Em 15 anos, tatu-canastra pode desaparecer do Cerrado no Mato Grosso do Sul

A caça e a perda de habitat são as principais ameaças ao tatu-canastra. Crédito: Instituto de Conservação de Animais Silvestres/Acervo

Fragmentação da paisagem desafia conservação da espécie, que já perdeu 30% da população nos últimos 24 anos.

A devastação do Cerrado é uma das principais ameaças às espécies nativas do bioma, como o tatu-canastra (Priodontes maximus). No Mato Grosso do Sul, a situação já é crítica. Hoje, existem menos de 70 fragmentos do bioma no estado que são viáveis para a sobrevivência do mamífero. Estima-se que espécie desapareça do Cerrado sul-mato-grossense em até 15 anos.

O alerta é de pesquisadores do Programa de Conservação do tatu-canastra do Instituto de Conservação de Animais Silvestre (ICAS). Para avaliar o grau de ameaça à espécie, eles analisaram a vegetação nativa que ainda resta no estado e buscaram por tatus em mais de 30 municípios. As descobertas foram divulgadas em artigo cientifico, publicado na revista Perspectives in Ecology and Conservation.

O presidente do ICAS e fundador do Projeto Tatu-canastra, Arnaud Desbiez, disse que já se esperava que a situação do animal no Cerrado fosse urgente. A partir disso, foi feita uma primeira pergunta: "existe ainda tatu-canastra do Cerrado do Mato Grosso do Sul? E onde?”, disse ao G1.

Entre 2015 e 2017, os pesquisadores analisaram áreas no entorno de 344 microbacias hidrográficas, com 164 presenças confirmadas, por meio de evidências indiretas, como tocas inconfundíveis ou escavações para alimentação. A partir das análises, eles descobriram que há apenas 70 locais viáveis para a sobrevivência da espécie, cuja área de vida ideal é de pelo menos 25 quilômetros quadrados.

"A pesquisa mostra que essa espécie está muito ameaçada no Cerrado e que o habitat está muito fragmentado. Isso significa que, para trafegar de um fragmento para o outro, o tatu-canastra tem que atravessar rodovias e grandes áreas de pastagem, correndo o risco de ser perseguido, caçado, atropelado ou até atacado por cães, uma situação extremamente preocupante”, ressaltou Desbiez.

A situação se agrava com a lenta reprodução da espécie. De acordo com o projeto, o tatu-canastra se reproduz só depois dos sete anos, quando atinge a maturidade sexual. Cada ninhada dá origem a um único filhote e o intervalo entre as gestações é de três anos. A baixa capacidade de recuperação populacional, coloca o animal em grande risco de extinção, podendo desaparecer entre 15 e 30 anos.

O tatu-canastra já desapareceu em boa parte de sua distribuição sul, sendo considerado extinto no Paraná, provavelmente extinto em São Paulo e em vias de extinção no Espírito Santo, segundo o Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção.

Para os pesquisadores, reverter esta situação exige um esforço na identificação de estratégias de manejo que podem ser aplicadas para conectar os fragmentos de habitats existentes. A conservação do Cerrado também deve tornar-se prioritária.

A espécie
O tatu-canastra é o maior de todos os tatus existentes no mundo, podendo medir até 1,5 metro de comprimento e pesar até 60 quilos. Visivelmente, os machos são maiores e mais pesados que as fêmeas. Esses gigantes, raramente são vistos por apresentarem comportamento solitário e padrão de atividades noturno. Sua dieta é constituída, principalmente, de cupins e formigas.

Ao contrário de outros tatus, o canastra costuma destruir cupinzeiros quando está se alimentando, por isso possui papel essencial na regulação das populações desses insetos. Estima-se que pelo menos 30% da população do animal foi perdida nos últimos 24 anos devido à caça e à destruição dos biomas brasileiros.

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