Caatinga perdeu 75% de seus mamíferos nos últimos 500 anos

Anta brasileira desapareceu em 62% de sua área de ocorrência original.

 O semiárido brasileiro, ao lado da Mata Atlântica, é um dos biomas mais impactados pela defaunação na América Latina.

A perda de habitat devido à expansão agrícola, extração de madeira e incêndios, além da caça predatória, têm gerado efeitos catastróficos sobre a fauna silvestre. Um estudo que avaliou os impactos das ações humanas sobre a vida selvagem, indicou que quase 60% dos mamíferos de médio e grande porte desapareceram da América Latina nos últimos 500 anos. As descobertas foram publicadas na revista Scientific Reports.

As descobertas sugerem que a defaunação pode ter início em grandes biomas e áreas quase intactas, que estão cedendo ao avanço do desmatamento. A degradação dos ambientes naturais e a caça são apontadas como as principais responsáveis pelo processo de drástica redução da fauna.

Biomas brasileiros, como a Mata Atlântica e a Caatinga, estão entre os mais afetados pelo fenômeno das “florestas vazias”, com perdas de 62% e 75%, respectivamente, dos mamíferos nativos. A alarmante perda de fauna nos biomas é resultado de aproximadamente 500 anos de desmatamento e caça excessiva. As perdas fazem do Brasil o terceiro no ranking de defaunação, atrás apenas da Nicarágua e Honduras.

De acordo com os pesquisadores, os prejuízos são maiores do que o esperado. “Estimativas recentes de defaunação em escala global parecem excessivamente otimistas, especialmente para regiões altamente degradadas, como o semiárido da Caatinga e a Mata Atlântica”, indicou o estudo.

Em contrapartida, o Pantanal registrou o menor nível de defaunação entre todos os biomas: 34%. Ao lado da Amazônia e Patagônia, as planícies alagadas brasileiras hospedam, hoje, as populações mais intactas de mamíferos. Entretanto, a situação tende a mudar nos próximos anos devido à crescente demanda por alimentos e o consequente avanço da fronteira agrícola.

Na Amazônia, os incêndios florestais desempenham a maior pressão sobre os mamíferos. O fogo, cada vez mais frequente e intenso, desencadeia uma série de efeitos prejudiciais à biodiversidade, particularmente em áreas que nunca foram queimadas.

O estudo, desenvolvido por pesquisadores da Universidade de East Anglia e da Universidade de São Paulo (USP), compilou dados de 1.029 comunidades de mamíferos neotropicais presentes em 23 países. É análise mais ampla já realizada sobre o tema.

Miniaturização da fauna

Além da queda no número e diversidade de animais, os cientistas observaram um processo de miniaturização nos mamíferos tropicais. Espécies de grande porte e ungulados, como cervídeos, antas e porcos-do mato, são mais visadas por caçadores e necessitam de áreas maiores para sobrevirem, por isso são extintas antes dos animais menores. Estima-se que o desaparecimento das grandes espécies reduziu a média corporal dos mamíferos latinos de 15 kg para 4 kg.

Apenas a anta brasileira, maior mamífero terrestre da América do Sul, desapareceu em 62% de sua área de ocorrência original. A dieta herbívora e generalista faz do animal um importante dispersor de sementes, essencial para a manutenção dos ecossistemas. A ausência desses animais pode levar a um colapso dos processos ecológicos desempenhados por eles.

Conservação

Os resultados reforçam a importância das áreas protegidas, onde a defaunação, em média, foi 18,3% menor em relação a regiões desprotegidas. Para os cientistas, proteger novas áreas auxilia na conversação das espécies, pois ajuda a manter a cobertura vegetal nativa. Os territórios indígenas também desempenham um papel fundamental de conservação.

"Isso inclui a implementação efetiva e a aplicação da lei nas áreas protegidas existentes e a redução das pressões políticas para rebaixar ou reduzir o tamanho dessas áreas. Maior investimento deve ser alocado para um controle mais eficaz da caça ilegal, especialmente a caça comercial, desmatamento e incêndios antropogênicos para garantir que as áreas protegidas totalmente implementadas e estejam funcionando”, explicou Juliano André Bogoni, um dos autores do estudo. 

 

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