Pandemia plástica

*Por Maria Dalce Ricas

Paira no ar uma interpretação de que a pandemia trouxe melhorias ambientais ao país. Trata-se de uma “meia verdade”. No ambiente urbano, a diminuição do fluxo de veículos melhorou a qualidade do ar e da vida devido à redução de emissões atmosféricas. A diminuição da queima de combustíveis fósseis pode ter refletido na diminuição da extração de petróleo e gerado redução dos impactos no ciclo de vida dos seus produtos derivados.

Digo “pode”, porque o aumento do consumo e descarte de plásticos e material descartável foi gigantesco na pandemia. Nos hospitais são montanhas de luvas, seringas, tecidos, isopores, embalagens e frascos de remédios. Fui outro dia à padaria do supermercado Verdemar e me deparei com exigência de luva plástica para pegar os pães. Indignada, perguntei o motivo e me disseram que é ordem da saúde pública municipal. Não me espantei porque já sabia que embalar palito e guardanapo em plástico em bares e restaurantes é invenção macabra de alguém lá dentro. Imaginem quantas padarias e supermercados existem em BH!?

Perguntei por que não colocavam um funcionário para garantir que todos higienizassem as mãos antes de pegar o tradicional e metálico catador de pão. A resposta foi que não havia funcionário disponível pra isso. Revoltada, mas resignada, peguei os pães usando sacola de papel e quando comprei novamente levei um saco plástico da minha casa e o trouxe de volta. E provavelmente quase ninguém se surpreendeu com o fato.

A Amazônia e o Pantanal estão sendo dizimados, quase sob aplausos do presidente da República e seu sinistro ministro do Meio Ambiente. Dizem que a Covid é vingança da natureza contra a espécie humana. A longo prazo até pode ser, porque a degradação foi acelerada e a distância do momento em que o planeta poderá tornar-se inabitável para nós diminui a cada dia. Mas, até agora, é a natureza que mais sofre. No Brasil ainda mais, já que a pandemia é aliada de Ricardo Salles.

 

Oceânico plástico

Até 2040, o volume de plásticos no mercado mundial irá dobrar. O volume anual de plásticos que chega aos oceanos quase triplicará (de 11 milhões de toneladas em 2016 para 29 milhões de toneladas em 2040). E a quantidade de plástico nos oceanos quadruplicará (atingindo mais de 600 milhões de toneladas), caso não sejam tomadas medidas urgentes.

Esse é o alerta dado pelo estudo “Breaking the Plastic Wave” (Quebrando a Onda Plástica), um dos mais completos já publicados sobre plásticos nos oceanos, divulgado recentemente pela Pew Charitable Trusts e a Systemiq – juntamente com a Fundação Ellen MacArthur, Universidade de Oxford, Universidade de Leeds e Common Seas.

Em comparação ao cenário atual, a abordagem mais ampla da economia circular descrita no estudo tem o potencial para gerar economia anual de US$ 200 bilhões, reduzindo em 25% as emissões de gases de efeito estufa e criando 700 mil empregos adicionais até 2040.

“Este alerta traz um nível de detalhes sem precedentes sobre o sistema global de plásticos e confirma que, sem que haja uma mudança fundamental, até 2050 os oceanos podem conter mais plásticos do que peixes”, afirma Ellen MacArthur, fundadora da Fundação Ellen MacArthur.

Na visão dela, para combater o desperdício e a poluição por plástico, é necessário intensificar esforços e acelerar a transição para uma economia circular. “Precisamos eliminar os plásticos dos quais não precisamos e reduzir significativamente o uso de plástico virgem. Temos de inovar para criar novos materiais e modelos de reúso. E precisamos de melhor infraestrutura para garantir que todos os plásticos que nós usamos circulem na economia e nunca se tornem resíduo ou poluição. A questão não é se uma economia circular para o plástico é possível. Mas, sim, o que faremos juntos para que se torne realidade”, diz Ellen.

 

Maria Dalce Ricas é superintendente-executiva da Associação Mineira de Defesa do Ambiente

Fonte: Revista Ecológico

 

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