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Opinião

Água e energia

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*Marcelo Leite

Nos últimos meses este colunista esteve mergulhado nas águas turbulentas da hidrelétrica de Belo Monte (PA), uma travessia para esgotar a energia de qualquer um. O resultado, "A Batalha de Belo Monte", pode ser conferido em folha.com/belomonte, em português, folha.com/belomonte-en, em inglês.

Não é dessas águas passadas nem da energia drenada que saiu o título da coluna, todavia. Ele surgiu de uma pausa para refletir sobre o que significa, afinal, erguer um colosso desses para barrar o majestoso rio Xingu e tomar de empréstimo um pouco da força que o move.

O país precisa de eletricidade, ponto. Muita eletricidade. Provavelmente não tanta quanto projetam os burocratas do Ministério de Minas e Energia, que só têm olhos para obras faraônicas e seus dividendos. Conservação de energia, usinas eólicas, solares? Esquece.

Se a alternativa for entre hidrelétricas e termelétricas (combustível fóssil ou nuclear), é melhor ficar com as primeiras. Poluem menos. Mas o potencial remanescente está concentrado na Amazônia, onde há muita água, mas o terreno tende a ser plano, o que implica inundar grandes áreas para gerar energia.

Durante a produção de "A Batalha de Belo Monte", e também depois, a equipe de reportagem ouviu várias vezes a pergunta: contra ou a favor? Não é uma resposta fácil.

As soluções de engenharia para Belo Monte são em muitos aspectos admiráveis. Gerar 4.571 megawatts (MW) médios alagando "apenas" 500 km2 (um terço do município de São Paulo), ainda que meros 41% da potência instalada de 11.233 MW, é melhor que inundar quase o quíntuplo disso (2.350 km2) para instalar ridículos 250 MW, como na criminosa usina de Balbina (AM).

Muita coisa mudou, no país e no projeto de Belo Monte, desde os anos 1980. Reconhecer isso não permite, contudo, deixar de apontar a repetição de barbaridades na mitigação – mal planejada, tardia, "para inglês ver" – dos impactos sobre o ambiente ímpar da Volta Grande do Xingu e sobre as populações ribeirinha, indígena e citadina.

Belo Monte ainda ficou longe de dar um exemplo de civilização e responsabilidade social à altura da engenharia que a ergueu. Se você for atropelado por um trator, pouco importará que ele seja guiado por GPS e que na cabine com ar condicionado o volante seja manipulado por um presidente da República petista e popular.

Há outra maneira de enxergar a pequenez de Belo Monte, porém, para a qual chamou a atenção Antonio Donato Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.

Nos poucos meses em que Belo Monte funcionar a plena carga, se operar 24 horas por dia, passará por suas 18 turbinas principais 1,2 bilhão de metros cúbicos de água. No mesmo dia, a floresta amazônica evaporará "pela simples transpiração de suas plantas" um volume quase 20 vezes maior.

A comparação em termos da energia envolvida é mais humilhante. A água enviada pela mata para os céus emprega pelo menos 60 mil vezes mais energia que a colhida pelos rotores da usina, que precisaria de 165 anos a toda força para empatar com que move a máquina de chuva amazônica num único dia.


*Marcelo Leite é jornalista

Fonte: Folha de São Paulo