De volta às florestas

Anta Valente reintroduzida na Reserva Ecológica de Guapiaçu, pai do primeiro filhote nascido em natureza no Rio de Janeiro. Fotos: Pedro Varela, Joana Macedo e LEMAS/IFRJ.

*Maron Galliez

**Joana Macedo

Após 24 horas de viagem, finalmente o caminhão chega ao seu destino final. Viajando em uma caixa padronizada esse tempo todo, a ansiedade ainda não havia terminado. Mais meia hora para definir como retirar uma caixa de quase meia tonelada do caminhão e colocar no chão. Resolvida essa questão, agora sim, Floquinho tem a chance de sair e colocar seus cascos no chão de uma floresta. Ainda ressabiado, ele não sabe ao certo o que fazer: que lugar é esse? que umidade é essa?, que vegetação toda é essa?

Floquinho nasceu em um criador científico de animais silvestres em Minas Gerais. Assim como ele, existem quase 150 animais de sua espécie em cativeiro espalhados pelo Brasil todo. Mas Floquinho não estava mais em cativeiro. Tinha saído no dia anterior e passado a noite viajando. Agora, após alguns minutos de incerteza, Floquinho tomava coragem. Primeiro esticou o longo focinho, depois, o pescoço, colocou o primeiro casco no chão, depois os outros e finalmente saiu da caixa de transporte! No seu entorno, a emoção era grande. Floquinho foi a primeira anta (Tapirus terrestris) a voltar às florestas do Rio de Janeiro nos últimos 100 anos. O registro da última população de anta ocorreu no Parque Nacional da Serra dos Órgãos em 1914. Floquinho, de apenas um ano de idade, não veio sozinho. Veio junto com sua mãe (Eva) e outro macho (Adão). Esse era o ano de 2017. Desde então, mais sete antas foram reintroduzidas na Reserva Ecológica de Guapiaçu. O Projeto Refauna, em parceria com diversas instituições, tornou possível a nova vida do Floquinho e das antas que hoje vivem nas matas do estado do Rio de Janeiro.

A chegada de Floquinho e seus companheiros foi precedida de quase cinco anos de planejamento. Mas por que tanta logística, trabalho e recursos para trazer de volta as antas ao Rio de Janeiro?

Antas são a maior espécie de mamífero terrestre da América do Sul; as fêmeas podem chegar a pesar 300 kg e medir 2,0 m de comprimento. São conhecidas por comerem diferentes partes das plantas, desde folhas, frutos, ramos e até as cascas das árvores. Essa dieta herbívora generalista e em grande quantidade garante às antas o título de “jardineiras da floresta”. Quando se alimentam dos frutos de uma árvore, tendem a engolir as sementes, que ao saírem nas fezes são favorecidas para germinarem. Devido ao seu grande porte, se movimentam por grandes áreas, levando sementes do interior da floresta para as bordas da mata e para campos abertos. Além disso, as antas podem ajudar a espalhar sementes grandes, que outros dispersores, como pássaros e morcegos, não são capazes. Por todas essas ações, as antas favorecem a regeneração das florestas.

Projetos de reintrodução têm como objetivo estabelecer uma população viável de determinada espécie em um local dentro de sua área de distribuição original, de onde tenha desaparecido anteriormente. Ou seja, reintroduzir é uma maneira de reverter a extinção local, soltando os animais e fazendo o possível para assegurar sua sobrevivência e reprodução no ambiente natural. Mas reintroduções tendem a ter baixa taxa de sucesso. Para minimizar essa possibilidade, Floquinho e as outras antas, ao chegarem às florestas do Rio de Janeiro, ficaram em um cercado de aclimatação construído na Reserva Ecológica de Guapiaçu. O cercado mede 0,88 hectares, quase o tamanho de um campo de futebol, e está no interior da mata. Nele, as antas podem se acostumar ao novo clima e podem ter os primeiros contatos com a vegetação nativa, mesmo ainda recebendo frutas, legumes e verduras como suplementação alimentar. Após o tempo de aclimatação, que variou de um a três meses, a porta do cercado foi aberta e as antas ganharam liberdade, passando a explorar o novo ambiente. A suplementação foi mantida para garantir alimentação alternativa às antas que, porventura, sentissem dificuldades em encontrar alimento sozinhas.

Monitorar as antas após a soltura é importante para acompanhar a aclimatação à vida na natureza. Para garantir o monitoramento das antas, cada animal recebe um microchip inserido debaixo da pele, um brinco em cada orelha e um colar capaz de emitir sinal de rádio e captar sinal de GPS, enviando a localização do animal via satélite. Armadilhas fotográficas também estão distribuídas ao redor da área para captar imagens dos animais. O monitoramento pós-soltura permite o acompanhamento da sobrevivência das antas, onde elas estão estabelecendo suas áreas de vida, eventos de reprodução e se as antas estão desempenhando suas funções ecológicas. A partir do monitoramento, é possível avaliar se o projeto de reintrodução está caminhando para o sucesso ou se precisa de ajustes.

Também é a partir desse monitoramento que obtemos os momentos mais recompensadores. Ao longo desses dois anos, observamos o estabelecimento das antas no entorno dos pontos de soltura, as antas ampliarem sua dieta, apresentarem atividade reprodutiva e mudarem o comportamento, ficando mais ariscas com o tempo. Entretanto, também tivemos alguns óbitos. Três antas faleceram por motivos distintos, mas nenhuma foi por caça ou outra interação com seres humanos. Os moradores do entorno da Reserva Ecológica de Guapiaçu se tornaram grandes parceiros na reintrodução das antas. O planejamento da reintrodução incluiu um trabalho contínuo junto aos moradores para conscientização sobre a importância da reintrodução, assim como de suas fases e futura convivência.

O ano de 2020 começou com uma excelente notícia, Floquinho ganhou uma irmã (ou irmão). Em março desse ano, foi registrado o primeiro filhote de anta nascido em natureza no Rio de Janeiro. A mãe Eva deve ter tido o filhote no final de dezembro, início de janeiro.

Ainda não podemos afirmar que temos uma população viável de antas no estado do Rio de Janeiro, mas os primeiros passos foram dados.

 

*Maron Galliez é professor do Instituto Federal do Rio de Janeiro e coordenador de reintrodução de antas do Projeto Refauna.
**Joana Macedo é pós-doutoranda da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Faculdade de Formação de Professores, e responsável pela comunicação do Projeto Refauna.

Fonte: O Eco

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