Opinião

O papel da escola e o protagonismo dos jovens no enfrentamento da crise climática na Amazônia

*Adriana Guimas

**Natália Oliveira

***Everton Reichert Farias

Muitas incertezas têm sido apontadas quanto à realização da Conferência das Partes, a COP 30, em Belém, neste ano. Sua infraestrutura logística e rede hoteleira são postas em xeque a todo momento, e apesar disso, há uma dúvida maior em jogo: os esforços para a conservação do próprio bioma Amazônia e para elevar a qualidade de vida de suas populações são suficientes diante da crise climática global?

As imprevisibilidades hoje rondam a vida amazônica, que antes era regida pelos tempos da floresta. As secas, as cheias, as friagens, a cor do céu, o movimento dos animais nos rios e na terra sustentavam a certeza de uma cronologia pautada pelas vidas humanas e não humanas da floresta. Em 2023, achávamos que estávamos vivendo a maior estiagem possível na Amazônia. No ano de 2024, com o atingimento de novos níveis mínimos históricos em grandes rios amazônicos, fica a impressão de que estamos vivendo a maior seca dos últimos anos e a mais branda dos próximos.

O cenário é agravado pela multiplicação descontrolada de queimadas por toda a Amazônia. Segundo o INPE, em 2024 registramos o maior número de focos de calor desde o ano de 1998. Tivemos, ainda, as maiores temperaturas registradas nos últimos trinta anos, de acordo com dados do INMET. A fumaça, o calor extremo, os rios secos e terras rachadas deram uma visão do futuro que teremos se não mudarmos a forma com que nos relacionamos com a floresta.

Em meio a tantos dados e projeções alarmantes, a face mais brutal da crise climática já se impõe, no presente do indicativo, sobre aqueles que vivem sob as copas das árvores. Notadamente, durante a seca de 2024, foram as vidas ribeirinhas, indígenas e quilombolas que sofreram maior impacto com a falta de acesso à água potável, alimentação, saneamento e a serviços públicos básicos.

Essa situação também afeta de forma desproporcional as crianças e jovens, que além de sofrerem os impactos imediatos e prolongados dos eventos climáticos extremos, também são mais acometidos pela ecoansiedade. Em pesquisa realizada pela OSC Motriz com mais de 18 mil jovens do Pará e do Amazonas em 2024, 38% deles acreditam que a qualidade de vida na Amazônia deve piorar no futuro.

Neste sentido, na Amazônia profunda, os papeis da escola ganham conotação diferente da usual, à medida que preenchem lacunas na oferta de acolhimento, assistência social, segurança alimentar e bem-estar. Assim, mesmo atuando como espaço de referência e vínculo estável durante eventos climáticos extremos, a escola ainda está distante das principais discussões da agenda climática global e nacional. Foi somente em 2023, já na COP 28, que tivemos o primeiro dia de evento dedicado à educação, com foco na inclusão da temática ambiental nas escolas. No Plano Clima e nas NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas) a educação aparece timidamente, e o financiamento climático é pouco direcionado à agenda educacional.

Mesmo atuando como espaço de referência e vínculo estável durante eventos climáticos extremos, a escola na Amazônia profunda ainda está distante das principais discussões da agenda climática global e nacional.

As mudanças climáticas já afetam diretamente o direito constitucional à educação, com impactos no desenvolvimento cognitivo e socioemocional das crianças e jovens, que sofrem com a perda de dias letivos, dificuldades no atendimento de suas necessidades básicas e traumas ligados a eventos climáticos extremos. Ainda que a educação não seja priorizada nas discussões sobre clima, quem vive e trabalha na Amazônia sabe que sem ela não teremos a transformação de que precisamos. O maior ativo da Amazônia é o seu povo. Fortalecer a educação é fortalecer as pessoas que cuidam da floresta, e a escola tem o potencial de contribuir para a ação climática com justiça social e equidade, em termos de adaptação e mitigação.

É fato que a conectividade e o acesso à informação de qualidade se configuram como um desafio em muitas comunidades na Amazônia profunda. Por isso, a escola pode se constituir como o principal espaço de discussão e acesso a conhecimentos sobre as mudanças climáticas e a formação de lideranças, repertoriando as juventudes e apoiando-as no desenvolvimento de competências para que protagonizem soluções de enfrentamento à mudança do clima.

A escola também tem um importante papel em garantir o direito de aprendizagem com equidade, essencial para corrigir as injustiças estruturais existentes na região amazônica, que são acentuadas pela crise climática. Incorporar a lente climática na educação é fundamental não só do ponto de vista pedagógico, mas também da perspectiva da gestão educacional e infraestrutura, para que os processos sejam adaptados ao novo contexto que se apresenta. É patente fazermos a transição de uma lógica de mera resposta a catástrofes para uma lógica de adaptação e resiliência, caso contrário, excluiremos ainda mais estudantes já em vulnerabilidade.

A escola como espaço de transição e transformação, pode exercer um papel fundamental na reconexão dos estudantes com o território, além de fomentar reflexões sobre formas sustentáveis de se relacionar com a floresta. Ela tem o potencial de fortalecer contranarrativas ao discurso sedutor das atividades ilegais e antiecológicas que se disseminam na Amazônia, aceleradas pela falta de perspectivas, oportunidades e investimentos nos projetos de vida das crianças e jovens da região.

A concretização do sonho de se restabelecer uma relação equilibrada com a floresta na Amazônia passa por sonhá-lo no chão da sala de aula. Os futuros possíveis só se realizarão se as crianças e jovens da Amazônia tiverem acesso à educação de qualidade, culturalmente pertinente, e que desenvolvam um conjunto de competências fundamentais para impulsionar uma transição climática justa e uma economia verde. A escola, portanto, deve comunicar a crise climática e anunciar com tom esperançoso soluções e alternativas à destruição, despertando o protagonismo dos estudantes na transformação de suas realidades locais.

*Adriana Guimas é mestranda em Ciências da Educação pela Universidade do Minho/Portugal, pedagoga e psicopedagoga pela Universidade Federal do Amazonas. É professora, pesquisadora e formadora, com foco em políticas educacionais, sustentabilidade e clima na Amazônia. É membro da Rede de Amazônidas pelo Clima e atualmente é consultora pedagógica no Programa Plantar Educação na Motriz.

**Natália Oliveira possui MBA em Restauração, Licenciamento e Adequação Ambiental pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), especialista em Implementação de Políticas Educacionais pelo Instituto Singularidades e Engenheira Ambiental pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Atua como Especialista em Sustentabilidade na Motriz.

***Everton Reichert Farias possui MBA Gestão de Projetos pela Universidade de São Paulo (Esalq/USP) e é internacionalista pela Universidade Federal do ABC (UFABC). Atua como Analista de Equidade e Sustentabilidade na Motriz.

Fonte: Nexo Jornal