A culpa é da chuva ou da insensatez humana?

Na seca ficamos desesperados com os incêndios, escassez de água e danos à agricultura, sonhando com as chuvas. Ela chega e é culpada por deslizamentos de terra, interrupção de rodovias, soterramento de casas, prejuízos e mortes. Poucos, incluindo a imprensa, aliam os impactos ao mau uso do solo, à negligência, cumplicidade e até estímulo de políticos e governantes à ocupação de áreas inapropriadas.

Recentemente o Congresso aprovou e o presidente sancionou lei que delega às prefeituras definir faixa de proteção de margens de cursos d´água em áreas urbanas, legalizando novas tragédias. O atrasado, ganancioso e poderoso setor imobiliário comemorou, junto com seus aliados políticos nos municípios.

Os rios precisam de área livre para transbordar o excesso de água da chuva que não cabe em seu leito. Desmatamento e entupimento por sedimentos oriundos de processos erosivos, reduziu esta capacidade e as enchentes tornaram-se mais fortes.

São chocantes e tristes as cenas anuais de desespero das pessoas, assim como da quantidade de lixo que as enchentes escancaram. E obviamente, na grande maioria dos casos, a ocupação de áreas impróprias é feita pela população mais pobre.  

Solução disto existe e contempla o presente e o futuro. “A lição sabemos de cor”. Mas para isto nossos impostos têm de ser aplicados em prol da justiça social e da proteção do meio ambiente. Mas sabemos o que acontece: os políticos lamentam mortes e danos, aproveitando a tragédia para aparecer; os desabrigados são alojados até em estábulos; a sociedade doa roupas e comida e quando a chuva passa, todo mundo volta, até o próximo ano.

Inacreditável, porém, é que nem a tragédia social, econômica e ambiental em curso faça a sociedade, governantes e políticos reagirem. O congresso avança na flexibilização das leis ambientais, a iniciativa privada e governos federal, estaduais e municipais, com algumas exceções, continuam esbravejando que “meio ambiente atrapalha”, e a sociedade continua elegendo governantes e parlamentares que alimentam esta situação.

Assim, de um lado as chuvas enchem as barragens de geração de energia elétrica e do outro cobram com violência mais juízo dos seres humanos no uso dos recursos naturais.

 

*Maria Dalce Ricas é superintendente executiva da Amda.

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