O asfalto da velha república

* Aldem Bourscheit

No Brasil, o rame-rame sobre alguns temas não se esgota. Porque simplesmente não são debatidos a contento ou porque seguem rendendo dividendos políticos. É o caso da abertura de uma rodovia asfaltada cortando o Parque Nacional do Iguaçu. Ela sempre serviu como carta na manga para angariar votos de quatro em quatro anos no oeste do Paraná. Agora, o disparate ganha força nos primeiros momentos de um governo onde o ideário ruralista ocupou ainda mais espaços, mesmo no Ministério do Meio Ambiente.

No último embate político envolvendo a proposta, antecedendo as eleições de 2014, órgãos ambientais, academia e organizações não governamentais mostraram que plantar asfalto naquela reserva de Mata Atlântica causaria estragos na conservação da natureza, prejudicaria a economia e não engrossaria o orçamento dos municípios no entorno do parque nacional.

Naquele ano, quando recebia menos turistas que os quase 2 milhões registrados no ano passado, Iguaçu já movimentava a economia regional com R$ 88 milhões anuais. Além disso, garantia o repasse a municípios vizinhos de R$ 10 milhões ao ano em ICMS Ecológico. No último Janeiro, o município de Capanema recebeu sinal verde do Governo Federal para aproveitar as oportunidades econômicas do turismo no Iguaçu.

Não só esses benefícios correm risco com a abertura da rodovia, mas também o próprio reconhecimento do parque como patrimônio mundial, alertaram as Nações Unidas. A estrada já foi vetada pela Justiça Federal e nunca foi prevista nas regras de uso da área protegida.

Com menos de 1% dos votos válidos para a Presidência da República nas eleições de 2018, o senador Álvaro Dias (Podemos/PR) apresentou projeto no início do ano legislativo pedindo a abertura da rodovia no Parque do Iguaçu. O deputado federal Vermelho (PSD/PR) faz coro e promete um projeto de lei para melhorar uma proposta de 2013, do ex-deputado federal Assis do Couto (PDT/PR).

Tais parlamentares mantêm argumentos comuns pela abertura da rodovia, como encurtar o trajeto de carro entre os dois lados do parque nacional, aproximar a população das áreas verdes e até estimular a preservação dos animais e vegetação nativos. Também em comum, ainda não apresentaram ideias para o desenvolvimento econômico regional descoladas de prejudicar a área mais sensível do Iguaçu.

Suas propostas estão baseadas na implantação de uma estrada-parque, figura cinzenta e desconhecida pela legislação federal que levaria veículos para dentro de áreas preservadas, podendo aumentar atropelamentos de animais, descarte de lixo, queimadas, caça e outros problemas que parques nacionais não precisam acumular.

Governando um estado que eliminou quase todo o verde que um dia teve, Ratinho Júnior (PSD) acha difícil a implantação da rodovia no Parque Nacional do Iguaçu. Por outro lado, em evento rural realizado em Cascavel (PR), afirmou gostar da “ideia da estrada-parque, apenas para veículos leves. É difícil, mas sou parceiro, se a região quiser, para tentar uma saída”.

Estradas-parque já existentes no país são apenas um neologismo para vias cercadas ou não de verde, fora de reservas ambientais. A circulação de veículos em parques nacionais atende ao turismo, manutenção e vigilância. O trânsito regular de veículos nesses espaços nunca é bem vindo, mesmo que nossas malhas rodoviária e ferroviária sigam cortando inúmeras áreas protegidas federais, estaduais e municipais.

A situação sempre pode piorar, claro. O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, quer um libera geral de ferrovias e linhas de transmissão de energia em parques nacionais e outras unidades de conservação da natureza. Ao mesmo tempo, o Governo Federal planeja enviar ao Congresso um projeto para a criação de uma super agência de infraestrutura de transportes. Com licenciamento na berlinda, será um deus nos acuda. Quem sabe retornamos à década de 1920, quando o presidente Washington Luís afirmou que "governar é abrir estradas”.

Durante sua candidatura à presidência, Álvardo Dias se aproximou de entidades ambientalistas tentando esverdear seu programa de governo. Sua postura na área, todavia, é controversa. Afinal, ele integra um grupo de quase 200 candidatos cujas campanhas do ano passado foram agraciadas com R$ 11,2 milhões de criminosos ambientais. O candidato recebeu R$ 50 mil de Gilson Mueller Berneck, fazendeiro multado pelo Ibama por destruir florestas em Juara, no Mato Grosso. Já em 2014, quando o senador vestia a camiseta do PSDB, foi flagrado construindo uma casa em área protegida no Balneário Camboriú (SC).

Em seu projeto pela rodovia no Iguaçu, Dias afirma buscar um "meio termo entre dois extremos, conciliando interesses para o bem comum". Todavia, logo adiante pinta cores de guerra avisando que "os municípios não aceitarão que se negue e se continue a negar a importância da estrada para aqueles que lá vivem". Nesse balanço pelo bem comum, do qual um parque nacional é dos exemplos mais concretos, a conservação da natureza quase sempre se torna a ponta mais fraca da corda.

 

* Aldem Bourscheit é jornalista

Fonte: O Eco

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