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Opinião

Um é pouco, dois é bom, três é demais (de lindo)

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* Yara de Melo Barros

O nascimento de uma onça-pintada é um acontecimento a ser celebrado, especialmente quando isso acontece na Mata Atlântica, bioma onde a espécie está criticamente ameaçada e estima-se que restem menos de 300 animais.

O Projeto Onças do Iguaçu é um projeto institucional do Parque Nacional do Iguaçu/ICMBio, que tem como missão a conservação da onça-pintada como espécie chave para a conservação da biodiversidade.

Há duas semanas avistamos uma onça-pintada fêmea, a Atiaia, com um filhote, o que já foi motivo de comemoração. Com surpresa e encantamento alguns dias depois ela foi observada com três filhotes. Pela manhã, colaboradores nos enviaram um vídeo da Atiaia atravessando a pista em direção à mata seguida por dois filhotes, e havia o relato de um terceiro que não atravessou e voltou para a mata. Nossa equipe passou o dia no local, com objetivo de garantir a segurança dos animais e visitantes e no fim da tarde a Atiaia voltou e “resgatou” o filhotinho que estava faltando.

Os esforços para a conservação da onça-pintada no Parque Nacional do Iguaçu tiveram início em 1990, com o Peter Crawshaw, e desde então esta é a primeira vez que é registrado o nascimento de três filhotes neste parque. Os filhotinhos têm cerca de dois meses de idade.

A Atiaia já tem outro filhote conhecido, que agora tem mais de dois anos de idade e já é independente, o Caiuá (“aquele que mora no mato”).

Para Peter Crawshaw, o nascimento de três filhotes indica que a situação do ambiente é adequada, principalmente em relação à quantidade de presas disponíveis, pois o número de filhotes seria um indicativo do estado de nutrição e saúde geral da mãe. Embora isso seja um indicativo, é apenas o primeiro caso, e se a tendência se repetir nos próximos anos saberemos que estamos no caminho certo com relação à manutenção da integridade e adequabilidade do ambiente para onças pintadas na região do Iguaçu.

Tivemos alguns questionamentos sobre se seria seguro divulgar o nascimento dos filhotes. Considerando que vários visitantes e colaboradores do Parque Nacional viram o animal, fotografaram e a notícia se espalhou rapidamente, a divulgação através de uma fonte oficial evita o surgimento de “fake news” e especulações que podem ser bem ruins para o trabalho de proteção e conservação.

Como os filhotes têm sido vistos atravessando a pista com a mãe com certa frequência, era urgente iniciar uma campanha interna com todos os motoristas para que reduzissem a velocidade e redobrassem a atenção, para evitar que os filhotes fossem atropelados, e também uma campanha para que os visitantes não tentassem se aproximar dos animais.

Os filhotes serão monitorados através de armadilhas fotográficas e quando estiverem na idade adequada, o plano é fazer este monitoramento através de colares com GPS.

Empatia

Acreditamos que a informação protege. A conservação das onças-pintadas passa necessariamente por uma mudança da percepção que as pessoas têm destes animais. Para que a coexistência entre onças e seres humanos seja possível, é preciso aumentar a tolerância das pessoas a elas. E acreditamos que isso se faz, entre outras coisas, gerando conexão, empatia e amor. O projeto Onças do Iguaçu, em parceria com a WWF acabou de lançar o “Onças do Iguaçu: Guia de Convivência”, que será distribuído durante ações de engajamento e capacitação com a população lindeira ao Parque Nacional.

Através da divulgação do nascimento das oncinhas, esperamos criar uma atitude geral de cuidado e de responsabilidade compartilhada pela segurança destes animais. Porque ela nasceu em um mundo que é cruel com grandes felinos. Que atira primeiro e pergunta depois. Um mundo que precisa mudar de atitude para não silenciar para sempre os esturros das onças-pintadas.

George Schaller coloca de maneira muito apropriada que “Você pode fazer a melhor ciência do mundo, mas sem emoção envolvida, não é realmente muito relevante. A conservação é baseada na emoção. Vem do coração, e nunca se deve esquecer disso.”

E se filhotinhos de onça-pintada, “pedacinhos peludos de esperança”, não puderem despertar amor e conexão, estamos vivendo em um mundo muito triste.

Também fomos questionados sobre a segurança dos filhotes com relação à estrada, e algumas pessoas sugeriram fechar o Parque Nacional.

Nossa ideia é trabalhar a coexistência. Acreditamos que é possível a convivência de gente e onças, inclusive dentro de uma Unidade de Conservação que permite visitação. Com uma estimativa de atropelamentos anuais de vertebrados em estradas brasileiras em mais de 475 milhões por ano, precisamos muito mudar atitudes, e ter três oncinhas atravessando uma estrada dentro de um Parque Nacional chama bastante atenção para isso. O Parque Nacional tomou várias medidas para a segurança dos animais, como redução da velocidade permitida para 40 km/h, instalação de placas informando sobre filhotes de onças circulando na pista, posicionamento de cones que reduzem ainda mais a velocidade nos locais onde os animais são avistados com mais frequência e distribuição de folhetos explicativos para todos os motoristas que entram no Parque. Além disso, os veículos que circulam no Parque Nacional recebem um GPS que monitora sua velocidade. Associando informação e ações práticas de proteção, esperamos reduzir o risco para as oncinhas.

A estimativa, feita em um censo em 2016, é que existam em torno de 20 a 22 onças-pintadas no Parque Nacional do Iguaçu. Este ano, a partir de setembro, vamos repetir o censo, em conjunto com o Proyecto Yaguaraté, que trabalha com a conservação das onças-pintadas na Argentina. O censo é feito simultaneamente nos dois países.

É uma belezinha que o censo já comece com a chegada de três oncinhas, sendo muito provável que mais nascimentos devam ter ocorrido nos 185 mil hectares do Parque Nacional do Iguaçu.

Dedos cruzados e mangas arregaçadas. Temos muito trabalho pela frente para dar a estes filhotes e à espécie uma chance de sobrevivência na Mata Atlântica.

* Yara de Melo Barros é Coordenadora-executiva do Projeto Onças do Iguaçu e membro do Grupo de Especialista em Planejamento para a Conservação da IUCN (CPSG Brasil).

Fonte: O Eco