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Opinião

Crescimento da população e dos domicílios e seus impactos ambientais no Brasil

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*José Eustáquio Diniz Alves

A relação entre o ser humano e a natureza é de dominação, exploração e degradação e não de simbiose como no caso da abelha e do beija-flor. Essas duas espécies, ao se alimentarem do pólen das flores, se tornam polinizadores e garantem a reprodução das plantas e o aumento da biodiversidade. Quanto mais abelha e beija-flor houver no mundo, melhor para o meio ambiente. O mesmo não se pode dizer da espécie humana que, na prática, não conhece o que é simbiose. O progresso humano tem se dado às custas do regresso ambiental. O Dia Mundial do Meio Ambiente, 5 de junho, é um bom momento para se fazer uma avaliação do estado de desnatureza do Brasil.

A população brasileira passou de 10 milhões de habitantes, em 1872, quando foi feito o primeiro censo, para 200 milhões em 2013, segundo as últimas projeções do IBGE. Foi um crescimento de 20 vezes em 141 anos. Embora o Brasil tenha uma baixa densidade demográfica, o incremento populacional foi estimulado e estimulou o crescimento de um modelo de produção e consumo altamente danoso para o meio ambiente. Com poucos habitantes por quilômetro quadrado, os benefícios humanos do desenvolvimento brasileiro provocaram grandes malefícios para a natureza. O Brasil é um exemplo de como uma população relativamente pequena, para o tamanho do território, pode provocar grandes danos ambientais.

Com ânsia e ganância por recursos naturais, mais de 90% da Mata Atlântica já foi destruída nos últimos 500 anos, mas em vez de recuperar, a devastação continua em pleno século XXI. Segundo a ONG, SOS Mata Atlântica, entre julho de 2012 a junho de 2013, o desmatamento na Mata Atlântica aumentou 9% e atingiu 23.948 hectares, dos quais 23.142 hectares correspondem a floresta nativa e 806 hectares a regiões de restinga. A área equivale a 24 mil campos de futebol retirados do bioma com sérios danos à biodiversidade e com aumento da emissão de CO2, contribuindo para o aquecimento global.

O Cerrado e a Floresta Amazônica estão indo pelo mesmo caminho de destruição. Outros ecossistemas, como os Pampas, Caatinga, Pantanal, Mangues, Mata de Cocais também sofreram muito com o avanço da população humana e suas atividades de exploração econômica. Milhares de espécies foram extintas e outras estão ameaçadas, como as Onças, o Muriqui e até o Tatu-bola, que é símbolo da Copa do Mundo de 2014. Até as abelhas, fundamentais para o processo de polinização, estão ameaçadas pelos agrotóxicos e a perda da biodiversidade da flora, provocando a Síndrome do Colapso das Colmeias.

A erosão, a salinização e a acidificação dos solos faz o Brasil perder grandes áreas agrícolas e aumentar a desertificação do território. No Cerrado, muitas terras estão deixando de ser produtivas por conta das imensas crateras chamadas de voçorocas que se espalham pela região. A monocultura – ou deserto verde – destrói a biodiversidade das plantas e dos animais.

A maioria dos rios brasileiros foram represados e o livre fluxo das águas e dos peixes foram descontinuados. O rio São Francisco definha e sofre com o processo de superexploração de seus recursos. Mesmo antes da transposição, o delta do São Francisco já está salinizado e as populações da foz sofrem com a falta de água doce. Nas cidades os rios viraram esgotos, como os ribeirões Arrudas e do Onça, em Belo Horizonte, os rios Carioca e Maracanã no Rio de Janeiro e os rios Anhanguera, Anhangabaú e Tietê em São Paulo. O Brasil tem 3% da população mundial e 13% da água doce disponível do globo, mas vive o drama da falta d’água.

A região metropolitana de São Paulo, devido ao descaso, ao desperdício e à poluição está sendo obrigada a fazer o racionamento de água devido à crise do sistema Cantareira, onde ocorre a escassez em meio à abundância, já que o rio Tietê, na megacidade, foi destruído pela contaminação do lixo e dos dejetos humanos. As duas maiores cidades brasileiras já brigam pelo acesso à água e a utilização dos recursos hídricos do rio Paraíba do Sul.

As condições ambientais das cidades brasileiras são degradantes do ponto de vista da natureza e das espécies não humanas. A vida em cidade é o oposto da vida selvagem e os direitos dos animais são, em geral, totalmente desrespeitados. Não há sequer corredores ecológicos. Com o incentivo ao uso do automóvel particular as cidades se tornaram um "carmagedon" e a mobilidade urbana fica congestionada nos imensos engarrafamentos. A especulação imobiliária e a segregação urbana criam áreas gentrificadas para os ricos e deixa milhões de pessoas vivendo em aglomerados subnormais. O modelo de desenvolvimento é injusto do ponto de vista ambiental e social e é gerador de violências.

Mas se o crescimento da população tem um impacto negativo no meio ambiente, o impacto é ainda maior devido ao aumento do número dos domicílios. Entre 1950 e 2010 a população brasileira cresceu 260% e os domicílios 460%.

O crescimento da quantidade de habitações representa o crescimento da área construída e a diminuição das áreas de livre evolução da natureza. Cada domicílio requer muitos recursos da natureza. Mesmo assim, no caso brasileiro, apesar do enorme crescimento do número de domicílios ainda existe uma grande parcela da população que vive em favelas e em aglomerados subnormais, que se espalham pelos morros e beiras de rios e lagoas. Devido à exclusão social, o impacto negativo da pobreza sobre o meio ambiente é muito grande. Ao mesmo tempo, existem áreas urbanas que passam pelo processo de gentrificação e agridem o meio ambiente pelo excesso de luxo e alto padrão de consumo.

Entre 1950 e 2010 o crescimento da população brasileira foi de quase 4 vezes, enquanto os domicílios ocupados passaram de 10,1 milhões para 56,6 milhões (mais 10 milhões de domicílios não ocupados, totalizando 67,6 milhões). O número de pessoas por domicílio ocupado caiu de 5,3 para 3,3 pessoas. Portanto, houve um crescimento expressivo do número de moradias e o aumento do percentual de domicílios com apenas uma pessoa. Existem vários estudos mostrando que o impacto dos domicílios unipessoais é maior, em termos per capita, do que os domicílios com maior densidade de pessoas.

Maior número de domicílios significa maior uso do solo, de água, esgoto e energia, recursos essenciais especialmente nas cidades. Domicílios com menos moradores são, em geral, menos eficientes que aqueles onde mais pessoas partilham recursos. Uma casa gasta a mesma quantia de serviços públicos e recursos independentemente se há uma, duas ou quatro moradores. Uma geladeira, por exemplo, consome a mesma potência, não importa se há uma ou muitas pessoas na casa. O mesmo acontece com os aparelhos de televisão e outros equipamentos domésticos.

Mas além do crescimento dos domicílios particulares permanentes ocupados, houve também crescimento dos domicílios não ocupados, que passaram de 8,7 milhões em 2000 para 10,1 milhões em 2010. Uma quantidade tão grande de domicílios não ocupados tem um grande impacto sobre o meio ambiente e tem servido mais para a especulação imobiliária do que para o bem-estar humano. Ou seja, enquanto existe uma parcela da população morando em condições degradantes, existem mais de 10 milhões de domicílios que servem aos interesses da especulação, beneficiam uma elite econômica e causam muitos danos ao meio ambiente.

Portanto, se o crescimento da população já tem um efeito negativo sobre o meio ambiente, o crescimento ainda maior do número de domicílios tem um efeito negativo mais impactante, como mostra, entre outras coisas, a perda de áreas produtivas e os aterros sanitários que são o símbolo da insustentabilidade do modelo de desenvolvimento.

Mas a população brasileira vai começar a decrescer a partir da década de 2030, o que poderia ajudar a reverter o quadro de degradação ambiental do país. Contudo, não haverá solução se for dado continuidade ao atual modelo de produção e consumo. Por exemplo, não adianta reduzir a população humana e continuar expandindo a população de bovinos para exportar carnes e couros, enquanto o Brasil desmata o Cerrado e a Amazônia para construir hidrelétricas e expandir as pastagens e o rebanho que emite gas metano e eleva o aquecimento global. O Brasil precisa contribuir com a redução dos gases de efeito estufa e a riqueza natural do país precisa ser restituída, pelo menos aquela parte que não foi totalmente extinta para sempre.

O modelo de desenvolvimento brasileiro precisa ser repensado e o volume populacional não pode servir de desculpa para a justificativa de expansão de atividades antrópicas que são danosas para o meio ambiente e a biodiversidade. Os próximos 500 anos devem servir para que a civilização brasileira faça uma reparação dos crimes de especismo e ecocídio que foram perpetrados nos últimos 5 séculos em todo o território nacional. O Brasil precisa pagar a sua dívida ambiental.

*José Eustáquio Diniz Alves é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

Fonte: EcoDebate