Amazônia está à beira de um colapso, afirmam cientistas

Avanço da degradação pode comprometer o papel da floresta na regulagem do clima. Hoje, a Amazônia já emite mais gases do que é capaz de absorver.

A Amazônia é a maior floresta tropical do planeta e possui a maior biodiversidade do mundo. A região também é criticamente ameaçada pelo avanço do desmatamento e das queimadas. Para alertar sobre os maiores riscos à floresta, o Painel Científico para a Amazônia (SPA) lançou, durante a 26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP26), o Relatório de Avaliação da Amazônia.

Mais de 200 cientistas se uniram na elaboração do documento, considerado o mais completo do gênero. O relatório aponta que 17% da cobertura vegetal da floresta foi convertida para outros usos da terra, como pastagens e plantações, e outros 17% já foram degradados. Em relação às unidades de conservação e terras indígenas, quase 70% estão sob ameaça de mineração, construção de estradas, hidrelétricas e outras atividades humanas.

Os pesquisadores afirmam que 60% da floresta pode estar perto de chegar ao ponto de inflexão, ou seja, o momento a partir do qual a degradação será irreversível. Se isso ocorrer, a Amazônia como conhecemos deixará de existir. Ela se transformará em uma grande savana, com solo seco e escassa cobertura vegetal, gerando consequências catastróficas para o clima e o regime de chuvas da América Latina.

Para impedir que isso aconteça, os cientistas recomendam a moratória imediata do desmatamento nas áreas mais críticas da Amazônia, além de zerar o desmatamento em todo o bioma antes de 2030, conforme prevê a Declaração sobre Florestas e Uso do Solo, assinada por mais de 100 países durante a COP26.

“Salvar as florestas remanescentes do desmatamento e degradação contínuos e restaurar os ecossistemas aquáticos e terrestres é uma das tarefas mais urgentes de nosso tempo para preservar a Amazônia e suas populações, assim como para enfrentar os riscos e impactos globais das mudanças climáticas”, destaca Mercedes Bustamante, pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB) e membro do SPA.

Sumidouro de carbono

A Amazônia possui função crucial no equilíbrio climático: é um dos maiores sumidouros de carbono do mundo. Estima-se que a floresta armazene entre 150 a 200 bilhões de toneladas de gás carbônico em sua vegetação e solo. Esse volume equivale a uma década de emissões globais do setor energético, e corresponde a 16% do carbono armazenado na vegetação do mundo todo.

Mas, o avanço da degradação pode comprometer o papel da floresta na regulagem do clima, pois além de impedir o armazenamento de carbono, a queima das árvores e a decomposição de matéria orgânica decorrente do desmatamento emitem ainda mais poluentes. Um estudo anterior mostrou que hoje a Amazônia já emite para a atmosfera 290 milhões de toneladas de carbono por ano além do que retém.

Povos indígenas são aliados na conservação

Os cientistas sustentam que, para garantir o futuro da Amazônia, a ciência, os governos locais e os conhecimentos dos povos tradicionais precisam andar juntos. Os povos indígenas possuem conhecimentos importantes sobre a floresta e sabem como ninguém preservá-la. Dessa forma, é possível construir um desenvolvimento sustentável e uma bioeconomia na região.

Terras indígenas (Tis) e unidades de conservação (Ucs) cobrem cerca de 50% da bacia Amazônia e são essenciais para a conservação terrestre e de ecossistemas de água doce. Entre 2000 e 2018, apenas 13% da área total desmatada na floresta ocorreu dentro dos territórios protegidos. “Estima-se que 51% das UCs e 48% das Tis enfrentam pressão do desmatamento ilegal, extração de madeira, mineração e grilagem de terras, o que agrava as ameaças à Amazônia e seus povos”, indicou o relatório.

“O atual modelo de desenvolvimento está alimentando o desmatamento e a perda de biodiversidade, levando a mudanças devastadoras e irreversíveis. Para que a Amazônia sobreviva, devemos mostrar como ela pode ser transformada para gerar benefícios econômicos e ambientais, através de colaborações entre cientistas, detentores do conhecimento indígena e seus líderes, comunidades locais, setor privado e governos”, afirmou o cientista brasileiro Carlos Nobre, co-presidente do SPA.

 

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