O Parque do Rio Doce é muito mais valioso que uma estrada

*José Ângelo Paganini

Quanto vale a maior reserva continua de Mata Atlântica do Estado de Minas Gerais, um dos três maiores sistemas de lagos que ocorrem no Brasil, compondo a lista de zonas úmidas de importância internacional – Lista Ramsar e reconhecida como Reserva da Biosfera pela Unesco?

Com certeza, pessoas esclarecidas, com bom senso, espirito público e preocupadas com a sustentabilidade afirmariam que não existe preço que compense a destruição desse patrimônio da humanidade.

Mas, ultimamente estamos observando vários posicionamentos e ações de representantes do poder público e empresarial que colocam em risco a integridade e preservação desse valioso e insubstituível bem público, o Parque do Rio Doce.

Cito a seguir alguns exemplos:

A expansão descontrolada de ocupações urbanas na zona de amortecimento do Parque nas regiões de Revés do Belém, no município de Bom Jesus do Galho, e Cava Grande, em Marliéria, descumprindo o Plano de Manejo do parque e a legislação relativa ao parcelamento de zona rural.

Não renovação do convênio, pela Prefeitura de Marliéria, para construção de aceiros contra incêndios, mantido há anos.

Tentativas de reativar a estrada que corta o Parque na região da Mata do Campolina, cercada por vegetação de Mata Atlântica, com árvores de grande porte, como as gameleiras e os jequitibás, única área de mata primária do parque. O Plano de Manejo do Parque determina seu fechamento, pois ela não é mais necessária para uso público tendo em vista a existência de rodovias asfaltadas contornando o Parque nas regiões Leste e Oeste.

Pretensão súbita da Prefeitura de Marliéria de efetuar limpeza da estrada que atravessa o Parque. Como a prefeitura cancelou o convênio, podemos inferir, com certeza, que a limpeza não visa proteger o mesmo e sim sua reabertura, colocando-o mais vulnerável a impactos negativos.

Afirmações da ex-supervisora regional do Instituto Estadual de Florestas (IEF), Adriana Spagnol, em reunião do Conselho Consultivo do Parque, que a prefeitura de Marliéria pode limpar a estrada e que ela não é ameaça ao Parque quanto a caça e pesca.

Infelizmente o Parque do Rio Doce encontra se ameaçado por isolamento geográfico, caça, atropelamento de animais silvestres, incêndios, invasões e ocupação de sua zona de amortecimento estão entre as maiores ameaças a sua sobrevivência.

A recuperação da Ponte Queimada sem que antes tenham sido implantados os controles de acesso a Unidade de Conservação é inadmissível. Acreditamos que o potencial turístico e de educação ambiental deva ser aproveitado para gerar ocupação e renda para as comunidades do entorno, mas não antes do estabelecimento de controles efetivos do uso da estrada que atravessa a Unidade de Conservação.

Enfim lembramos da correta afirmação da Diretora Geral do IEF em reunião com a Amda que “o único objetivo de consertar a Ponte Queimada é permitir tráfego de veículos do IEF para fiscalização e combate a incêndios”, o que deve ser respeitado pelo mesmo.

 

*José Ângelo Paganini é ambientalista e presidente da Fundação Relictos.

 

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