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Opinião

Bioeletricidade, uma fonte de energia subutilizada

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*Elizabeth Farina

Em meio a malabarismos para pagar a conta da energia elétrica sem afetar a inflação e jogar por terra a promessa de redução nas contas de luz, e com os reservatórios das hidrelétricas em situação crítica desde o início de 2013, o papel da bioeletricidade gerada a partir da biomassa de cana de açúcar tem sido negligenciado na política energética nacional.

Todas as usinas brasileiras produzem energia a partir do bagaço de cana para seu próprio consumo, mas apenas 40% delas exportam bioeletricidade excedente para a rede de energia elétrica, quase sempre abaixo de sua potencialidade. Ficam de fora mais de 200 usinas que necessitam de investimentos em modernização técnica para se transformarem em termelétricas produtoras de energia excedente e poderem exportar. Para isto há necessidade de melhorar a eficiência energética dessas usinas, trocando-se caldeiras, reduzindo o consumo de vapor e gerando mais energia com o mesmo bagaço da cana.

Mas o potencial que existe se ocorrerem essas reformas está longe de ser explorado. A principal barreira é o preço nos leilões regulados, que não consideram as externalidades positivas de fontes renováveis como a biomassa.

Ao obrigar a bioeletricidade a concorrer contra formas de geração não comparáveis e com estruturas de custo muito diferentes, como as eólicas ou térmicas a carvão, os leilões praticamente tiram essa modalidade do páreo. Há anos, o setor sucroenergético argumenta que comparar a bioeletricidade a térmicas poluentes ou comparar projetos longínquos de geração, com usinas de cana que estão no coração da região mais populosa do Brasil, sem incorporar adequadamente custos e perdas ligados à transmissão, produz uma desvantagem competitiva acentuada para a bioeletricidade. O que se propõe é que os leilões sejam específicos, dedicados a essa fonte, ou realizados de forma regional, aproveitando o potencial localizado.

Conectar as usinas que exportam ao sistema elétrico é outro obstáculo. A responsabilidade pela conexão é hoje integralmente da usina e conforme a distância, o custo pode ser proibitivo. É algo que merece revisão, pois a maioria das usinas está na região centro-sul do país, bem mais perto dos principais centros de consumo do que grandes hidrelétricas, que exigem extensas linhas de transmissão a custos muito mais elevados, que em última análise são pagos pelo consumidor final.

A produção de bioeletricidade essencialmente durante a colheita da cana, antes vista como problema, na verdade é uma das grandes vantagens dessa modalidade pois a colheita ocorre entre abril e dezembro, justamente o período mais seco do ano. Isso torna a bioeletricidade vital para a saúde das hidrelétricas, que são maioria no Brasil. Ela é ofertada precisamente no auge da pressão sobre os reservatórios, contribuindo diretamente para conservar os estoques de água.

Mesmo com seu avanço represado por diversos gargalos, em 2013 a bioeletricidade poupou 7% da água nos reservatórios das regiões Sudeste e Centro-Oeste, que juntas representam 60% do consumo brasileiro. Em agosto de 2013 foi batido um recorde histórico na oferta de bioeletricidade, que chegou a 2,3 milhões de MWh, cerca de 10% da carga dessas duas importantes regiões. Estima-se que em 2013 a oferta de bioeletricidade de cana chegou aos 15 milhões de MWh, 25% acima do total de 2012 e equivalente à demanda anual de oito milhões de residências brasileiras, ou mais de 12% do consumo residencial do país.

Claramente, a situação energética que o país enfrenta neste momento estaria muito pior sem essas contribuições, que, de quebra, evitaram o lançamento de 7,5 milhões de toneladas de CO2 na atmosfera. Sem isso, as emissões do setor elétrico seriam 23% mais elevadas.

A crise enfrentada pelo setor sucroenergético merece ser lembrada neste contexto porque, em função da atual conjuntura, não existe hoje uma única nova usina de processamento de cana encomendada no Brasil. Novas usinas, ou ’greenfields’, já nascem com tecnologia de ponta e equipadas para gerar bioeletricidade para o sistema. A ausência de novas usinas é mais um fator que impede que a oferta seja expandida.

O governo tem pleno conhecimento de todos esses dados, que há anos são objeto de discussões intermináveis e propostas a perder de vista para que a bioeletricidade cresça, de acordo com seu enorme potencial. Esse conhecimento fica evidente nas estimativas da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), mostrando que o aproveitamento da biomassa disponível nas usinas pode gerar 22 GW médios até 2022, quase cinco vezes a garantia física da usina de Belo Monte ou de duas Itaipu. Porém, o que se nota é que em anos de diálogo, aprendeu-se a calcular o potencial impressionante dessa fonte energética e não a transformá-lo em geração efetiva. O que não se pode dizer é que os obstáculos existentes sejam intransponíveis.

Em artigo para o Valor de 13/03/2014, o economista Sergio Malta afirma que "o Brasil é um formidável ponto fora da curva" em sua capacidade de responder ao desafio internacional de garantir oferta de energia elétrica, incluir bilhões de pessoas no mundo da energia estável e continuar a mitigar os impactos ambientais da geração de energia baseada em fontes fósseis e altamente poluentes. Para continuar sendo esse ponto fora da curva, o Brasil não pode mais desperdiçar fontes limpas e renováveis como o etanol e a bioeletricidade. Não podemos nos dar ao luxo do desperdício.


*Elizabeth Farina é economista e presidente da União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica).

Fonte: Valor Econômico