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Opinião

Dia Mundial pelo fim do Especismo: 22 de agosto

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*José Eustáquio Diniz Alves

As sociedades humanas já criaram mecanismos para defender os direitos humanos e combater o Classismo, o Sexismo, o Escravismo, o Racismo, o Xenofobismo e o Homofobismo. Numa perspectiva antropocêntrica, as discriminações de humanos contra humanos são condenadas do ponto de vista econômico, social e ético. Mas os seres humanos continuam não reconhecendo os direitos da natureza e das demais espécies vivas da Terra. O homo sapiens se desenvolveu dominando e explorando o meio ambiente e destruindo os ecossistemas, esquecendo-se que a destruição da natureza é a destruição do habitat humano.

Os seres humanos se acham no direito de domesticar, aprisionar, explorar, segregar, escravizar, discriminar, matar e até torturar outros animais sencientes fora da raça humana. Os seres humanos criaram uma artificial diferença entre animais racionais e não racionais, estabelecendo uma distinção moral entre humanos e não humanos, onde só os primeiros seriam sujeitos de direito.

Contudo, esta auto-propalada inteligência não passa de uma ideologia para defender os privilégios de uma espécie sobre as demais espécies do Planeta. Na verdade o ser humano é um predador contumaz que não tem uma relação simbiótica com a natureza, como, por exemplo, as abelhas que vivificam as flores quando buscam a riqueza do néctar.

As abelhas ajudam a multiplicar as plantas e a difundir a biodiversidade na medida em que são os agentes de polinização da flora angiosperma (angeios = bolsa, e sperma = semente). O aumento das plantas com raiz, caule, folha, flor, semente e fruto ocorreu com o aumento das abelhas, borboletas, mariposas, passarinhos, etc. O enxame de insetos e aves polinizadoras é bom para a flora e os ecossistemas, enquanto que o enxame humano (e suas atividades antrópicas "extrai-produz-descarta") é ruim para os insetos, a flora, as flores e a natureza.

O antropocentrismo acha incorreto usar a expressão "enxame humano" ou o termo "somos todos macacos". A ideologia antropocêntrica considera que é um insulto comparar o ser humano aos animais. Quando ficam indignados com alguma injustiça, dizem: "Nem animal a gente trata assim". Como se fosse justo tratar os animais com a crueldade que deveria ser banida do reino humano.

Dieta Vegetariana

Quase 70 bilhões de animais terrestres são mortos todos os anos para alimentar os cerca de 7 bilhões de seres humanos. São cerca de 10 animais mortos, anualmente, para cada pessoa. Segundo a FAO, a criação de animais domesticados, no mundo, a serviço do apetite do homo sapiens, atinge cerca de 200 milhões de búfalos, 800 milhões de cabritos, 1 bilhão de porcos, 1,1 bilhão de ovelhas, 1,45 bilhão de bovinos e dezenas de bilhões de galinhas. A pecuária ocupa 26% da superfície terrestre global. O Brasil tem o maior rebanho bovino do mundo, com cerca de 215 milhões de cabeças (mais gado do que gente).

O impacto da população de ruminantes, especialmente bovinos, sobre o meio ambiente é muito grande. O metano liberado a partir dos sistemas digestivos dos animais criados pela pecuária é responsável por 14,5% de todos os gases de efeito estufa emitidos pelas atividades antrópicas. O gás metano é cerca de 30 vezes mais potente que o efeito do dióxido de carbono no aquecimento do planeta (um boi gera 58 quilos de metano por ano). Portanto, a escravidão animal é ruim para a espécie escravizada e para a espécie escravocrata.

O consumo anual médio per capita de carne no mundo desenvolvido foi de cerca de 80 quilos em 2012 e está projetado para crescer para 89 quilos em 2030. Enquanto isso, no mundo em desenvolvimento foi de 32 quilos em 2012, projetado para crescer para 37 em 2030. Se gasta 15 mil litros de água para produzir um quilo de carne. Além de ser ruim para o meio ambiente, o consumo de carne também afeta a saúde humana. Segundo um estudo feito na Universidade da Califórnia, publicado no periódico JAMA Internal Medicine, as pessoas que não comem carne têm mais chances de ter uma vida longa, se comparadas com aquelas que têm uma dieta "carnívora". Portanto, evitar a matança animal pode melhorar a qualidade de vida humana.

Sidarta Gautama (nascido por volta de 563 a.C. a 483 a.C.), o Buda, era vegetariano e defendia o direito dos animais. Pitágoras também era vegetariano. Vem de longe a defesa de uma dieta livre de carnes e o respeito aos animais. O vegetarianismo tem sua origem na tradição filosófica indiana, que chega ao Ocidente na doutrina pitagórica. Nas raízes indianas e pitagóricas do vegetarianismo, são ligadas a noção de pureza e contaminação, não correspondendo com a visão de respeito aos animais, como na doutrina budista e outras mais recentes. Por exemplo, eram também vegetarianos: Mahavira, Asoka, Empédocles, Plutarco, Porfírio, Ovídio, São Ricardo de Wyche, Leonardo da Vinci, John Ray, Thomas Tryon, Bernard Mandeville, Alexander Pope, Isaac Newton, Voltaire, George Cheyne, David Hartley, Oliver Goldsmith, Joseph Ritson, Lewis Gompertz, Ellen White, Johnny Appleseed, Percy Bysshe Shelley, Alphonse de Lamartine, Amos Bronson Alcott, William Alcott, Gustav Struve, Georg Friedrich Daumer, Richard Wagner, Liev Tolstoi,George Bernard Shaw, Romain Rolland, Élisée Reclus, Mahatma Gandhi, Franz Kafka, Isaac Bashevis Singer, Albert Einstein, entre muitos outros (Wikipedia).

Libertação animal

Peter Singer, no livro Libertação animal (1975) define o especismo como a discriminação contra certos seres baseada apenas no fato de estes pertencerem a uma dada espécie. O autor teve uma influência fundamental no movimento de Libertação Animal. Ele considera que todos os seres que são capazes de sofrer devem ter seus interesses considerados de forma igualitária e conclui que o uso de animais – nos moldes atuais – para alimentação é injustificável, já que cria sofrimento desnecessário. Assim sendo, ele considera que o vegetarianismo é a única dieta aceitável. Singer condena também a vivissecção, apesar de acreditar que algumas experiências com animais poderão ser realizadas se o benefício (por exemplo, avanços em tratamentos médicos, etc.) for maior que o mal causado aos animais em causa (Wikipedia).

Segundo Rodrigo Andrade, O abolicionismo animal é uma corrente de pensamento e militância que pretende livrar a fauna da escravidão. O que significa isso? Não comer nenhum produto de origem animal, não usar animais para nossa diversão nem para nossas pesquisas científicas, nem para vestimenta. É contra os zoológicos, as corridas de cavalo, os rodeios, as touradas, etc. O Abolicionismo é uma abordagem dos direitos animais que: 1) Requer a abolição da exploração animal e rejeita a regulação da exploração animal; 2) É baseada apenas na senciência animal e em nenhuma outra característica cognitiva; 3) Considera o veganismo a base moral da posição dos direitos animais e; 4) Rejeita toda violência e promove um ativismo em forma de educação vegana não violenta e criativa.

Ainda segundo Rodrigo Andrade o que o ser humano fez de ruim com escravos humanos não chega perto dos horrores do que se faz com os animais. Escravos faziam trabalhos forçados, apanhavam quando desobedeciam ordens. Isso já é ruim o suficiente. Mas esses homens não eram brutalmente mortos para servir de alimento. Não eram obrigados a se exibir em rodeios para bêbados sádicos. Não passavam suas vidas em gaiolas sendo inoculados com doenças para pesquisas médicas. Não tinham a pele arrancada ainda em vida para virar um casaco. Escravidão é uma palavra fraca para o que se faz aos animais. Eles estão um degrau abaixo: são objetos.

A caça e a matança de animais selvagens

A humanidade está provocando a 6ª extinção em massa das espécies, gerando um grande desequilíbrio entre as áreas ecúmenas e anecúmenas no mundo. Milhares de elefantes são mortos cruelmente todos os anos para que alguns poucos humanos possam lucrar com o comércio de marfim e outros tantos humanos possam lucrar com a compra e venda de joias de marfim e objetos de decoração fabricados a partir das presas e do sacrifício de um dos animais mais fantásticos do Planeta. Centenas de rinocerontes são abatidos covardemente todos os anos para alimentar o comércio apenas do chifre, cujo preço no mercado negro vale mais que o ouro, chegando a 50.000 euros por quilo. Os criminosos cortam os chifres dos animais e vendem como remédio para diversos tipos de doença ou como porções afrodisíacas na China e no Sudeste Asiático.

A caça de animais selvagens é uma injustiça e uma covardia. O caso de maior repercussão ocorreu em julho de 2015, quando o leão Cecil, famoso espécime do Zimbábue, foi ilegalmente atraído para fora de uma área de proteção e morto simplesmente por diversão sádica. Estima-se que foi pago US$55 mil pela cabeça do animal, que tinha 13 anos, e era famoso por ficar tranquilo em fotos. Cecil usava um rastreador GPS em uma coleira para que caçadores não pudessem afastá-lo da área de proteção – mas o equipamento foi retirado justamente pelos seus assassinos. Ele foi atingido, primeiramente, por uma flexa, caçado durante uma perseguição de 40 horas e, por fim, morto com um disparo de arma. O responsável por este crime cruel é um dentista de Minessota chamado Walter Palmer. O americano é um caçador que está sendo procurado – mas, na internet, está sendo objeto de críticas e tratado como um representante do que há de pior na raça humana.

A morte do leão Cecil é um ato de barbárie que se soma a morte de tantos outros leões, tigres, elefantes, rinocerontes, gorilas, etc. Enquanto cresce a população humana, diminui a população animal, com uma redução drástica da biodiversidade. Desde que foi noticiado o assassinato de Cecil, ocorreu também a morte de um dos últimos cinco rinocerontes-brancos do norte existentes no planeta, restando portanto apenas quatro antes da extinção definitiva dessa subespécie. Assim, as únicas populações animais que crescem são aquelas confinadas e escravizadas com a finalidade de ir para os abatedouros, para enriquecer de proteínas a dieta humana.

Não há imperativo ético que justifique a crueldade contra os animais. Toda construção ideativa que tenta estabelecer uma distinção moral entre animais humanos e não humanos e dar direitos somente a uma espécie senciente, cai na armadilha da discriminação de espécie, o que é designado por especismo. A racionalidade que justifica o especismo é também a que justifica a discriminação e a opressão de grupos sociais minoritários ou considerados inferiores. A ideologia que legitima o Especismo é a mesma que ratifica o Classismo, o Sexismo, o Escravismo, o Racismo, o Xenofobismo e o Homofobismo.

Um trabalhador que reivindica direitos trabalhistas, uma mulher que protesta contra a violência de gênero, um escravo que busca a carta de alforria, raças discriminadas que lutam contra o racismo, migrantes que protestam contra a xenofobia, homossexuais e transgêneros que reclamam da homofobia – todos juntos – deveriam unir forças na mobilização contra o especismo. A libertação animal também a libertação das minorias e das maiorias humanas. Todas as pessoas, em suas diferentes identidades e inserções sociais, deveriam participar das atividades, no dia 22 de agosto, do DIA MUNDIAL CONTRA O ESPECÍSMO.


*José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

Fonte: EcoDebate