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Opinião

Na contramão da tragédia ambiental

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*Maria Dalce Ricas

A encíclica sobre meio ambiente publicada pelo Vaticano mostra mais uma vez a personalidade surpreendente do atual Papa. Apesar de a temática ambiental não ser novidade dentro da igreja, haja vista que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) adotou temas correlatos por diversas vezes, nunca em sua história, a maior autoridade da igreja falou tão claro e direto sobre o assunto.

O papa disse que "chegou o momento de aceitar um certo decrescimento em algumas partes do mundo aportando recursos para que seja possível crescer de maneira saudável em outras partes". Sua inspiração deve ter sido o nível de consumismo alucinado dos americanos, maior exemplo da desigualdade do consumo de recursos naturais.

O "crescer de forma saudável" é bem mais complicado, pois boa parte dos países que precisam "crescer" não tem mais recursos naturais suficientes para tanto, dilapidados que foram pelo uso predatório. Como a maior parte da África ou do Nordeste brasileiro.

Disse ainda que é "insustentável o comportamento daqueles que consomem e destroem mais e mais, enquanto outros não podem viver de acordo com sua dignidade humana". Tem toda razão. Mas o máximo que os países do Primeiro Mundo fazem é caridade. Não são capazes de repensar seu estilo de vida nem mesmo em benefício próprio. Que dirá dos outros!

A encíclica diz também, que "infelizmente, muitos esforços para encontrar soluções concretas para a crise ambiental falham frequentemente, não só por causa da oposição dos poderosos, mas também por uma falta de interesse por parte dos outros". Gostei desta parte. Qualifica os poderosos que continuam acreditando que não serão atingidos pela tragédia ambiental e menciona os indiferentes que, mesmo não sendo "poderosos" agem como vítimas, e não como sujeitos que são enquanto consumidores frenéticos ou cidadãos omissos.

Outra máxima: "Muito facilmente o interesse econômico prevalece sobre o bem comum e manipula informações para não ver seus projetos afetados". Manipular informações não sei, mas muito me preocupa perceber uma forte preocupação econômica com a crise de água, em Minas, bem desligada de suas principais causas – desmatamento, erosões, alterações climáticas que tenho visto em pronunciamentos de representantes do setor privado e do Governo.

"A tradição cristã nunca reconheceu como direito absoluto ou inviolável o direito à propriedade privada, ela destaca a função social de todas as formas de propriedade privada". Essa fala do Papa Franscisco deve ter arrepiado o cabelo dos ruralistas que não são carecas. Nada os irrita mais que o questionamento sobre o suspeito "direito limitado" deles sobre as árvores, a água e os animais que habitam suas propriedades.

"É previsível que, frente ao esgotamento de alguns recursos, seja criado gradualmente um cenário favorável para novas guerras, disfarçadas de reivindicações nobres. "Dizer que é "previsível", no caso, é um baita eufemismo. Mas quanto às "reivindicações nobres" a afirmativa é tão pertinente quanto triste. Até Hitler acreditava na nobreza de seu feroz genocídio.

*Dalce Ricas é superintendente executiva da Amda

Fonte: revista Ecológico