Ambientalistas não podem ser negacionistas

* Reuber Brandão

É lamentável ver o crescimento de movimentos negacionistas e o apreço às pseudociências no mundo atual. Não resta dúvida de que análises criteriosas são essenciais ao crescimento de qualquer forma de conhecimento, mas os negacionistas confundem, por superficialismo ou por descaramento, critério com crítica e novos fatos com negação. Tal postura informa mais sobre os negacionistas do que sobre o objeto da negação. A verdade é que os negacionistas, que proferem absurdos enquanto ensebam o babador, pouco entendem do método científico e de ciência. Via de regra, as razões que os levam a negar a ciência reside no engano de que, se os fatos científicos não correspondem às suas expectativas, percepções, interesses, crenças ou sentimentos pessoais, então a ciência não tem razão. Resumindo, as pessoas negam a ciência porque consideram suas opiniões mais importantes que os fatos.

Desta forma, afirmo que não existe nada mais arrogante que o negacionismo científico e que não há nada mais presunçoso que as pseudociências. Digo isso porque qualquer um que simplesmente nega fatos científicos, gerados pelo trabalho duro de diversos pesquisadores ao longo de décadas de pesquisa em instituições renomadas, com base apenas em posições pessoais, são movidas por uma profunda, arraigada e persistente arrogância. Não é à toa que existam tantas pessoas iluminadas dispostas a explicarem o resultado da pesquisa para o próprio pesquisador…

Com base nessa arrogância, passam a criar delírios autocongrulatórios que, infelizmente, acabam por arregimentar tropas de desinformados, ampliando o já imenso exército de Brancaleone das pseudociências ou do negacionismo raso. O negacionismo científico e as pseudociências são duas síndromes semelhantes, com imensas zonas de sobreposição e amplamente sinergéticas. São tão ligadas como a droga e a alucinação.

Não é por acaso que as pseudociências são extremamente atraentes para os arrogantes agudos e para os iludidos crônicos. O primeiro grupo, geralmente chamados de gurus, mentores, mitos, arautos ou mestres, são traficantes de ignorância. O segundo grupo abarca os ávidos consumidores de drogas cognitivas. Os alucinados, um terceiro grupo com características próprias, vivem transtornados pelo uso abusivo da ignorância. A ignorância é uma droga poderosa, capaz de transportar os usuários para longe da realidade. Aparentemente, os usuários experimentam a sensação de uma falsa epifania quando absorvem a droga compartilhada pelo traficante, criando uma relação de forte dependência psicológica entre o dependente e o traficante. No entanto, fica o alerta: ignorância causa overdose. Ignorância mata. Os viciados em ignorância, fissurados, irão destruir a sua vida (e até mesmo a Vida) para continuarem em sua ilusão. Com o tempo, não conseguem mais viver sem drogas, incapazes de pensar com clareza e sensatez.

Os arrogantes agudos precisam das pseudociências para apoiarem sua propalada superioridade intelectual e/ou iluminação (incluindo aí a manjada iluminação mística e o suposto entendimento superior), enquanto os iludidos crônicos precisam desesperadamente de um iluminado a ser seguido, para dar conforto às suas incertezas.

Tal como o incrível exército de Brancaleone, essa massa ignota agrupa desajustados de todas as origens e tendências. A variedade de pseudociências disponíveis no mercado de bizarrices é capaz de atender aos delírios dos ignorantes e aos interesses dos espertalhões ávidos por poder. Existem pseudociências caras tanto aos extremistas de direita (“criacionismo”, “design inteligente”, “terraplanismo”, “negacionismo climático”) tanto à rabeta dos esquerdistas (comuns a certas vertentes do socioambientalismo), enquanto diversos outros, como astrologia, homeopatia, florais e o pró-epidemismo (nomenclatura mais precisa que “movimento antivacinas”, que comunica um glamour inexistente aos amigos das doenças), circulam livremente nos diferentes espectros da sociedade.

Eu, particularmente, não tenho problemas com pessoas que usam alguma pseudociência nos seus momentos de lazer e de interação social. Adultos são livres para escolherem usar ou não usar drogas. O abuso de ignorância pelos iludidos, em minha opinião, ocorre por má-influências ou preenchem algum vazio existencial. Por isso, devemos acolher as pessoas e ter empatia e paciência na sua reabilitação e sua reinserção à realidade.

Apenas o conhecimento liberta e precisamos investir em divulgação científica para afastar as pessoas das armadilhas da ignorância. Reconheço que cientistas falham na divulgação do seu trabalho e nem sempre a mídia comum possui o preparo necessário para uma divulgação inequívoca e precisa. As pessoas precisam entender que ciência é um método usado para descrever a realidade. Que não faz sentido negar as descobertas da ciência porque essas descobertas são constantemente testadas por diversos pesquisadores em todo o mundo e são constantemente confrontadas com novas descobertas e informações. Que Teorias Científicas não são teorias coloquiais, sendo, na verdade, um conjunto consistente de fatos científicos que apoiam o entendimento do funcionamento da vida e do universo. Que podem existir pessoas arrogantes que fazem ciência, mas que o Método Científico é extremamente aberto ao contraditório e que a mudança de paradigmas é comum quando novos fatos trazem mais entendimento sobre a realidade e os fatos do universo. Aliás, essa é uma das características mais excitantes da Ciência. A ciência sempre pode dizer “não sei, mas estou tentando descobrir”. A pseudociência nunca pode dizer que não sabe. A pseudociência e os seus arautos não podem se dar ao luxo de demonstrarem ignorância.

É claro que existem diversos exemplos de mal-uso das ciências. No entanto, essas distorções são estratégias frequentemente usadas por vaidosos agudos, talvez o tipo de pessoa mais negativa que existe, em suas buscas pessoais por status, riqueza, sexo ou poder. Na verdade, esse mal-uso da ciência é um fenômeno histórico, pois a mentira precisa se vestir com as roupas da verdade para poder circular livremente entre os desatentos. A presunção sempre buscará se vestir com fantasias douradas de sabedoria. Por outro lado, um entendimento científico da realidade sempre flertará com o encantamento, com o deslumbramento, com a humildade diante do universo, com o afeto pelos estudos e pelo aprendizado. Os fatos sempre irão ofender os que não suportam a ausência de indumentárias artificiais. Por isso, todo movimento pseudocientífico busca criar um “ar de ciência”, uma roupagem de ciência, aos seus absurdos. No afã da pseudociência, criam argumentos tortuosos, muitas vezes pura conspiração delirante, como engodo falacioso para distrair os desavisados.

Os arautos da ignorância, em diversos momentos, excitados pela sua arrogância e presunção, buscaram substituir fatos comprovados por delírios potencialmente ou comprovadamente danosos à vida das pessoas e ao resto da vida no Planeta. Existe uso político das pseudociências para confirmar interesses específicos. Uma realidade construída em falácias tende a ser perniciosa a toda sociedade.

Quando falamos de conservação da natureza, essa postura é ainda mais danosa. Via de regra, o uso do negacionismo científico atende a interesses que visam garantir a manutenção de modelos de desenvolvimento que afetam profundamente a resiliência dos ecossistemas. E o pior, muitos desavisados caem nessa. Não podemos esquecer que foi a ciência que revelou a importância das interações ecológicas para a manutenção dos ecossistemas e para a oferta de serviços ecossistêmicos, que criou modelos para descrever a relação entre espécies, áreas e isolamento, desvendou diversos processo da evolução biológica, atestam a necessidade das áreas protegidas, dos ciclos biogeoquímicos, da paisagem e de diversas outras descobertas basilares na conservação da biodiversidade. Se você se diz preocupado com a biodiversidade, mas nega a ciência em alguma escala, lamento informar, você é apenas um poser iludido potencialmente presunçoso. Você é parte do problema, não da solução.

 

* Reuber Brandão é professor de Manejo de Fauna e de Áreas Silvestres na Universidade de Brasília e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza.

Fonte: O Eco

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