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Da caça à conservação: o homem que trocou a espingarda pela preservação

O baiano Otávio Nolasco de Farias transformou o arrependimento por ter matado um macaco na juventude em compromisso com a natureza. Hoje, é responsável por preservar a arara-azul-de-lear, espécie ameaçada de extinção

Da caça à conservação: o homem que trocou a espingarda pela preservação

“Eu fui numa caçada, ia atirar numa asa branca, e um macaco espantou essa ave. Eu atirei no macaco. O macaco olhou para mim, com um furo no peito do projétil, encheu aquele buraquinho de folhas, como se aquilo fosse salvá-lo. Aos meus pés, as lágrimas lhe desceram aos olhos, ele cruzou os braços e, no estertor da morte, olhou para mim mais uma vez, fechou os olhos e morreu. A partir daquele momento, eu, adolescente, encostei uma espingarda belga que meu avô tinha me dado de presente e nunca mais cacei. E prometi para mim mesmo que, um dia em que eu tivesse condições, teria uma grande área, não só para preservar macacos, mas toda a biodiversidade.”
Fonte: Rádio Câmara, jornalista Adriana Magalhães.
O triste e doloroso depoimento é de Otávio Nolasco de Farias, dono da fazenda Serra Branca, na Bahia. Ele cumpriu sua promessa e hoje é um dos maiores responsáveis pela preservação da rara espécie arara-azul-de-lear. Para impedir a captura por traficantes, a propriedade é cercada e fiscalizada por vigilantes particulares, pagos por ele.
O depoimento é um exemplo de como é tratada a fauna silvestre no Brasil. Mas traficantes não se arrependem como Otávio. Em 2024, até o momento, cerca de 20 mil animais silvestres foram apreendidos, grande parte já mortos devido aos maus-tratos. A crueldade não tem limites. Para evitar a fiscalização, escondem os animais em fundos de malas ou caixotes, sem ventilação, sem água e comida por vários dias. A maior parte morre ou fica tão debilitada que, mesmo após a apreensão, não consegue sobreviver.
Os traficantes também usam de crueldade na hora da venda. Alguns costumam rodar miquinhos pelo rabo para que fiquem tontos ou drogar os animais para que pareçam mansos.
Não há estudos sobre os danos ambientais resultantes da captura de animais silvestres, mas diversas espécies estão ameaçadas de extinção. Destruição de habitats, atropelamento e tráfico estão entre as maiores causas.
Também não há dados sobre o gasto quase inútil de dinheiro público na fiscalização, já que traficantes, caçadores e outros permanecem impunes devido às penas brandas previstas na Lei 9.605/98, a Lei de Crimes Ambientais. Assim, zombam do Ibama e das Polícias Ambientais, perpetuando um ciclo de impunidade e crueldade que ameaça a biodiversidade brasileira.