Quanto vale a natureza?

Perguntar o valor da natureza é chocante. Temos a ideia de que tudo que se relaciona a preço, comércio ou negócios, implica na atribuição de importância estrita a um resultado financeiro, desconsiderando qualquer outro aspecto da transação. Ou seja, não raramente confunde-se preço, a quantia em dinheiro paga por um produto ou serviço, com valor, o benefício real que você recebe em troca nesta transação. E valor é algo subjetivo, que varia conforme a experiência, a necessidade e o impacto na vida do cliente, da sociedade e do planeta.
A discussão é antiga e se aplica a vários temas da sociedade, mas, na área ambiental de forma geral, e talvez na temática da conservação da biodiversidade, esta análise se torna ainda mais rigorosa, pois estamos falando diretamente da vida no planeta. E não parece nada ético atribuir um valor à vida no planeta.
Mas neste artigo queremos reforçar o que Mark R. Tercek e Jonathan S. Adams já alertavam em seu livro “Capital Natural: como as empresas e a sociedade podem prosperar ao investir no meio ambiente”: valorizar a natureza não significa substituir um conjunto de argumentos em favor da conservação por outro, mas se fornece uma outra lógica para se defender o meio ambiente. Neste contexto, mais especificamente, para defender a própria natureza.
A mudança de paradigma de um mundo mecanicista para um mundo ecológico, segundo o físico austríaco-americano Fritjof Capra, não é uma mudança uniforme. E infelizmente talvez nunca ocorra da forma como imaginamos, uma vez que biocentrismo e antropocentrismo parecem disputar um único e mesmo espaço. Dentro deste espaço, atualmente bastante antropocêntrico, aprendemos como espécie a nos organizar em grupos, desenvolver ferramentas e tecnologia, dividir tarefas e criar todo um complexo sistema de trocas que, segundo (apenas) a nossa inteligência, representaria uma evolução social.
Mas não vamos entrar aqui no mérito de um ideal político-econômico teórico, o qual deve sim ser buscado por cada um de acordo com suas convicções, por mais que nenhum de nós nesta e nas mais próximas gerações irá vivenciá-lo de fato como se deseja ou idealiza. No momento presente, sim, atribuímos “preço” às coisas, na tentativa de representar de uma forma simbólica o seu valor. E, sim, nunca seremos perfeitos nisso, pois nenhum valor pode de fato ser perfeitamente expresso em um preço. E qualquer indivíduo da nossa espécie atualmente utiliza o sistema econômico vigente no seu dia a dia, seja de forma mais, menos ou nada consciente – a não ser que tenha escapado do sistema para algum lugar longínquo. Todos estamos inseridos neste sistema econômico que, sem entrar em julgamentos morais, é o que temos hoje.
Dito isto, entramos em outra seara econômica: a da externalidade ambiental. O termo trata dos efeitos colaterais da produção, não incluídos nos preços de bens e serviços. O conceito evoluiu de Alfred Marshall para Ronald Coase, passando principalmente por Arthur Cecil Pigou (com seus famosos “impostos pigouvianos”), mas, curiosamente, o termo é utilizado apenas no sentido negativo.
Se o sistema econômico atual finalmente volta o seu olhar para a natureza, atribuindo valor financeiro à biodiversidade, a qual por tanto tempo esteve à sua margem, ainda podemos nos atrever a ser um pouco otimistas. Atribuir um valor financeiro à natureza não diminui o valor intrínseco da vida; pelo contrário, dá armas ao idealismo dentro do mercado atual.
Nos resta então duas opções. De um lado, podemos seguir na crítica pura ao sistema e escolher ignorar uma oportunidade, relegando qualquer solução à crise da biodiversidade a um futuro que está cada vez mais ameaçado e incerto. Ou podemos escolher atravessar para a outra margem e aproveitar uma ferramenta pragmática para ultrapassar a era da conservação puramente defensiva para a conservação ativa, reconhecida, valorizada e inserida em um sistema próspero de produção de natureza. Qual das duas opções trará mais resultado? O tempo dirá.
Para decidir, precisamos considerar a visão de mundo dominante na sociedade, quais são os fatores que fundamentam suas decisões, e então o que funcionaria melhor no contexto atual. E, em sua maioria, estes fatores são sim econômicos. Quem sabe, reconhecer que a conservação tem um preço e que alguém já está pagando por ele, e se sairmos da ideia de que áreas naturais preservadas são apenas mais uma área em potencial para o desmatamento e expansão, para outra na qual a conservação tem valor econômico e é parte integrante do desenvolvimento, já teremos um ganho.
A natureza conta com a nossa decisão.
*Regiane Borsato é engenheira florestal, doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento e diretora executiva do Instituto LIFE.