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Opinião

Antes que a fonte seque

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*José Carlos Tórtima

Na deslumbrada primeira visão da nossa terra, Pero Vaz de Caminha, o empolgado escrivão da frota de Cabral, não conteria a euforia ao anunciar, em sua célebre epístola ao rei Dom Manuel, que as águas da nova colônia eram não só muitas, mas "infindas". Só não imaginava Caminha que com sua bela carta de apresentação da ambicionada Índia Ocidental aos nossos ancestrais lusitanos poderia estar lançando as sementes da arraigada e onipresente cultura de esbanjamento do precioso líquido e do mito de sua inesgotabilidade. Cultura esta que até hoje se faz presente nas cenas de desperdício explícito nas cidades e no campo. E também na timidez de políticas públicas direcionadas à preservação e ao bom uso das reservas do mineral.

Historicamente os estoques naturais de água doce, e sua distribuição racional, nunca foram tratados como questão prioritária pelos governantes do nosso país, daí resultando, de um lado, a tolerância oficial para com práticas de malbarateamento e contaminação do líquido vital, e de outro o fenômeno das calamidades da seca e das enchentes convivendo, não raro simultaneamente, em distintos pontos do nosso território, sem qualquer iniciativa de deslocamento dos excedentes para os locais flagelados pela estiagem.

De fato, a sensação ainda dominante no espírito da maioria dos brasileiros, pela forma como lidam com a água, é que esta jamais faltará. Pouquíssimas pessoas, sejam governantes ou cidadãos comuns, se importam com o seu desperdício. Talvez porque medidas que procurem evitá-lo ou coibi-lo, como a simples proibição da lavagem de calçadas com mangueiras, não rendam votos.

De outra parte, reservas de proporções oceânicas estocadas no subsolo pela natureza, e relativamente próximas de regiões castigadas pela seca, não chegam às suas populações. Para se ter uma ideia, enquanto grande parte dos municípios do Piauí padece com os efeitos devastadores da seca do semiárido, somente na localidade de Alvorada do Gurgueia, no sudeste do estado, existem cerca de 400 poços que, sob grande pressão interna, fazem jorrar colunas de água de 30 a 60 cm de diâmetro, alcançando dezenas de metros de altura, sendo todo este potencial hídrico é aproveitado apenas pelos poucos moradores locais e como atração turística. Não menos abundantes, e já agora em proporções catastróficas, apresentam-se as águas em diversos pontos do país atingidos por enchentes cíclicas alimentadas por chuvas torrenciais. Por que parte das águas superavitárias, sobretudo as que caem do céu para destruir e matar, não é captada, drenada para grandes reservatórios e, posteriormente, canalizada para as regiões onde escasseiam, aliviando os efeitos das cheias, e estabelecendo-se, pelo princípio elementar dos vasos comunicantes, e por meio de uma malha de canais, dutos e estações de bombeamento, um equilíbrio saudável de sua presença vital? Nada que uma boa parceria entre União, estados, municípios interessados e iniciativa privada não possa realizar com sucesso.


*José Carlos Tórtima é advogado

Fonte: O Globo