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Morte de onça atropelada na MG-135 escancara descaso do poder público com a fauna silvestre

Amda acionará o Ministério Público contra o Estado e o DER para exigir medidas urgentes de prevenção de atropelamentos nas rodovias MG-135 e MG-402

Morte de onça atropelada na MG-135 escancara descaso do poder público com a fauna silvestre

Morreu nesta quarta-feira (28) a onça-parda atropelada na última sexta-feira (23), no km 157 da rodovia MGC-135, na região da Fazenda Minará, no entorno do Parque Nacional Cavernas do Peruaçu e do Parque Estadual da Mata Seca, entre os municípios de Itacarambi e Januária, no Norte de Minas Gerais. O animal não resistiu aos graves ferimentos causados pelo atropelamento, mesmo após cinco dias de atendimento veterinário intensivo.

A morte foi anunciada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Natureza e da Biodiversidade (ICMBio), que participou do resgate. A onça, também conhecida como suçuarana, foi encontrada às margens da rodovia por moradores e brigadistas do ICMBio, com traumatismo craniano e sangramento na região da cabeça. Mesmo ferida e cambaleante, conseguiu deslocar-se para uma área de vegetação próxima ao local do impacto.

O caso expõe, mais uma vez, o descaso do poder público com a proteção da fauna silvestre nas rodovias brasileiras. Assim como ocorre na maioria das estradas do país, a MGC-135 não possui dispositivos eficazes de prevenção ao atropelamento de animais, mesmo margeando unidades de conservação de proteção integral.

Para a Associação Mineira de Defesa do Ambiente (Amda), a morte da onça não é um episódio isolado, mas resultado direto da omissão do Estado. “A maioria dos animais atropelados morre sem qualquer chance de socorro. Ainda há quem trate a fauna como coisa, sem reconhecer seu direito à vida”, afirma Dalce Ricas, superintendente da entidade.

No Parque Estadual da Lagoa do Cajueiro, também no Norte de Minas, no município de Matias Cardoso, a rodovia MG-401 atravessa 18 quilômetros da unidade de conservação, que possui cerca de 20,5 mil hectares. Levantamentos realizados por funcionários do parque apontam os atropelamentos como um dos principais impactos diretos sobre a fauna. Somente em 2025, foram registrados 54 atropelamentos, envolvendo anfíbios, répteis, aves e mamíferos. A rodovia funciona como barreira física, altera rotas naturais e comportamento dos animais, aumentando significativamente o risco de colisões, especialmente em trechos de alta velocidade, no período noturno e crepuscular, além de durante chuvas.

Segundo Jader Lessa Cordoval, gerente do Parque Estadual da Lagoa do Cajueiro, os impactos vão além das mortes diretas. “Os atropelamentos contribuem para redução populacional, o isolamento genético e o desequilíbrio dos ecossistemas, além de representarem risco à segurança das pessoas que trafegam pela via”, alerta.

A Amda reforça que medidas de prevenção não são complexas nem de alto custo. Entre elas estão a roçagem regular das margens das rodovias, redutores de velocidade, sinalização adequada, passagens de fauna aéreas e subterrâneas, monitoramento sistemático e ações permanentes de educação ambiental.

“DER, DNIT e prefeituras deveriam, há muito tempo, incluir de forma obrigatória nos projetos e licitações de rodovias a implantação e a manutenção de dispositivos eficazes para prevenir o atropelamento de fauna”, destaca Dalce. Enquanto essas medidas seguem sendo negligenciadas, mortes como a da onça na MGC-135 continuam sendo consequências previsíveis de uma política pública omissa, que falha em proteger a biodiversidade e também a segurança de quem trafega pelas rodovias.

A Amda enviará representação ao Ministério Público contra o Governo do Estado de Minas Gerais e o Departamento de Edificações e Estradas de Rodagem (DER), cobrando implantação urgente de dispositivos de prevenção de acidentes nas rodovias MG-135 e MG-402.