Amazônia tem nova espécie de primata

Crédito: Marcelo Santana

Exclusivo do bioma amazônico, o uakari-dos-Kanamaris está ameaçado pelo desmatamento e pelas mudanças climáticas.

Uma análise das características genéticas de primatas amazônicos do gênero Cacajao, popularmente conhecidos como uakaris, resultou na descoberta de uma nova espécie: o uakari-dos-Kanamaris (Cacajao Amuna). O nome é uma homenagem ao povo indígena homônimo, presente na região do rio Tarauacá, onde o animal foi encontrado.

A espécie foi descrita em artigo publicado na revista Molecular Phylogenetics and Evolution. Estudados pela primeira vez pelo primatólogo brasileiro José Márcio Ayres, entre os anos 1970 e 80, os uakaris são conhecidos pela pelagem branca e o rosto avermelhado. Exclusivos da Amazônia, eles não ocorrem em nenhum outro lugar do mundo.

A principal diferença da nova espécie está na ausência da pelagem laranja no peitoral, comum entre seus congêneres. Ao contrário dos demais, o uakari-dos-Kanamaris é totalmente branco. O principal autor do estudo, Felipe Ennes Silva, do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, conta que a análise de DNA foi decisiva na distinção dos uakaris.

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Espécies do gênero Cacajao. Uakari-dos-Kanamaris é representado pela letra A. 

"Há outra espécie de uakari, denominada Cacajao calvus, que ocorre na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, e que também tem pelagem clara, mas esta possui regiões do corpo com a pelagem amarelada e alaranjada, como a região do tórax e a parte interna dos membros”, explicou o pesquisador.

Segundo ele, a diferenciação entre Cacajao calvus e Amuna só foi possível com a revisão do material de coleções científicas no Brasil e no exterior, que possibilitou uma análise mais detalhada das espécies.

Recém-descoberto e já ameaçado

O uakari-dos-Kanamaris vive nas proximidades do rio Tarauacá, que banha os estados do Acre e Amazonas. Ele está a 700 quilômetros distante das outras espécies do gênero. Segundo Felipe Ennes Silva, o local onde a nova espécie vive sofre com taxas de desmatamento crescentes, o que pode atrapalhar sua sobrevivência.

Segundo o pesquisador, esses animais são diretamente afetados pela ação humana, pois não há adaptação ao desmatamento, já que são essencialmente arbóreos. Eles também são impactados pelas mudanças climáticas devido à sensibilidade a alterações de temperatura.

Lar de espécies únicas e ameaçadas

O Brasil é detentor da maior diversidade de primatas do planeta. Grande parte está na Amazônia, que conta com 20% da biodiversidade mundial de primatas, com mais 145 táxons catalogados. Número que, provavelmente, é bem maior, uma vez que as pesquisas na área ainda são incipientes no país.

Estima-se que 40% dos primatas brasileiros estejam em perigo de extinção. Três deles estão entre os 25 mais ameaçados do mundo: sagui-da-serra-escuro (Callithrix aurita), sauim-de-coleira (Saguinus bicolor) e bugio-marrom (Alouatta guariba).

Até espécies recém-descobertas correm risco de desaparecer, como é o caso do sagui-de-schneider (Mico schneideri). O primata foi descrito no ano passado, após cerca de 20 anos sendo confundido com outro sagui. Ele habita a região mais desmatada da Amazônia, entre o norte do Mato Grosso e sul do Pará, conhecida como o arco do desmatamento. 

 

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