Workshop sobre usos da estrada do Salão Dourado ratifica seu fechamento ao tráfego de veículos não autorizados
A estrada atravessa a Mata dos Campolinas, única área primária do parque, e abriga árvores gigantes e animais ameaçados
19 de março de 2026
Workshop realizado no dia 11 de março, no Parque Estadual do Rio Doce (Perd), pelo Instituto Estadual de Florestas (IEF), solidificou o entendimento de que a estrada do Salão Dourado deve permanecer fechada ao tráfego de veículos não autorizados. O evento contou com a presença da promotora de Timóteo, Bruna Bodoni Faccioli, e da coordenadora da Bacia do Rio Doce, Mariana Cristina Pereira Melo, autoras da ação civil pública que resultou em liminar determinando suspensão das obras de reconstrução da Ponte Queimada.
O workshop foi aberto pelo Instituto Ekos, em apresentação que reforçou a representação da Amda ao Ministério Público (MP) contra a reconstrução da Ponte Queimada sem garantias de cumprimento do Plano de Manejo. O Plano prevê uso da estrada para turismo controlado, pesquisa, educação ambiental, fiscalização e deslocamento de brigadas de combate a incêndios.
Durante o encontro, o Ministério Público deixou claro que a estrada não é uma rodovia, mas sim via de deslocamento interna do parque, não estando sujeita às mesmas regras de operação e gestão. O MP citou documento do Departamento de Edificações e Estradas de Rodagem de Minas Gerais/DEER-MG, que atesta que a via não integra a malha rodoviária do Estado.
Outro ponto considerado urgente pelos participantes foi a necessidade de ampliar as informações à população dos municípios do entorno sobre a não abertura da estrada, diante de manifestações políticas que acenam à liberação do tráfego. A deputada federal Rosangela Reis divulgou vídeos em seu Instagram nesse sentido, o que levou a Amda a lhe enviar ofício explicando a situação e alertando sobre possíveis consequências decorrentes da informação equivocada. O mesmo foi feito em relação ao deputado Celinho do Sinttrocel, que defendeu a abertura da via em audiência pública na Assembleia Legislativa de Minas Gerais.
No evento ficou também claro que o fechamento da estrada não acarretará danos sociais, já que há rota alternativa entre os municípios situados à direita do rio Doce e o Vale do Aço, composto por Ipatinga, Cel. Fabriciano e Timóteo.
O prefeito de Marliéria, Hamilton Lima Paula, que também participou do workshop, afirmou que sempre entendeu que a estrada seria aberta ao uso e que há cobrança da população nesse sentido. No entanto, a Amda ressalta que alertou a Prefeitura de Marliéria em diversas ocasiões sobre a situação e que a assessoria jurídica do município já tinha conhecimento da representação encaminhada ao Ministério Público.
Visita à Ponte Queimada
No dia seguinte ao evento, a equipe da Amda foi à Ponte Queimada, cuja reconstrução, além de decisão judicial, também foi suspensa pela Prefeitura de Marliéria, por entender que a empresa contratada estava usando materiais de baixa qualidade.
Sem o tráfego de veículos, as copas das árvores se conectaram, formando passagens aéreas para a fauna. Por ser primária, a Mata abriga espécies como o muriqui-do-norte, maior primata das Américas e criticamente ameaçado de extinção, além do jacu-estalo, conhecido como “fantasma da floresta” por sua raridade, papagaio-moleiro e onças-pintadas.
Os impactos ambientais do tráfego de veículos na estrada do Salão Dourado estão documentados por diversas pesquisas. Efeito de borda, que ocorre devido à estrada, resultando em maior exposição ao vento, luz e temperaturas mais altas, reduzindo a umidade, que pode ocorrer até 400 metros de cada margem, afetando o equilíbrio entre fauna e flora, é um deles.
Poeira, ruído, lixo, caça e captura de animais e incêndios fazem parte dos impactos, já amplamente documentados, de estradas sobre florestas. A estrada do Salão Dourado foi construída pela Acesita em 1947, três anos após a criação do Perd, para transportar carvão feito com a Mata Atlântica para seus altos fornos. Antes, havia apenas uma trilha – Trilha do Degredo, por onde eram levados criminosos, a cavalo, para prisões, nos municípios do outro lado do rio, fato documentado por pesquisadores e teses de mestrado.
Visita a loteamento ilegal no limite do Perd
A equipe visitou ainda as localidades de Goiabeiras e Sapucaia, próximas a Cava Grande, distrito de Marliéria, onde constatou grande derrubada de Mata Atlântica associada a um loteamento irregular. Segundo informações de moradores, a área pertencia à Aperam (que comprou da Acesita) e foi vendida à empresa GPM, que a fracionou ilegalmente, pois sendo rural, localizada na Zona de Amortecimento (ZA) do Perd e coberta por Mata Atlântica, é protegida pela Lei da Mata Atlântica.
Os funcionários da Amda testemunharam dezenas de construções, em sua maioria casas de campo, erguidas a poucos metros do limite do parque. A área foi retirada da ZA do Perd no Plano de Manejo promulgado pelo IEF em 2023. “Ficamos impressionados com os danos ambientais. Ao invés de impedir o desmatamento, o Estado ratificou sua ilegalidade ao retirá-lo da ZA”., afirma Dalce Ricas, superintendente executiva da Amda.
A entidade informou que encaminhará proposta de mitigação dos danos à Aperam, por entender que a empresa tem obrigação de preservar as florestas em suas propriedades e ser aliada na proteção do parque. “A Aperam comprou a Acesita, que foi responsável por derrubar a Mata Atlântica no Vale do Aço e causar a morte de milhões de animais. A Aperam herdou esse passivo”, acrescenta Dalce.