Venda de tratores utilizados em desmatamento bate recorde em meio à pandemia

"Correntão" é prática que utiliza tratores para desmatar/Crédito: De olho nos ruralistas/Divulgação

Para ambientalistas, aumento das vendas indica "investimento” de madeireiros, grileiros e criminosos ambientais.

Com a paralisação de grande parte da indústria durante a pandemia, as vendas do setor automotivo e segmentos relacionados despencaram. Entretanto, a procura por tratores de esteira – veículos pesados comumente utilizados na derrubada florestal – dobraram nos primeiros meses do ano. O aumento coincide com as altas taxas de desmate registradas na Amazônia.

Segundo o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), a derrubada da floresta amazônica cresceu 171% em abril deste ano em comparação ao mesmo período de 2019, abrangendo 529 km² do bioma. Este é o maior índice de desmatamento dos últimos 10 anos.

Dados preliminares do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), também indicaram tendência de aumento. Os alertas de desmatamento na Amazônia cresceram 64% em abril de 2020 e 51% nos três primeiros meses do ano em comparação a mesma época de 2019, informou o Inpe.

Ao mesmo tempo, as vendas de tratores de esteira dobraram. De acordo com a Associação Nacional de Veículos Automotores (Anfavea), entre janeiro e abril deste ano foram vendidos 247 tratores desse tipo, contra 115 vendas do ano passado. É o maior número desde 2013, quando foram comercializados 277 veículos. Cada um pode custar entre R$ 500 mil e R$ 1 milhão.

Em comparação a outras máquinas agrícolas e rodoviárias, o trator de esteira também apresentou números melhores. Tratores de rodas, por exemplo, venderam 5,17% menos no primeiro quadrimestre de 2020. As colheitadeiras de grãos ostentaram números ainda mais baixos. Estima-se que as vendas da máquina caíram 33% neste ano na comparação com 2019.

O consumo de colhedores de cana até aumentou em 2020 em relação ao ano passado, mas, mesmo assim, a elevação (32,5%) não se equipara ao aumento do trator, cujas vendas dobraram.

Embora os tratores de esteira sejam empregados na construção civil, o setor sofre os efeitos da pandemia do novo coronavírus sobre a economia. Já o desmatamento, atividade que também utiliza esse tipo de máquina, tem crescido desde os primeiros meses do ano com o enfraquecimento da fiscalização ambiental.

A relação entre a venda recorde de tratores e a elevação do desmatamento é apenas uma hipótese, considerada “bastante razoável” pelo professor de Gestão Ambiental na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Raoni Rajão.

"A questão principal é que 2019 não foi um ano particularmente bom para a construção civil. Muito menos os primeiros meses de 2020. O investimento público também está menor, então a evidência aponta que esses equipamentos não estão sendo usados para construir estradas", destacou o especialista que estuda a Amazônia há 20 anos.

Ambientalistas classificam o aumento das vendas como possível “investimento” de madeireiros e grileiros que pretendem derrubar a floresta, enquanto o país está centrado na pandemia.

Para Rajão, as políticas do governo atual podem favorecer e anistiar crimes contra o meio ambiente. O professor citou a Medida Provisória 910/2019, substituída pelo Projeto de Lei 2633/2020, como um incentivo a atividades ilícitas. O texto permite a regularização de terras que já foram desmatadas ilegalmente, por isso é apontado como um prêmio à grileiros e criminosos ambientais.

"O criminoso faz um cálculo de risco. Se o governo diminui a fiscalização, estou sinalizando que está na hora de fazer mais isso. Junto com isso vem uma MP que dá mais certeza ainda de que vai haver a regularização no futuro. No fundo, o governo está dizendo para as pessoas que elas vão ter seu retorno ao desmatar" afirmou.

 

Com informações de Gazeta do Povo

 

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