Tragédia: Xingu presencia mortandade de ovas de peixe pelo quarto ano consecutivo
Seca provocada por alterações no fluxo do rio compromete reprodução de espécies e ameaça a segurança alimentar de indígenas e ribeirinhos na Volta Grande do Xingu

Indígenas e ribeirinhos presenciam, pelo quarto ano consecutivo, milhões de ovas de peixes morrendo na seca em Piracema do Odílio, importante berçário natural de espécies da região. A tragédia foi documentada no dia 21 de fevereiro deste ano, na Volta Grande do Xingu, no Pará, pelo Monitoramento Ambiental Territorial Independente (Mati-VGX), uma aliança entre comunidades locais e pesquisadores com apoio do Instituto Socioambiental (ISA), que desde 2014 acompanha os impactos das variações no fluxo de água provocadas pela usina Usina Hidrelétrica de Belo Monte.
Antes da construção da barragem de Pimental, estrutura que afeta diretamente a região, a desova da espécie curimatã era sincronizada com a cheia natural do rio. No entanto, com o desvio de até 80% da vazão do Rio Xingu, o nível reduzido e constante da água não mantém o volume necessário para uma desova segura. Como consequência, as áreas de piracema secam abruptamente e as ovas ficam expostas fora d’água.
Mesmo com a proteção do defeso no período reprodutivo, a medida não alcança as áreas afetadas pela intervenção da usina. A situação compromete a reprodução de espécies que compõem a base alimentar de comunidades indígenas e ribeirinhas da região, colocando em risco sua segurança alimentar. Em 2016, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) já alertava que a escassez de espécies aquáticas poderia levar ao deslocamento forçado dessas populações.
Apesar da determinação do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para que a concessionária Norte Energia revise a partilha das águas, a empresa tem se recusado a cumprir integralmente as medidas estabelecidas. Mesmo com o acúmulo de multas, os danos continuam, afetando a biodiversidade aquática e as comunidades que dependem do rio para sobreviver, reforçando a necessidade de medidas mais severas diante de empreendimentos que impactam diretamente o direito de permanência dessas populações em seus territórios.