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Opinião

São Pedro não dá conta

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*Rogério Gentile

SÃO PAULO – Não é de hoje que Alckmin culpa São Pedro pela crise do abastecimento de água de São Paulo. Em 2003, quando houve uma situação similar à de agora, ainda que menos grave, o já governador dizia que o problema era "decorrente da maior estiagem em 70 anos".

Onze anos depois, apesar de vários estudos técnicos alertarem que a região metropolitana consumia muito mais água do que o recomendável (quase o dobro do indicado pela ONU) e produzia bem menos do que o necessário (um décimo do valor considerado como crítico), Alckmin continua a dizer a mesma coisa – a diferença é que agora estamos "na maior estiagem em 80 anos".

O ponto principal é que o Estado não se preparou adequadamente para uma nova temporada de seca. De 2003 para cá, o consumo de água aumentou 20,9% na área de atuação da Sabesp, mas a produção cresceu apenas 8,26%. Além disso, a empresa continua com um índice altíssimo (24,4%) de perdas na distribuição (vazamentos e fraudes), sem cumprir a própria meta de redução (deveriam ser de 20,4%). No Japão, o índice é de apenas 3%.

Entre outras medidas preventivas, São Paulo poderia, por exemplo, há muito tempo ter elevado o preço da água para frear o consumo ou ter instituído uma sobretaxa para quem gastasse em demasia. No início do ano, o governador chegou a anunciar uma "multa", mas desistiu por conta da eleição. Anteontem, voltou a falar sobre o assunto.

É evidente, no entanto, que o governo paulista não é o único responsável pela situação. Nas últimas décadas, autoridades das mais diversas instâncias não apenas fecharam os olhos como estimularam a ocupação urbana nas regiões de mananciais. E ainda continuam a fazer. Haddad, não faz 10 dias, em plena crise hídrica, autorizou a construção de moradias populares para 14 mil pessoas perto da represa do Guarapiranga.

Sem colaboração aqui embaixo, São Pedro não dá conta.

*Rogério Gentile é secretário de Redação da área de edição da Folha

Fonte: Folha de São Paulo