Chuvas que assolaram cidades mineiras em 2020 são efeito das mudanças climáticas

Chuva em Belo Horizonte. Crédito: Adriano Ferreira [CC BY-NC-SA 2.0]

No ano passado, Belo Horizonte teve o janeiro mais chuvoso da história. Aumento da frequência e severidade das chuvas é atribuído ao aquecimento global.

Carros sendo arrastados, ruas e casas destruídas e dezenas de vidas perdidas: este foi o saldo de destruição deixado pelas tempestades que assolaram cidades mineiras no ano passado. Novo estudo publicado na revista Climate Resilience and Sustainability, revela que o aquecimento global contribuiu com o aumento da gravidade e intensidade das chuvas que atingiram Belo Horizonte e outros municípios de Minas Gerais.

A pesquisa revela que as mudanças climáticas elevam em 70% o risco de fenômenos naturais extremos em comparação com a temperatura pré-industrial. Ao menos 37 mil dos desalojados e R$ 550 milhões em prejuízos podem ser atribuídos ao aquecimento global, mostrou o estudo.

No caso das chuvas, o volume de precipitação esperado é muito maior quando comparado a cenários com temperatura aproximadamente 1°C mais baixa. Em Belo Horizonte, entre os dias 23 e 25 de janeiro de 2020, choveu 97% do esperado para o mês. As chuvas no Estado deixaram mais de 90 mil desalojados. O prejuízo financeiro, público e privado, chegou a R$ 1,3 bilhão.

No ano passado, Belo Horizonte teve o janeiro mais chuvoso da história. Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o município registrou 935,2 milímetros de precipitação naquele mês, quase o triplo da média esperada para o período. Pelo menos 56 mortes foram relacionadas às inundações e aos deslizamentos de terra causados pelas chuvas.

As chuvas que arrasaram BH e o restante do Sudeste do Brasil no ano passado foram resultado da intensificação da força da Zona de Convergência do Atlântico Sul (SACZ) e da ação do ciclone subtropical Kurumi (KSC) sobre o oceano, que contribuíram com a elevação da umidade sobre a região. “Os impactos humanos sobre a mudança climática não podem ser negligenciados, uma vez que estão associados a uma ampliação da frequência e da severidade desses eventos", indicou o estudo.

A pesquisa foi desenvolvida a partir da análise de dois cenários. No primeiro, foi considerada a temperatura pré-industrial e apenas influências naturais, como energia solar e vulcânica. O segundo cenário foi construído a partir da temperatura atual, 1,1ºC superior à da era pré-industrial, e fatores antropogênicos, como desmatamento e poluição. Além disso, foram analisados dados de eventos climáticos das regiões estudadas.

“Nossa avaliação traz novos insights sobre a necessidade e urgência de ações sobre as mudanças climáticas, pois já estão impactando efetivamente a sociedade na região Sudeste do Brasil. Isso exige melhorias imediatas no planejamento estratégico com foco na mitigação e adaptação. A gestão e as políticas públicas devem evoluir a partir do modus operandi de resposta a desastres, a fim de prevenir outros no futuro”, destacaram os autores do estudo.

Situação dos rios em Belo Horizonte

Embora as mudanças climáticas tenham grande influência sobre o aumento da severidade das chuvas, há outros fatores que contribuem com a tragédia causada pelas enchentes e deslizamentos em 2020, como a canalização de cursos d’água, a supressão de áreas verdes e o crescimento urbano desordenado.

Em BH, estima-se que a canalização encobriu 200 dos 700 quilômetros dos cursos d’água do município. Entre os rios confinados estão o córrego do Leitão, que está abaixo da avenida Prudente de Morais; o Acaba Mundo, sob a avenida Uruguai; e o córrego Serra, que corre pelo bairro homônimo até o Funcionários.

O encobrimento dos cursos d’água, além da impermeabilização do solo por meio do asfalto, deixou a cidade mais vulnerável às enchentes. Com o aquecimento global e o consequente aumento de precipitações acima do normal, é necessário reverter esse modelo de urbanismo que soterra os rios em vez de deixá-los respirar. Há diversas alternativas para amenizar o problema, como corredores ecológicos, telhados verdes e “concretos impermeáveis”. Veja 5 alternativas para combater enchentes em centros urbanos.

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