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Opinião

Menos riqueza e mais sujeira

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*Agostinho Vieira

Quem não mede não gerencia. Essa máxima é antiga e qualquer pessoa que tenha ocupado um cargo de gestão em empresa pública ou privada sabe como ela é importante. No entanto, o bom administrador, nem que seja por prudência, carrega sempre no bolso outra frase igualmente velha e relevante: o papel aceita qualquer coisa, depende apenas do freguês e dos seus interesses.

É aí que mora o perigo. Todos têm interesse, sejam eles do governo, da oposição, do setor privado ou do terceiro setor. Essa é a lição número um das aulas de jornalismo. Mesmo os dados verdadeiros, muitas vezes escondem variáveis que podem transformar decisões óbvias em enormes burrices. Este mês, por exemplo, a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) anunciou que, nos próximos 20 anos, a frota brasileira passará de 39,7 milhões para 95,2 milhões.

O argumento é bem simples. Hoje, são 5,1 brasileiros para cada carro circulando nas nossas ruas. Nos países desenvolvidos esse número é inferior a dois habitantes por carro. Nos Estados Unidos chega a ser de quase um veículo por pessoa. Ou seja, trata-se de uma enorme oportunidade de negócio. Não podemos ficar pra trás. Parece lógico, mas não é. O problema é colocar mais 55 milhões de carros nas já abarrotadas grandes cidades. Não é preciso ser um gênio para saber que isso é inviável.

Outros dois números importantes têm sido motivo de muita controvérsia nos últimos dias. Eles indicam os níveis de desmatamento da Amazônia e as emissões de gases de efeito estufa do Brasil. A polêmica da Amazônia, mais uma vez, é causada pela ONG Imazon, que mensalmente divulga dados da região, Sempre com muito estardalhaço, nem sempre com exatidão. O último registro fala num aumento de 467% em outubro em relação ao mesmo mês do ano passado.

O sistema do Imazon é semelhante ao Deter, usado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), órgão que calcula os dados oficiais do governo. No Inpe, ele serve como uma espécie de alarme para orientar os fiscais do Ibama sobre onde devem atuar. Não é preciso, nem identifica áreas pequenas. Para isso existe o Prodes, mais parrudo e confiável. Foi ele que registrou as quedas no desmatamento dos últimos anos e a subida de 29% entre 2012 e 2013. O número de 2014 sairá até o final do mês e virá com um aumento da ordem de 10%.

Ontem, o Observatório do Clima divulgou os últimos dados das emissões de carbono do Brasil, referentes ao ano de 2013. Eles também não são oficiais e não batem com os do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Mas o grupo que lidera o projeto tem um objetivo claro e louvável: provocar o governo, fazer com que ele seja mais ágil e transparente. As diferenças são metodológicas e, em bases iguais, os números acabam sendo parecidos. Aparentemente não há erro, nem má-fé.

Pelo critério utilizado, as emissões brasileiras teriam atingido 1,57 bilhão de toneladas de CO2 equivalente em 2013. Um aumento de 7,8% em relação ao ano anterior. O dado oficial só será conhecido no primeiro semestre de 2015. Mas o Secretário do MCTI, professor Carlos Nobre, já admite um aumento. Depois de dez anos de quedas sucessivas, será a primeira vez que isso acontece.

São basicamente três as causas que provocaram o crescimento. O uso intensivo de termelétricas estimulado pela crise hídrica, o aumento no número de automóveis comprados com incentivo do governo e movidos por gasolina subsidiada e, finalmente, a volta do desmatamento. Para complicar, não há perspectiva de que essas variáveis sejam alteradas. As térmicas devem permanecer ligadas durante todo o ano de 2015, o álcool não tomará o lugar da gasolina nos tanques e nem o desmatamento mostra sinais de que voltará a cair como deveria.

E o pior é que estamos aumentando as emissões de carbono sem que a economia cresça. Temos menos riqueza e mais sujeira. As emissões per capita do país vinha caindo sistematicamente. Chegamos a 7,2 toneladas de CO2 por habitante, em 2012, em linha com a média mundial. Agora voltamos a nos aproximar das 8 toneladas por pessoa. As causas são claras e podem ser enfrentadas. É uma questão de vontade política. O desmatamento não está descontrolado, mas precisa voltar ser enfrentado com rigor. Não dá mais para perder tempo com números. A hora é de agir.

*Agostinho Vieira é jornalista pós-graduado em Gestão de Negócios e Gestão Ambiental.

Fonte: O Globo