Resíduos de até 7 agrotóxicos são encontrados em biscoito água e sal

Análise constatou presença de agrotóxicos em alimentos ultraprocessados populares no dia a dia dos brasileiros, como biscoitos e salgadinhos.

Com alto teor de sal, açúcar e gordura, alimentos ultraprocessados estão relacionados a doenças do coração, diabetes e cânceres. Uma avaliação do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), mostrou que, além dos malefícios já conhecidos para a saúde, esses produtos estão contaminados por agrotóxicos.

O Idec avaliou 27 itens populares no cotidiano dos brasileiros, como biscoitos, bisnaguinhas e salgadinhos. Resíduos de 13 agrotóxicos diferentes foram encontrados nesses alimentos. Em uma amostra de biscoito água e sal, por exemplo, foram achados resquícios de até sete pesticidas.

Das oito categorias analisadas (refrigerantes, néctares, bebidas de soja, cereais matinais, salgadinhos, pães de trigo, biscoitos água e sal e recheados), seis apresentaram resíduos de agrotóxicos. Quase 60% dos produtos continham pelo menos um tipo de pesticida, principalmente glifosato ou glufosinato, que estavam em 51,8% das amostras.

Embora o glifosato seja apontado como substância possivelmente cancerígena pela Organização Mundial da Saúde, ele ainda é o pesticida mais utilizado no Brasil. Hoje, o produto representa 62% do total de herbicidas utilizados em território nacional.

Recentemente, pesquisadores da Universidade de Princeton, Fundação Getúlio Vargas (FGV) e Insper, associaram seu uso a 503 mortes infantis por ano. Estima-se que o glifosato gerou aumento de 5% na mortalidade infantil em municípios do Sul e Centro-Oeste do Brasil, que recebem águas de regiões produtoras de soja.

Dependentes de agrotóxicos, a soja e outras commodities são os ingredientes principais dos ultraprocessados. “Essa descoberta reforça a necessidade de mudanças em nosso sistema alimentar, em que o modelo agrícola predominante é baseado na monocultura. Esse tipo de produção visa a atender a grande demanda por commodities, como soja, milho, trigo e açúcar, e faz um uso intensivo de agrotóxicos, tornando-se insustentável dos pontos de vista social, ecológico e sanitário”, apontou o Idec.

O Instituto também chama a atenção para a maior disponibilidade e acessibilidade a ultraprocessados. “Não é por acaso que esses produtos são promovidos por agressivas estratégias de publicidade que induzem ao seu consumo excessivo”, indicou.

O que são ultraprocessados?

De acordo com o Idec, os produtos ultraprocessados são formulações industriais produzidas a partir de diversas técnicas de processamento e com muitos ingredientes, incluindo sal, açúcar, gorduras e substâncias de uso exclusivamente industrial. O seu processamento visa à criação de produtos prontos para o consumo, como refrigerantes, guloseimas, sorvetes e fórmulas infantis, por exemplo.

São o oposto dos alimentos in natura, obtidos diretamente da natureza, como as partes comestíveis das plantas (frutas, verduras, legumes, sementes, raízes e tubérculos) e animais (carnes, miúdos, ovos e leite).

Estudos mostram que o processamento nem sempre elimina os pesticidas dos alimentos, e pode, em alguns casos, até aumentar a concentração de substâncias químicas. Por exemplo, a concentração de agrotóxicos pode aumentar 20 vezes na manteiga em comparação ao leite.

Produtos contaminados por agrotóxicos

Dos alimentos analisados pela pesquisa, os que continham resíduos de agrotóxicos são:

  • Bebida de soja Naturis (Batavo)
  • Cereal matinal Nesfit (Nestlé)
  • Salgadinhos Baconzitos e Torcida (Pepsico);
  • Bisnaguinhas Pullman (Bimbo), Wickbold, Panco e Seven Boys (Wickbold)
  • Biscoitos de água e sal Marilan, Triunfo (Arcor), Vitarela e Zabet (M Dias Branco)
  • Biscoitos recheados Bono e Negresco (Nestlé), Oreo e Trakinas (Mondeléz)

Todos os alimentos analisados que tinham trigo como ingrediente também continham agrotóxicos. Os produtos foram comprados em março e novembro de 2020 em supermercados de Campinas (SP).

Os fabricantes já foram notificados em relação às substâncias detectadas. Os que responderam ao Idec alegam que a quantidade de agrotóxico está dentro dos limites permitidos ou que seguem boas práticas dos fornecedores de matéria-prima.

De fato, não há regulação sobre o limite máximo desses resíduos em ultraprocessados, pois a Anvisa monitora agrotóxicos apenas em alimentos in natura. “É urgente que os órgãos fiscalizadores se debrucem sobre isso, e que a população seja informada a respeito da contaminação do que está comendo, bem como sobre os riscos desses produtos para a saúde”, destacou Teresa Liporace, diretora executiva do Idec.

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