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Workshop sobre usos da estrada do Salão Dourado ratifica seu fechamento ao tráfego de veículos não autorizados

A estrada atravessa a Mata dos Campolinas, única área primária do parque, e abriga árvores gigantes e animais ameaçados

Workshop sobre usos da estrada do Salão Dourado ratifica seu fechamento ao tráfego de veículos não autorizados

Workshop realizado no dia 11 de março, no Parque Estadual do Rio Doce (Perd), pelo Instituto Estadual de Florestas (IEF), solidificou o entendimento de que a estrada do Salão Dourado deve permanecer fechada ao tráfego de veículos não autorizados. O evento contou com a presença da promotora de Timóteo, Bruna Bodoni Faccioli, e da coordenadora da Bacia do Rio Doce, Mariana Cristina Pereira Melo, autoras da ação civil pública que resultou em liminar determinando suspensão das obras de reconstrução da Ponte Queimada.

O workshop foi aberto pelo Instituto Ekos, em apresentação que reforçou a representação da Amda ao Ministério Público (MP) contra a reconstrução da Ponte Queimada sem garantias de cumprimento do Plano de Manejo. O Plano prevê uso da estrada para turismo controlado, pesquisa, educação ambiental, fiscalização e deslocamento de brigadas de combate a incêndios.

Durante o encontro, o Ministério Público deixou claro que a estrada não é uma rodovia, mas sim via de deslocamento interna do parque, não estando sujeita às mesmas regras de operação e gestão. O MP citou documento do Departamento de Edificações e Estradas de Rodagem de Minas Gerais/DEER-MG, que atesta que a via não integra a malha rodoviária do Estado.

Outro ponto considerado urgente pelos participantes foi a necessidade de ampliar as informações à população dos municípios do entorno sobre a não abertura da estrada, diante de manifestações políticas que acenam à liberação do tráfego. A deputada federal Rosangela Reis divulgou vídeos em seu Instagram nesse sentido, o que levou a Amda a lhe enviar ofício explicando a situação e alertando sobre possíveis consequências decorrentes da informação equivocada. O mesmo foi feito em relação ao deputado Celinho do Sinttrocel, que defendeu a abertura da via em audiência pública na Assembleia Legislativa de Minas Gerais.

No evento ficou também claro que o fechamento da estrada não acarretará danos sociais, já que há rota alternativa entre os municípios situados à direita do rio Doce e o Vale do Aço, composto por Ipatinga, Cel. Fabriciano e Timóteo.

O prefeito de Marliéria, Hamilton Lima Paula, que também participou do workshop, afirmou que sempre entendeu que a estrada seria aberta ao uso e que há cobrança da população nesse sentido. No entanto, a Amda ressalta que alertou a Prefeitura de Marliéria em diversas ocasiões sobre a situação e que a assessoria jurídica do município já tinha conhecimento da representação encaminhada ao Ministério Público.

Visita à Ponte Queimada

No dia seguinte ao evento, a equipe da Amda foi à Ponte Queimada, cuja reconstrução, além de decisão judicial, também foi suspensa pela Prefeitura de Marliéria, por entender que a empresa contratada estava usando materiais de baixa qualidade.

Sem o tráfego de veículos, as copas das árvores se conectaram, formando passagens aéreas para a fauna. Por ser primária, a Mata abriga espécies como o muriqui-do-norte, maior primata das Américas e criticamente ameaçado de extinção, além do jacu-estalo, conhecido como “fantasma da floresta” por sua raridade, papagaio-moleiro e onças-pintadas.

Os impactos ambientais do tráfego de veículos na estrada do Salão Dourado estão documentados por diversas pesquisas. Efeito de borda, que ocorre devido à estrada, resultando em maior exposição ao vento, luz e temperaturas mais altas, reduzindo a umidade, que pode ocorrer até 400 metros de cada margem, afetando o equilíbrio entre fauna e flora, é um deles.

Poeira, ruído, lixo, caça e captura de animais e incêndios fazem parte dos impactos, já amplamente documentados, de estradas sobre florestas. A estrada do Salão Dourado foi construída pela Acesita em 1947, três anos após a criação do Perd, para transportar carvão feito com a Mata Atlântica para seus altos fornos. Antes, havia apenas uma trilha – Trilha do Degredo, por onde eram levados criminosos, a cavalo, para prisões, nos municípios do outro lado do rio, fato documentado por pesquisadores e teses de mestrado.

Visita a loteamento ilegal no limite do Perd

A equipe visitou ainda as localidades de Goiabeiras e Sapucaia, próximas a Cava Grande, distrito de Marliéria, onde constatou grande derrubada de Mata Atlântica associada a um loteamento irregular. Segundo informações de moradores, a área pertencia à Aperam (que comprou da Acesita) e foi vendida à empresa GPM, que a fracionou ilegalmente, pois sendo rural, localizada na Zona de Amortecimento (ZA) do Perd e coberta por Mata Atlântica, é protegida pela Lei da Mata Atlântica.

Os funcionários da Amda testemunharam dezenas de construções, em sua maioria casas de campo, erguidas a poucos metros do limite do parque. A área foi retirada da ZA do Perd no Plano de Manejo promulgado pelo IEF em 2023. “Ficamos impressionados com os danos ambientais. Ao invés de impedir o desmatamento, o Estado ratificou sua ilegalidade ao retirá-lo da ZA”., afirma Dalce Ricas, superintendente executiva da Amda.

A entidade informou que encaminhará proposta de mitigação dos danos à Aperam, por entender que a empresa tem obrigação de preservar as florestas em suas propriedades e ser aliada na proteção do parque. “A Aperam comprou a Acesita, que foi responsável por derrubar a Mata Atlântica no Vale do Aço e causar a morte de milhões de animais. A Aperam herdou esse passivo”, acrescenta Dalce.