogo da UFRJ, compilou, em artigo anterior ao de Acker ("Entre tecnologia e escravidão: a aventura da Volkswagen na Amazônia"), relatos de trabalhadores atraídos à fazenda para atividades acessórias à criação de gado. Este é de um goiano de 22 anos, em depoimento de 1983: "A água que tinha para beber era de um poço, muito suja, com mosquito em cima. Logo todos pegamos a maleita, a febre. Como não estava me sentindo bem, na metade da derrubada resolvi vir embora […] Eles não quiseram pagar […] e obrigaram nós a voltar para continuar a trabalhar. Depois disso é que a coisa ficou preta mesmo para o nosso lado. Tinha vez da gente ser obrigado a entrar para fazer derrubada direto de terreno que no dia anterior tinha sido queimado. E a gente trabalhando naquele lugar quente ainda, e com malária em cima. Fui obrigado a trabalhar todos os dias, mesmo domingo, não tinha descanso […]Viemos sem receber nada pelo nosso serviço. E muito doente. Eu tava só um restinho".

As condições de trabalho eram as mesmas vigentes desde o século XIX, quando os seringueiros invadiram a Amazônia, mas a multinacional alemã se tornara o alvo predileto. O ’Tribunal Tiradentes’, composto em 1983 para uma condenação simbólica da Lei de Segurança Nacional, definiria a "escravidão da Volkswagen" como crime da ditadura. A denúncia chegaria ao "Times", de Londres: "600 slaves on plantation".

Buclet recolheu as explicações da empresa ao "Die Welt": "Não há tortura na fazenda da Volkswagen. As empresas estrangeiras são alvo de denúncias especialmente durante os dois últimos anos, quando o Brasil se encontrou em uma crise econômica muito grave e que a empresa despediu 15% dos trabalhadores. A maioria dos 600 trabalhadores são contratados por empreiteiros. A Volkswagen não tem responsabilidade pelas condições de trabalho desses homens".

Depois de 13 anos em mãos da VW, Cristalino seria vendida ao grupo empresarial Matsubara em 1986. A transação, no entanto, acabou anulada porque o comprador não honrou os pagamentos. Completamente deteriorada e endividada, a fazenda seria adquirida, em leilão, por um pecuarista paulista.

Os proprietários da região começavam a descobrir o filão das desapropriações de terra. Fazendas suscetíveis a conflitos eram compradas por um valor abaixo de mercado e, em seguida, eram invadidas, levando o Incra a desapropriações em valores muito superiores àqueles pagos. A fazenda foi fatiada em áreas de assentamento e em outras reservadas à exploração de urânio numa jazida à época avaliada em US$ 2,6 bilhões.

As riquezas minerais inflacionariam a cobiça pelas terras atraindo grupos como o Opportunity. A disputa aumentou a violência. Apenas em 2010 a tensão atingiu o ápice com a morte de quatro ex-posseiros da Fazenda Cristalino. No novo ciclo agrícola da região, a cana substituiria o gado sem aplacar as tensões latentes. A crise em que mergulhou o programa do etanol frustraria as ambições do governo e da indústria automobilística capitaneada pela Volkswagen, que produziu o primeiro carro bi-combustível do país.

*Maria Cristina Fernandes é jornalista do Valor Econômico

Fonte: Valor Econômico