Com fome, Brasil precisa de enxadas e sementes ao invés de armas nas mãos

 

* Lia Esperança

Enfrentar a escassez de alimentos, trazendo a importância de se plantar o que a gente come é um tema fundamental para uma sociedade se tornar justa, equilibrada e sustentável. Hoje sabemos quanto custa se alimentar de maneira saudável, comprar produtos orgânicos ou ter acesso à nutricionistas. A informação está disponível, mas os recursos não. É caro, muito caro.

Pessoas que querem iniciar hortas coletivas, urbanas, a agricultura comunitária ou familiar enfrentam uma barreira enorme com a burocracia e falta de incentivo público e privado. Quando se tem uma área, não se tem recursos humanos ou insumos e materiais básicos. Quando se tem recursos disponíveis, não se tem um local apropriado.

 

Existem diversas iniciativas que mostram como é possível superar esse dilema, porém são limitadas e não chegam perto de enfrentar a gravidade do tema da fome e da insegurança alimentar.

Tenho um depoimento que ilustra nossa realidade: Um certo dia, trabalhando na horta da comunidade Vila Nova Esperança, um garoto de 12 anos me convidou para almoçar em sua casa, com orgulho e satisfação, me disse que tinha comida para ele, duas irmãs mais novas e para mim. Aceitei o convite.

Com alegria, me contou que cozinhava quando a mãe não estava. O prato do dia foi arroz e alface. Ressalto que tinha pouco alface para dividir em quatro pratos.

Comi agradecida pelo convite, mas com um lamento enorme no coração por sentir que aquela situação era cotidiana para eles e para muitas famílias. Conversamos um pouco sobre a importância de levar os alimentos que plantávamos na horta para casa, de se alimentar bem para ter saúde, e quanto mais eu tocava no assunto, a alegria do garoto diminuía. Enfim, uma lição para a vida. Esse é apenas um depoimento, entre muitos outros.

A horta na comunidade Vila Nova Esperança começou em 2013, um sonho meu, a Maria de Lourdes que virou a Lia Esperança, e que encontrou mais pessoas para sonhar junto e transformar em realidade. São dez anos produzindo alimentos orgânicos. Toneladas de comida distribuída, além de remédios naturais.

Um exemplo entre muitos que poderíamos trazer neste artigo. Uma área "abandonada", uma líder comunitária desacreditada e tida como louca, moradores sem esperança e jovens de classe média querendo fazer alguma coisa de útil para o mundo. Uma situação clássica.

Produzir alimentos em vasos e canteiros ajuda, mas não resolve o tema. Agora, imagina se ao longo das estradas existissem canteiros de comida e remédios, naqueles cinco metros de cada lado, no mesmo lugar onde se tem a placa "proibido construir ao longo das rodovias - DNIT"?

Consigo visualizar hortaliças, árvores frutíferas, arbustos, pessoas plantando e colhendo, quilômetros e quilômetros de comida. Distribuir enxada e pá ao invés de armas, lançar bombas de sementes ao invés de gás lacrimogêneo, levar cartilhas ilustradas de nutrição ao invés de ordem de despejo.

Economicamente, para quem deseja olhar por esse lado, é mais barato para a segurança pública e sistema de saúde produzirmos o próprio alimento em escala, trazendo educação ambiental e segurança alimentar. Se o agro é pop, a fome não. Medidas de prevenção são mais inteligentes que remediar problemas.

É dever dos órgãos públicos desenvolver políticas sociais que melhorem a qualidade de vida da população, assim como implantar projetos e iniciativas populares que melhorem a qualidade de vida é direito dos cidadãos.

Convidamos e convocamos todas as pessoas a olharem para o tema da segurança alimentar com a seriedade que exige: uma barriga com fome. Não precisa ir longe, para outro país, outro continente, basta apenas olhar para o lado e saber o que acontece em nosso bairro, em nossa cidade. Incentivar, divulgar e financiar iniciativas sérias já é um grande passo. A fome não espera, nossa contribuição é para ontem.

 

 

 

 

 *Maria de Lourdes Andrade Silva, conhecida como Lia Esperança, tem 59 anos, vive em Vila Esperança, em 2003 e em 2010 foi eleita presidente da associação, cargo que ocupa até hoje. Lia foi finalista do Prêmio Ecoa 2021 na categoria Causadores.

Fonte: Ecoa Uol

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