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Opinião

Unidades de Conservação também podem render votos

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*Maria Dalce Ricas

Comecei a pensar que o paraíso talvez exista, depois de passar alguns dias no Parque Estadual do Rio Preto, localizado no município de São Gonçalo do Rio Preto, a 60 km de Diamantina. Poucas pessoas têm o privilégio de conhecê-lo e o principal motivo é o péssimo acesso. Entra governo, sai governo; tivemos o Pró-Acesso e agora o Caminhos de Minas, mas as estradas dos parques não são incluídas.

Que os parques vivem à míngua é de conhecimento público. A valentia e dedicação de seus gerentes e equipes é que têm garantido sua integridade. É o caso do Rio Preto. Para Tonhão, Deco e sua turma, não há "tempo quente". Faça frio, calor, sol ou chuva, eles enfrentam o que é preciso. De São Gonçalo é preciso encarar 19 km de estrada de terra para chegar ao parque. Alguns pequenos trechos, que não eram trafegáveis nem por carros tracionados, foram calçados por essa equipe aguerrida, mas o acesso ainda é difícil.

Os parques deveriam ter papel muito maior no desenvolvimento econômico, educativo e de lazer dos municípios e regiões onde existem. Deveriam ser indutores de pousadas, restaurantes, fortalecendo atividades econômicas típicas da região, gerando empregos e renda para a população e beneficiando, sob diversas formas, a economia do Estado. Esta situação não é isolada. Reflete a total ausência de ações governamentais na área da sustentabilidade, apesar dos demagógicos e, cada vez mais, intragáveis discursos nesse sentido.

Se a estrada que dá acesso ao parque do Rio Preto, por exemplo, fosse asfaltada ou, pelo menos, tivesse melhor condição de tráfego, o número de visitantes aumentaria, o local cresceria em importância frente à sociedade. E, talvez, até frente a deputados que estão sempre de plantão para impedir ou reclamarem da criação de Unidades de Conservação. Renderia até votos! Hoje, mesmo com essas deficiências, ele já é responsável por gerar mais de 30 empregos para pessoas das comunidades do entorno.

A vegetação tem predominância de Cerrado, repleto de pequizeiros, cagaiteiras, mangabeiras e dezenas de plantas medicinais. Nas encostas de suas belíssimas serras, milhares de árvores se penduram em qualquer nicho das pedras e as formações rochosas exibem contornos fantásticos. Nas areias brancas das praias do Rio Preto, rastros de onça, veados, cachorro do mato, tamanduás (inclusive o canastra) e lobos, mostram a volta da fauna após 20 anos da criação do parque e do trabalho de seus gestores.

"Historinha" cômica

Após aprovação da Lei Florestal do Estado que beneficia descaradamente atividades produtivas, o governador prometeu e cumpriu promessa de criar um Grupo de Trabalho (GT) para discutir estágios sucessionais no parque. Na primeira reunião, conforme ata da Semad, o representante da Faemg chegou a dizer: "Acho que temos que dar um choque de cultura (sic) neste GT. Se não existe legislação, é porque ele tem uma importância ambiental limitada. Não estou contra a proteção do Cerrado, o que quero é chamar a atenção, com veemência, para o fato de que sua importância ambiental tem uma limitação."

Ele não sabe que o Cerrado é reconhecido como a savana mais rica do mundo em biodiversidade, abrigando 11.627 espécies de plantas nativas já catalogadas; 199 espécies de mamíferos conhecidas, e a rica avifauna compreende 837 espécies. Os números de peixes (1200 espécies), répteis (180 espécies) e anfíbios (150 espécies) são elevados. O número de peixes endêmicos não é conhecido, porém os valores são bastante altos para anfíbios e répteis: 28% e 17%, respectivamente.

Muitas populações sobrevivem de seus recursos naturais, incluindo etnias indígenas, quilombolas, geraizeiros, ribeirinhos, babaçueiras, vazanteiros, que detêm conhecimento tradicional de sua biodiversidade.

Quem sabe o IEF convida a direção da Faemg para passar uns dias no Rio Preto? A não ser que sejam cegos, que não queiram ver ou que seus corações sejam de concreto urbano, é bem possível que mudem de opinião quanto ao Cerrado e até ajudem a melhorar o parque!


*Maria Dalce Ricas é superintendente executiva da Amda

Fonte: revista Ecológico