Zerar emissões pode gerar US$ 2,7 trilhões na América Latina e no Caribe

*Nidhi Kalra

**Edmundo Molina Pérez

A última conferência climática da ONU, a COP28, foi rodeada por polêmicas de todo tipo, e talvez um dos momentos que mais preocupou analistas foi quando o presidente da cúpula, Sultan al Jaber, CEO de uma petrolífera nos Emirados Árabes Unidos, disse que a eliminação dos combustíveis fósseis “levaria o mundo de volta às cavernas”. Apesar da frase controversa, ainda há dúvidas sobre como zerar as emissões de gases de efeito estufa e, ao mesmo tempo, promover o desenvolvimento econômico dos países mais pobres, excluídos da era de crescimento impulsionada pelos combustíveis fósseis.

Mas e se a América Latina e o Caribe — região com a maior desigualdade de renda no mundo — pudessem lucrar para atingir zero emissões líquidas? Nosso novo estudo mostra que a transição energética poderia render até US$ 2,7 trilhões em potenciais benefícios para a região nos próximos 25 anos, mesmo com os custos da descarbonização.

Embora o desenvolvimento a partir dos combustíveis fósseis já tenha sido naturalizado na região, esse modelo não é nem eficaz, nem justo. Esses padrões de crescimento econômico poluem o ar e a água, criam cidades intransitáveis, degradam ecossistemas e paisagens naturais e promovem uma sociedade que apenas atende aos interesses dos mais ricos. Por isso, já é consenso entre especialistas que uma alternativa melhor incluiria cidades habitáveis, ecossistemas preservados, alimentos mais saudáveis para todos e o cumprimento das metas climáticas.

Nosso estudo, resultado de uma colaboração entre a 2050 Pathways Platform, a Rand Corporation, o Tecnológico de Monterrey e o Banco Interamericano de Desenvolvimento, é o primeiro a calcular a diferença entre os países manterem o atual padrão de desenvolvimento econômico na América Latina e no Caribe ou adotarem outro para zerar as emissões líquidas em todos os setores. Consideramos um amplo escopo de ações possíveis: desde o aumento da eficiência energética nas indústrias, passando pela captura de biogás dos resíduos e da agricultura até mudanças no modelo agrícola para se produzir alimentos com baixa emissão de carbono.

Embora haja muitos caminhos possíveis para o desenvolvimento econômico da região, três medidas são essenciais para qualquer cenário de descarbonização: a produção de eletricidade e hidrogênio a partir de fontes renováveis; a eletrificação do transporte; e a recuperação da capacidade de captura e armazenamento de carbono, protegendo as florestas e mudando as práticas agrícolas para apoiar o reflorestamento.

Com uma abordagem focada nessas três áreas, nossa pesquisa descobriu que os benefícios econômicos podem chegar a US$ 4 trilhões — valor que engloba a redução de gastos com energia, o combate à poluição, o ganho de produtividade, a saúde pública e serviços ecossistêmicos, entre outros. Os benefícios ultrapassariam o US$ 1,3 trilhão de investimentos necessários, resultando em um ganho líquido de US$ 2,7 trilhões.

Em nossas projeções, os benefícios econômicos se mostraram sólidos: em cerca de mil cenários de descarbonização analisados, 90% deles resultaram em benefícios positivos, com um saldo médio de US$ 1 trilhão.

A partir dessas constatações, seria lógico questionar por que essas transformações não ocorrem a um ritmo mais acelerado — afinal, os benefícios seriam enormes.

Infelizmente, uma série de barreiras fiscais, regulatórias e de informação travam as mudanças rumo a um desenvolvimento mais ecológico: a lista inclui subsídios aos combustíveis fósseis, vias urbanas que favorecem os veículos particulares em detrimento dos pedestres e das bicicletas e falta de financiamento. Além disso, muitos custos recaem sobre as pessoas e setores que precisam fazer mudanças mais estruturais — como a agropecuária e a indústria. Já muitos benefícios, como a redução dos custos com combustível, o ar limpo e a água potável, são acumulados ao longo do tempo e sentidos de forma mais difusa pela sociedade.

Com base em nossa pesquisa, fica evidente a necessidade de ter discussões mais ambiciosas do que as que ocorreram na COP28. O debate deve se concentrar em acabar com as barreiras burocráticas para a economia de baixo carbono, garantir mais financiamento climático e angariar o apoio amplo de líderes, partes interessadas e cidadãos, mostrando ser possível ter um futuro mais sustentável e próspero.

 
 
*Nidhi Kalra é cientista sênior da Rand Corporation e professora na Pardee RAND Graduate School de Santa Mônica, na Califórnia.
**Edmundo Molina Pérez é professor associado e pesquisador da Escola de Governo e Transformação Pública do Tecnológico de Monterrey, no México.

Fonte: O Eco 

 

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