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Em dez anos, mais de 6 milhões de pássaros foram comercializados ilegalmente

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Em dez anos, mais de 6 milhões de pássaros foram comercializados ilegalmente
Papagaios no projeto Asas / Crédito: Marina Bhering / Amda

Uma coloração diferente ou um canto surpreendente e encantador. Basta uma simples armadilha para uma ave ser retirada cruelmente da natureza e se tornar uma vítima do tráfico ilegal. Em dez anos, quase 6 milhões de pássaros foram comercializados ilegalmente no Brasil, movimentando R$ 7 bilhões.

Estudo do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) apontou que a exploração das aves que tem o dom de cantar é uma das principais causas de perda da biodiversidade no país. Os pesquisadores também constataram que a criação legalizada vem contribuindo com o tráfico de animais silvestres.

As irregularidades atingem parte dos 400 mil criadores autorizados no país. Segundo o Ibama, cada um possui em média 20 pássaros, totalizando aproximadamente 8 milhões de aves em cativeiro. O Ibama autoriza apenas uma anilha por animal e, para aumentar a coleção, os criadores falsificam anilhas com a mesma numeração. Para não levantar suspeitas, trocam esses animais entre si. Isso quer dizer que a mesma numeração pode estar espalhada em mais de um criadouro, com diferentes passarinhos, dando uma aparência de legalidade a um animal capturado de maneira criminosa.

Conforme a legislação ambiental, é crime comercializar, matar, perseguir, caçar, apanhar, utilizar espécimes da fauna silvestre, nativos ou em rota migratória, sem a devida permissão, licença ou autorização de autoridade competente. A pena varia de seis meses a um ano de prisão e multa, que varia de R$ 500 a R$ 5 mil por cada animal. De acordo com o Ibama, aves muito valorizadas no Brasil são vendidas para os Estados Unidos e Europa. A principal rota de entrada é Portugal. Aranhas, insetos e répteis são enviados até pelos Correios.

No Brasil, as aves apreendidas pelo Ibama são levadas para Centros de Triagem de Animais Silvestres. Depois de alguns dias em observação, os animais são direcionados a projetos conservacionistas ou de soltura, como é o caso do projeto Asas (Área de Soltura de Aves Silvestres) da Amda. A iniciativa é fruto de parceria com proprietários de uma fazenda em Brumadinho, Minas Gerais, onde o projeto foi implantado em junho de 2012. A propriedade onde o projeto está inserido tem cerca de 300 hectares e possui áreas de Mata Atlântica, Cerrado e Campos.

No Asas, os animais passam por um período de readaptação, quando reaprendem a voar e a se alimentar de insetos e outros elementos disponíveis na natureza. As aves reinseridos em seu habitat recebem uma anilha para que seja possível identificá-los e monitorá-los após a soltura.

Papagaios-verdadeiros, trinca-ferros, canários-da-terra, saíras e sabiás são algumas espécies que já foram acolhidas pelo projeto. “O trabalho desenvolvido com papagaios-verdadeiros, especificamente, apresenta algumas características de pioneirismo, pois existem poucos projetos de soltura dessa espécie com resultados satisfatórios, em decorrência de a mesma manter um grau de identificação e dependência muito grande com seres humanos, dificultando sua readaptação no meio ambiente natural”, explica João Paulo Vasconcelos, coordenador do projeto.