O Rodoanel de BH é necessário, mas há alternativas de menor impacto e custo do que a proposta do governo  

Atual traçado do Rodoanel sobrepõe áreas de grande riqueza natural na região da Serra da Calçada.

O traçado proposto parece basear-se no estranho princípio de “áreas despovoadas”, como se animais, rios e florestas não “povoassem” a região.

Press release

Belo Horizonte, 12 de janeiro - A construção do Rodoanel Metropolitano de BH volta à tona, com o governo de Minas anunciando que será custeado com recursos da indenização pleiteada à Vale em função do desastre da mina do Córrego do Feijão. A empresa patrocinou os estudos preliminares do mesmo. O traçado da Alça Sul disponibilizado no site da Secretaria de Infraestrutura, se mantido, causará impactos ambientais inaceitáveis.

Pela proposta apresentada, o segmento sul da nova rodovia inicia-se na BR-381, em Betim, e tangencia os limites do Parque Estadual da Serra do Rola Moça, cortando importantes áreas naturais da Vale e de terceiros, algumas já declaradas como Reservas Particulares de Patrimônio Natural. Estas áreas, situadas ao longo do alinhamento das serras do Rola Moça e dos Três Irmãos, além de funcionarem como significativo corredor de ambientes naturais, protegem o manancial de água do Rio Paraopeba, considerado o segundo mais importante de toda a RMBH.

Caminhando em direção à BR-040, saída para o Rio de Janeiro, a rodovia atravessará, nas imediações de Casa Branca/Brumadinho, esplêndidos remanescentes de Mata Atlântica, como os da Fazenda Jangada, da Vale. Seguindo em direção à Serra da Calçada, a rodovia cortará seu trecho mais importante pelos aspectos geomorfológico e de biodiversidade – a Tutaméia, onde grandes e antigos remanescentes de Mata Atlântica, com árvores colossais, Cerrados e várias tipologias campestres, incluindo os raríssimos campos ferruginosos, graminosos e quartzíticos, marcam a diversidade da paisagem.

Parte desta área encontra-se protegida pelo Monumento Natural da Serra da Calçada, que abriga relíquias históricas, como o Forte de Brumadinho, cuja implantação remonta ao ciclo do ouro, e várias trilhas pavimentadas com pedras. Elas eram usadas no século XVIII para transporte de alimentos entre a localidade de Piedade do Paraopeba e os centros mineradores de Ouro Preto, Congonhas e Mariana. O local fica apenas a 25 km de Belo Horizonte e tornou-se ponto de atração turística para caminhantes e ciclistas.

Apesar de tão próximos à capital, os ambientes naturais neste trecho da serra e no vale do Paraopeba, em Brumadinho, abrigam animais ícones de nossa fauna, como a onça-parda, lobo-guará e diversas outras espécies ameaçadas de extinção, ocorrências que indicam o alto nível de conservação dos mesmos. Curiosamente, o traçado proposto parece basear-se no estranho princípio de “áreas despovoadas”, como se animais, rios e florestas não “povoassem” a região.

É de conhecimento público o gigantesco potencial de danos ambientais causados por rodovias. Começam durante a construção, com a remoção da vegetação natural, barulho de máquinas que apavoram a fauna, movimentação de terra que em boa parte é carreada para cursos d’água e lixo. Mas, o pior acontece quando são abertas ao tráfego.

No caso do Rodoanel Sul, a Serra da Calçada e o Parque Estadual da Serra do Rola Moça funcionam atualmente como limitadores à ocupação humana. O traçado proposto abrirá as portas para que isso aconteça, ampliando a derrubada da Mata Atlântica, aumentando os riscos de incêndios, presença de lixo e o flagelo ambiental do atropelamento de animais silvestres, considerado hoje como uma das maiores causas de extermínio da fauna nas regiões brasileiras mais densamente ocupadas.

Não se discute aqui a importância do Rodoanel, cuja necessidade é inquestionável, já que o atual foi engolido pela expansão urbana desordenada, permitida pelo poder público. Mas também inquestionável é a necessidade de proteção dos ambientes naturais e do patrimônio histórico-cultural que o traçado proposto atinge. Há alternativas de muito menor impacto e custo, que não podem ser ignoradas. Conciliar os dois aspectos é dever do governo. O Rodoanel é necessário. Mas não mais que os serviços ambientais, sociais, culturais e econômicos prestados pela natureza.

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